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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Quem decide é o povo, não é o Renato.

 

Meu caro Renato: direita tudo bem, extrema nem por isso e templário muito menos. Até porque a extrema-direita, como devias saber, até é tendencialmente republicana (basta verificares que o principal partido nacional-socialista espanhol é o MSR - Movimento Social Republicano). Isto para não falar de todas as famílias reais que foram depostas, umas vezes exiladas e outras vezes mortas, pelas ditaduras do último século (de direita e esquerda).

Ditadura e monarquia são coisas que não combinam, principalmente na Europa moderna e no mundo actual (vivemos no século XXI), onde uma grande parte dos países mais desenvolvidos são efectivamente monarquias. Mesmo a tão liberal (do ponto de vista social) Holanda e os tão sociais-democratas estados escandinavos, recorrentemente elogiados pela esquerda, são monarquias.

O rei é o primeiro entre os seus pares e o seu poder emana directamente do povo - se o povo assim o desejar, óbviamente. E não foram raros os casos em que o povo foi chamado a votar para escolher a forma de chefia de estado do seu país, os melhores exemplos são os referendos feitos na Austrália e no Canadá. Em ambos os casos o povo decidiu manter a rainha. Em outros países, o povo optou pela chefia de estado republicana - o povo deve ser soberano.

Fiquei, na mesma, sem resposta à minha pergunta: porque é que os republicanos não permitem um referendo à monarquia?

De acordo com Pacheco Pereira

José Pacheco Pereira alertou ontem, falando em representação do PSD na tribuna de São Bento, para estes factos que muitos parecem esquecer: os regimes não são eternos e a I República teve morte prematura, entre outros motivos, por não ter sabido gerir as finanças públicas.

Por uma vez, tenho de concordar com o ex-líder parlamentar dos sociais-democratas. Nem podia ser de outra forma: 48 horas antes, eu próprio tinha escrito algo semelhante aqui.

A caminho da República (20)

 

5 (30 de Setembro de 1910)

Segundo dia de greve dos corticeiros e tanoeiros. O DN descreve pormenorizadamente as assembleias de trabalhadores e as negociações com o governo de Teixeira de Sousa, que não podia resolver o assunto por estar em gestão, como hoje se diz, e o parlamento recém-eleito ainda não ter reunido.

O conflito girava em torno da questão da exportação de cortiça, que tirava trabalho a operários da indústria de transformação. Os trabalhadores exigiam a suspensão imediata de exportações de cortiça e o governo tentava ganhar tempo.

No Barreiro houve motins, que entretanto tinham acalmado. As reclamações operárias não seriam atendidas pelo Governo, o qual não queria proibir a exportação para Espanha de 500 mil arrobas de cortiça que estavam na estação de Santa Apolónia. O governo justificava a sua oposição pelo facto de isso poder provocar “um conflito internacional”.

A reportagem do DN conta pormenorizadamente o que sucedeu nas assembleias de operários. Numa delas, foi dada a palavra a uma mulher, a operária corticeira Maria Augusta, o que julgo seria um caso raro num evento destes. Maria Augusta foi muito aplaudida e pediu às “suas companheiras” para acompanharem sempre os operários. “O senhor presidente do conselho [Teixeira de Sousa] que fez tantas leis poderia também fazer um decreto proibindo a exportação da cortiça em bruto”, disse esta mulher, que prometeu acompanhar o marido “nas lutas contra o seu mal estar”.

 

4 (1 de Outubro de 1910)

O presidente eleito da República do Brasil, marechal Hermes da Fonseca, chegou a Lisboa a bordo do couraçado da marinha S. Paulo. Foi uma ocasião histórica, que o DN celebrou com fotografias e abundante reportagem. O marechal “teve a recepção entusiástica que era prevista”, escrevia este jornal, antes de se lançar num elaborado elogio e lembrar “as duas mil léguas de água que nos separam da sua pátria (…) para num amplexo fraterno estreitarmos o Brasil, esse já glorioso país que o velho Portugal alentou, esse povo que é sangue do nosso sangue”.

O marechal Hermes da Fonseca era “cabo de guerra muito ilustrado” e o DN parece rivalizar com a imprensa estrangeira a gabar os seus feitos. Na passagem do presidente eleito por França, Le Matin comparou-o com Napoleão. E os jornais alemães “fizeram-lhe as mais agradáveis referências, pondo em relevo as suas qualidades de militar”.

O rei D. Manuel saberia da revolta do 5 de Outubro durante o banquete oferecido ao presidente brasileiro. E o marechal ficou a bordo do S. Paulo durante a revolução em Lisboa, assistindo a toda a agitação.

Hermes da Fonseca tomou posse como presidente brasileiiro a 15 de Novembro e uma semana depois enfrentou uma perigosa revolta de marinheiros. Esse protesto chama-se Revolta da Chibata e teve feroz repressão. Aderiram três navios da marinha brasileira, entre eles o couraçado S. Paulo.

 

3 (2 de Outubro de 1910)

A primeira página do DN mostra uma fotografia da sala onde decorrera um sumptuoso banquete em honra do marechal Hermes da Fonseca, presidente eleito do Brasil, de visita a Portugal. Outro banquete, duas noites depois, também para Hermes da Fonseca, ficaria na História de Portugal como o momento em que os dirigentes do regime monárquico se aperceberam da agitação revolucionária em Lisboa, abandonando a cerimónia e deixando a refeição a meio.

Mas a notícia mais interessante do dia cita o jornal inglês The Daily Chronicle, que num artigo sobre Portugal mencionava uma questão muito importante para os monárquicos e que, a partir de 5 de Outubro, perderia qualquer relevância: o casamento do rei D. Manuel.

Dizia o Daily Chronicle, cujo enviado especial falara com o ministro dos Negócios Estrangeiros, que o governo desejava um casamento de D. Manuel com uma princesa inglesa, para consolidar a ligação anglo-britânica. Entre as duas casas reais estariam a decorrer negociações para o projectado casamento, “cuja aliança tinha esperanças de ver dentro em breve realizada”.

Não houve tempo. D. Manuel era anglófilo, mas casou em 1913 com uma princesa alemã. O último rei português morreu em 1932, pouco antes de fazer 43 anos. Não teve filhos.

 

2 (3 de Outubro de 1910)

A edição do Diário de Notícias que narra os acontecimentos de dia 3 é dominada pela informação que agitou a cidade de Lisboa naquele dia, de que o dr. Miguel Bombarda tinha sido assassinado por um seu antigo doente.

Miguel Bombarda era o líder civil da revolução que se tinha marcado para a madrugada de dia 4. O dirigente republicano e médico psiquiatra estava no hospital de Rilhafoles, a dar consultas, quando chegou uma carruagem com um indivíduo bem vestido, que se apresentou ao porteiro, dizendo que desejava falar com o director. Era o tenente de infantaria, com o curso de Estado-maior, Aparício Rebelo dos Santos, que ali se tratara em 1909. Bombarda considerara este doente incurável e a família enviou Aparício dos Santos para Paris. O tratamento ali também fora inútil.

O tenente esperou por Miguel Bombarda no gabinete deste e o médico, mal entrou, foi imediatamente atingido com três tiros de pistola automática, disparados à queima-roupa.

A morte de Bombarda provocou grande emoção entre os republicanos. Nessa madrugada, de 4 para 5, após algumas hesitações, começou o golpe que iria derrubar a monarquia. Este jornal ía para a máquina muito tarde, por isso a edição de dia 4 já tem informação, ainda muito confusa, sobre o movimento militar. Faltavam dois dias para a República, mas já tinha começado o momento histórico.

 

1 (4 de Outubro de 1910)

A primeira notícia sobre a revolução de 5 de Outubro começa da seguinte forma: “À 1 da manhã, constando-se ter havido tiros nas proximidades de Campolide tomámos imediatamente um automóvel e para ali nos dirigimos no intuito de informarmos os nossos leitores do que se passava. Circulavam os eléctricos e seguindo-lhes a linha naquela direcção, subimos até ali”.

O repórter do DN percebe que há várias unidades militares sublevadas e são reportadas fuzilarias a diversas horas. À 1 e 20 de dia 4, por exemplo. E às 2 da manhã, quando os navios da armada, no Tejo, disparam salvas. Explicação: tratava-se de tiros de chamamento dos oficiais que estavam em terra.

Este texto não identifica a natureza dos distúrbios e limita-se a enunciar, de forma muito factual, as horas e os locais onde houve os primeiros incidentes.

Às 3 e 35: “Insubordinou-se a guarnição do cruzador S. Rafael, partindo do arsenal uma força com instruções para o submeter, não podendo, porém, atracar o navio. O regimento de infantaria 2 dirige-se para o Rossio”.

Às 4 e 30, a última notícia ainda recolhida nessa madrugada e incluída na edição do DN de dia 4, sob o título “Os Acontecimentos desta madrugada, movimento militar”:

“O governo esteve reunido em conselho até alta madrugada, mas não conseguimos obter qualquer informação sobre as suas deliberações. O regimento de cavalaria 4 veio de Belém em direcção a Lisboa, retrocedendo pouco depois”.

 

Crónicas baseadas nas edições do Diário de Notícias dos dias indicados.

 

A caminho da República (19)

10 (25 de Setembro de 1910)

Duas notícias revelavam um pouco da situação social do País. Um dos títulos: “Crianças desmoralizadas e ao abandono” dizia respeito a uma queixa enviada ao governador civil. Ali se conta que “vagueiam pela cidade [de Lisboa], principalmente nas ruas da baixa, grupos de crianças”, com idades entre 7 e 12 anos, “que se entregam à pilhagem e a actos de devassidão”. O texto vai por ali fora, criticando estes jovens pela linguagem ordinária, pequenos roubos e discussões. “Como pela pouca idade que têm são irresponsáveis, a polícia, não podendo fazer outra coisa, chama os pais e entrega-as”.

No Barreiro ocorrera um pequeno episódio tendo como pano de fundo a construção do caminho de ferro do sul e sudeste, que atraía muitos trabalhadores, em concorrência pelas oportunidades. Armando dos Santos [cujo nome a meio da notícia muda para Amaro] viera de Évora. Trabalhou na descarga e foi despedido, pois havia mais procura do que oferta. Às tantas encontrou um tal Baptista, responsável pelos descarregadores, e pediu-lhe trabalho. O outro respondeu com uma violenta bofetada. Armando (ou Amaro) pegou num canivete e virou-se para Baptista, mas 10 homens da companhia deste sovaram o trabalhador de Évora, de forma a que “batessem com a cabeça na parede, onde deixou relevantes vestígios daquela enorme brutalidade”.

 

9 (26 de Setembro de 1910)

O DN referia, na página 2, em baixo, os ecos de uma entrevista que dias antes tinha sido publicada pelo jornal britânico Daily Mail. O entrevistado era Sebastião Magalhães Lima, apresentado como “ilustre democrata e jornalista”. O sugestivo título, “O Dilema do Rei Manuel” e, a sub-epígrafe “é inevitável a queda da monarquia” dizem quase tudo.

Magalhães Lima é uma figura central da história da República. Antigo fundador do jornal O Século (rival do DN), grão-mestre da maçonaria, viria a redigir a Constituição de 1911.

O correspondente em Paris do Daily Mail, depois de “consagrar algumas referências amáveis ao dr. Magalhães Lima”, escreve sobre a situação interna em Portugal, citando o "ilustre" republicano. Segundo Lima, a “oposição monárquica compõe-se de conservadores, reaccionários e clericais” que “pretendem arrastar o exército para uma repressão violenta, de maneira a poderem cercear todas as liberdades públicas”. Na opinião do dirigente republicano, “o exército será incapaz de atraiçoar a liberdade e chacinar o povo e colocar-se ao lado dos opressores”.

Segundo Magalhães Lima, citado pelo DN com base na entrevista ao Daily Mail, “a queda da monarquia é inevitável e o advento da república é uma questão de tempo. O resultado das últimas eleições equivale a uma grande vitória alcançada pelo partido republicano português”.

Na realidade, este partido vencera apenas em Lisboa. A 5 de Outubro, o exército estaria sobretudo do lado da monarquia e a revolução quase fracassou.

 

8 (27 de Setembro de 1910)

O DN contara, em várias edições anteriores, os pormenores da grande organização do centenário da Guerra Peninsular. Nesta terça-feira, 27 de Setembro, realizaram-se as cerimónias oficiais dos cem anos da Batalha do Buçaco, em que se enfrentaram tropas anglo-portuguesas, comandadas por lorde Wellington e o exército francês comandado pelo marechal Masséna.

Nas comemorações dos cem anos havia mais público do que houvera combatentes na famosa batalha. Calculava-se uma multidão de 150 mil pessoas (tinham combatido 25 mil ingleses e 25 mil portugueses contra 65 mil franceses).

A reportagem do DN é muito bem escrita: “Foi realmente assombrosa a concorrência de público que ontem, desde as primeiras horas da manhã, ainda iluminada por um sol desanuviado e limpo, mas ardendo, invadiu toda a extensa zona compreendida entre a estação do Luso e a alta planície que cerca o cume da serra do Buçaco”.

Mais à frente, este curioso fragmento sobre o “(...) extenso formigueiro, que se arrastava num ondular cadenciado, ao som dos descentes (?) das cachopas, na sua maioria formosas, sadias e de belo aspecto, enlevo dos seus conversados, e alvos em que naturalmente se fixavam os olhos da soldadesca gulosa e dos paisanos... da cidade”.

Depois, houve missa, benção da bandeira, simulações de combates, na presença de el-rei.

 

7 (28 de Setembro de 1910)

O clima de instabilidade e nervosismo percebe-se em pequenas notícias do DN, como uma brevíssima com referência ao artigo de Magalhães Lima publicado no The Nation, de Londres, mas sem comentários, outra com título "O Caso da rua Garrett" e apenas cinco linhas, onde se conta como o objecto metálico encontrado à porta da redacção do jornal Portugal não tinha, afinal, explosivos.

O editorial dedica-se à questão do crédito agrícola, que este jornal gostaria que fosse criado em Portugal. Um bocadinho de ironia sobre as resistências governamentais: “O governo apresenta-se com aspectos tão democráticos e liberais copiando, para suas iniciativas, exemplos de nações de ideias tão avançadas, como agora se diz, que logicamente deve também, no campo económico buscar ali ensinamento e lição”.

O autor queria o modelo da República Francesa, no que ao crédito agrícola dizia respeito, e explica as vantagens ali obtidas. Depois, um lamento tão frequente nos intelectuais portugueses de todos os tempos: “Diz-se contra este projecto que a nossa gente o não saberá aproveitar pela sua péssima educação viciada pela politiquice ao alto e pela ignorância ao baixo”.

O crédito agrícola poderia salvar a situação criada pela “crise vinícola intensíssima”, defendeu ainda o autor do editorial.

  

6 (29 de Setembro de 1910)

A notícia do dia foi a da greve geral dos corticeiros, que mudou a rotina entre Cabo Ruivo e Xabregas, onde mais de 4 mil trabalhadores do sector, além de familiares e amigos, encheram as ruas e paralisaram a laboração das fábricas.

“O aspecto daquela gente denunciava um mal estar”, escrevia o repórter do DN, numa história cheia de fotografias do acontecimento. A manifestação, que era na realidade apenas uma ocupação tranquila da rua, visava denunciar a exportação de cortiça em estado bruto, “que constitui o terror da enorme classe corticeira”, dependente da finalização de outros produtos da cortiça.

O enviado do DN fala com um operário “de faces encovadas, denunciando muitos dias de fome”. O homem é citado num longo parágrafo, com algumas palavras que talvez nem sejam as suas: “Já não bastava levarem a cortiça em pranchas; e para cavarem mais fundo a nossa ruína, até a cortiça em bruto nos querem levar, deixando uma tão grande classe mergulhando nos horrores da fome; não, isto não pode ser; isto tem de ter agora um limite. Lutamos única e simplesmente pelo pão dos nossos filhos e estamos dispostos a morrer por eles”.

Os protestos parece terem funcionado, pois o presidente do conselho (primeiro-ministro) Teixeira de Sousa prometeu que “sustaria a exportação de cortiça do país até abrir o parlamento".

 

Crónicas baseadas nas edições do Diário de Notícias dos dias indicados

A caminho da República (18)

 

15 (20 de Setembro de 1910)

Uma sensacional notícia sobre as proezas da aviação. Cinco aviadores tentavam concluir uma perigosa travessia em avião, entre Brigue, na Suíça, e Milão. O DN dava conta do avanço do aviador Chavez, cuja foto surge na primeira página do jornal (não a que usámos aqui). O aviador (cuja nacionalidade não é referida) conseguira atingir Simplon-Kuhn “tendo de interromper por causa do intenso nevoeiro”. Segue-se uma prosa cheia de adjectivos, pois certamente o pobre redactor tinha pouca informação e muito espaço para encher: “Quem ainda há poucos meses poderia adivinhar que um grupo de homens de uma rara audácia e de uma inaudita coragem tentaria galgar as serras escarpadas, as montanhas abruptas, os cabeços cobertos de neve intercalados por gargantas profundíssimas e precipícios tenebrosos?”

Quem poderia adivinhar, de facto? No interior do jornal, está uma pequena notícia sobre um incidente que vitimara o doutor Miguel Bombarda. O psiquiatra, director do hospital de Rilhafoles e dirigente republicano, além de líder civil da conspiração que se preparava para criar um novo regime, fora atacado por três doentes psiquiátricos, rapidamente dominados pelos enfermeiros.

Era uma espécie de aviso para o ilustre médico. Daí a duas semanas, a 3 de Outubro, Bombarda seria morto a tiro por antigo doente, um acontecimento que provocou grande comoção na cidade e que se transformou num dos motivos da revolução de 5 de Outubro. Mas quem poderia adivinhar?

 

14 (21 de Setembro de 1910)

Numa semana cheia de notícias, esta quarta-feira foi recheada de pequenos fait divers importantes. Por exemplo, prosseguiam as tentativas de atravessar os Alpes em aeroplano, mais concretamente, de descer a vertente sul da cadeia de montanhas. O aviador Thadeoli tentara a sua sorte, mas ventos adversos fizeram gorar o voo.

E prosseguia a investigação judicial sobre o caso das bombas de João Borges, com interrogatórios que o DN narrava fielmente. As autoridades tinham detido um espanhol, de nome Parente, que depois libertaram, por falta de provas: “O homem declarou efectivamente, ser amigo de João Borges, ter ideias muito avançadas, mas incapaz de praticar qualquer atentado, não tendo, portanto, qualquer cumplicidade no fabrico dos explosivos apreendidos na travessa da Palha”.

A notícia inclui ainda um parágrafo revelador: “Pede-nos o sr. João Casqueiro, empregado nas oficinas de impressão do nosso colega 'Correio da Noite' que declaremos não ter ele o menor parentesco com António Casqueiro, preso por implicado no caso das bombas”.

 

13 (22 de Setembro de 1910)

Em editorial, o DN fazia a previsão da abertura das cortes, que seria no dia seguinte, sexta-feira, 23, com discursos solenes e presença do rei. O texto foi escrito com grandes cautelas, a antecipar uma “recepção cerimoniosa”, mas uma legislatura difícil, marcada pelas “discordâncias de opinião que existem entre os diversos partidos militantes”.

O editorial refere que as condições acústicas do parlamento “eram agora muito melhores”, mas sem o dizer, deixa o leitor a pensar que o tom dos debates seria gritado. “Os partidos estão numa grande efervescência, a qual mais se acentuará nas lutas parlamentares”, escreve o autor, para depois lamentar que domine a paixão e que não haja espaço para a reflexão prudente.

Depois, numa frase que seria desmentida daí a 13 dias, escreve-se: “O perigo imaginário, em muitos casos, é superior ao perigo real”.

O editorial do DN termina com uma nota optimista que a realidade não confirmou: “Aguardemos pois os acontecimentos, na benévola expectativa de que os dias que se seguirem dourem com um raio de prosperidade os destinos da nossa pátria, já que não são poucas as sombras que têm obscurecido até agora o seu horizonte”.

 

12 (23 de Setembro de 1910)

Realizou-se a sessão solene da abertura das cortes, com o “tempo lindíssimo” e a população de Lisboa na rua, a saudar o rei D. Manuel, que fez o discurso solene de abertura do parlamento, em São Bento, perante os deputados eleitos.

O monarca referiu-se à subida de Jorge V ao trono de Inglaterra, falou das eleições e elogiou o trabalho do governo na questão religiosa, defendendo as “prerrogativas da coroa”. Mencionou ainda a melhoria da situação financeira e agradeceu ao exército e marinha pela resolução da questão dos piratas chineses, que este jornal desenvolve num longo artigo, ao lado, onde se dá conta da prisão e extermínio de piratas que se refugiavam na ilha de Coloane, de onde atacavam a navegação local. As autoridades chinesas tinham agradecido a Portugal a eliminação deste perigoso grupo.

Eram restos de um bando que fizera o terror da região seis anos antes: “Ainda hoje se relembra com verdadeiro horror o assalto dos piratas ao vapor da carreira entre Macau e Hong Kong, o White Cloud, em que eles embarcaram como passageiros, atacando-o no alto mar, matando tripulantes e passageiros e exercendo as mais horríveis torturas na mulher e filha do capitão, que iam a bordo, para por fim serem todos trucidados”. O chefe dos piratas, Lam-kua-si, matava os seus prisioneiros de forma macabra. Extraditado para Cantão, Lam foi executado, cortado aos pedaços de forma a que apenas a última fragmentação lhe provocasse a morte. Suportou a tortura com altivez e indiferença.

 

11 (24 de Setembro de 1910)

A segunda parte do despacho do correspondente do DN em Macau conta os pormenores da pequena guerra entre piratas chineses, refugiados em Coloane, e as tropas portuguesas estacionadas em Macau. É uma narrativa cheia de peripécias, como num romance de aventuras de Emilio Salgari.

O bando de piratas dedicava-se à extorsão e raptou um grupo de estudantes de famílias chinesas ricas, exigindo um resgate avultado, equivalente a 18 contos, 18 milhões de reis, o que hoje seria uma verba a rondar 2 milhões de euros.

Os reféns foram levados para Coloane e as autoridades organizaram uma operação militar envolvendo 40 soldados de infantaria. No entanto, esta unidade cai numa emboscada logo ao desembarcar na ilha. No meio da confusão, perdeu-se o controlo da fortaleza local, que os piratas ocuparam.

Após bombardeamento executado por duas canhoneiras, os piratas foram forçados a fugir para as montanhas, mas a situação complicou-se devido a um tufão. O texto não menciona baixas e não explica a razão da população ter ajudado os bandidos que viviam do roubo.

Finalmente, numa caverna das montanhas de Coloane, foram capturados 15 piratas, com 13 mulheres e 3 crianças. As autoridades conservavam detidos 70 chineses suspeitos.

 

Estas crónicas baseiam-se nas edições do Diário de Notícias dos dias indicados.

 

A caminho da República (17)

20 (15 de Setembro de 1910)
O país sempre foi algo sonolento, mas na colónia de São Tomé e Príncipe, o sono (que neste jornal se escrevia "somno”) era um terrível perigo de saúde pública e que atingia os negros que tinham sido trazidos de Angola para abastecer as roças de mão-de-obra. Pelo “último paquete” chegara a Lisboa a preocupante notícia de uma epidemia de doença do sono que “fazia devastações pavorosas na população nativa da ilha do Príncipe, morrendo por mês em média de cerca de 50 pretos”.
Na altura, por qualquer razão não explicada, eram “raríssimos os nascimentos” e a população não excedia os 48 mil habitantes, pelo que os números da doença se tornavam preocupantes. A notícia citava uma estatística segunda a qual nos primeiros oito meses do ano anterior (1909) tinham sido “enterrados no cemitério da cidade nada menos de 457 nativos , quase todos os contratados em Angola”. Depois, a informação de que “em 1905 morreram ao todo na ilha 1310 pretos”, presume-se que vitimados pela doença do sono. Este era um eco dos perigos da vida colonial, da lentidão das comunicações e do atraso sanitário.

 

19 (16 de Setembro de 1910)
A acção policial contra quatro casinos clandestinos provocou cenas de pandemónio em vários locais de Lisboa. As rusgas foram simultâneas e causaram grandes ajuntamentos de população em frente aos edifícios onde a polícia desmantelava a operação ilegal. Os casinos funcionavam no “antigo palácio do sr. Marquez da Foz”, na rua de S. Nicolau, à esquina da rua do Ouro, no Jardim do Regedor e na Rua dos Correeiros. Houve “numerosas prisões e peripécias”, conta este jornal.
As cenas “picarescas” deram-se devido ao pânico da clientela destes estabelecimentos, pois “num primeiro momento, o de terror, muitas pessoas perderam completamente a cabeça”.
“Um indivíduo, querendo fugir pela janela, caiu desastradamente na rua, depois de ter torcido o pé e escangalhado um candeeiro de suspensão que existe ali à porta de uma tabacaria”. Na rua do Ouro, num episódio de que o repórter apenas ouviu falar, dois indivíduos ficaram  muito maltratados depois de saltarem para o saguão. A polícia apreendeu as cartas, as roletas, o dinheiro e levou os jogadores. “O número de presos eleva-se a 196”, noticiava o DN.

 

18 (17 de Setembro de 1910)
O Rei D. Manuel II presidira ao conselho de Estado (o verbo está correcto e é usado pelo DN) onde foi decidido aprovar uma amnistia a todos os crimes de abuso de liberdade de Imprensa, assunto que tinha envenenado o clima político da época e que só agora era resolvido. “É concedida amnistia geral e completa a todos os crimes de abuso de liberdade de Imprensa cometidos até à presente data”. Os processos a decorrer ficavam sem efeito. A questão tinha merecido duros ataques ao regime, mas a medida era tímida e surgia demasiado tarde.
A ajuda veio também demasiado tarde para um casal de mendigos envolvidos numa tragédia cruel, na Amadora, “a 18 quilómetros de Lisboa”. O DN usa o título sensacionalista de “O assassino maneta”. Manuel Pires perdera o braço num acidente de trabalho e tornara-se mendigo e alcoólico. Certa noite, procedeu ao “bárbaro espancamento” da sua companheira, Judith de Mello Ortiz, de 27 anos, natural de Cuba (presumo que de Cuba, Alentejo), que acabou por falecer no hospital de São José.
O crime ocorrera num sítio chamado Venda Nova, onde existia uma locanda (taberna) pertencente a uma tal Hipólita Maria. O casal de mendigos vivia mesmo ao lado desta conhecida tasca, na mais completa miséria.

 

17 (18 de Setembro de 1910)
Foi uma noite de domingo animada na zona de Chelas, com uma cena de pancadaria entre dois grupos, na qual entraram alguns populares que se divertiam no baile da União Chelense. Motivo da comoção? Uma mulher, cujo nome não chegamos a saber, mas que o DN descreve como “uma certa rapariga do sítio, que goza o privilégio de atrair os corações fracos”.  E, mais à frente, acrescenta-se que a “esbelta rapariga, ao que nos disseram reside em Chelas”.
Tudo começa quando um carpinteiro de nome Adriano é rejeitado pela jovem beldade de Chelas. Um outro rapaz da zona, Manuel Tendeiro, fez o seu “pé de alferes”, tentando a sorte, mas atraindo também o ciúme do carpinteiro.
Os dois encontravam-se por vezes e seguiam-se provocações às quais se juntavam outros jovens trabalhadores. Até que rebentou o conflito. A notícia surge na edição de segunda-feira e não se percebe bem quando ocorreu a rixa. Juntando uma ou outra referência, torna-se perceptível que a violência começou na madrugada de sábado para domingo, 18 de Setembro. Os dois rivais encontraram-se e “estabeleceram um diálogo mais ou menos irritante”. De súbito, os dois grupos envolvem-se numa desordem indescritível, “brilhando em certas mãos lâminas de afiadas navalhas”.
A polícia chega demasiado tarde, quando o conflito já havia terminado e os populares tinham recolhido “a penates”. Das noites de Chelas ficou esta história e um ferido, Joaquim Teixeira, morador no beco das Taipas, e que levou com um formão de um tal Nepumoceno, nenhum deles minimamente relacionado com as “diabruras de cupido”.

 

16 (19 de Setembro de 1910)
O juiz de instrução criminal Almeida Azevedo conduzia uma investigação sensível sobre a apreensão de 171 bombas numa quarto andar da rua dos Correeiros, na Baixa de Lisboa. O caso levara à prisão “o conhecido libertário João Borges”, que fabricara os engenhos no seu quarto. Foram detidas outras pessoas, entretanto libertadas, incluindo a amante de Borges, uma tal Marina, além de alguns habitantes da mesma casa, que alegaram conhecer o anarquista “por ele habitar naquele quarto”, mas que não o tinham visto fabricar as bombas.
Os engenhos explosivos eram tubos de cobre grosso, com 15 centímetros e tampos de metal fundido.Seriam cheios com dinamite e explodiam por percussão. Idênticos, adianta o DN, aos fabricados por um tal Brito Bettencourt, que perdera uma mão quando uma das suas bombas explodira. Borges deveria ter cúmplices, especulava este jornal, pois dificilmente teria fabricado sozinho uma tal quantidade de bombas.
Num plano mais político, a edição do DN incluía um curioso artigo com uma crítica ao sistema eleitoral. Dava-se o exemplo de Lisboa, onde a lista republicana vencera em dois círculos, devido à dispersão dos votos monárquicos. O autor do texto defendia um método proporcional na contagem dos votos. Cada deputado republicano fora eleito com pouco mais de 10 mil votos; os do governo tinham 7 mil e os da oposição (bloco) 5 mil. Somadas as listas dos dois círculos (com 5 deputados cada, que os eleitores iam repetindo), dava 103 mil, 74 mil e 38 mil votos, respectivamente. No sistema eleitoral tinham sido eleitos 10 republicanos e 4 governamentais. Se fosse aplicado o sistema proporcional defendido pelo autor, teriam sido eleitos apenas 7 republicanos, 5 governamentais e 2 de oposição monárquica. A vitória republicana em Lisboa teria sido um empate.

 

Estas crónicas são baseadas na leitura das edições do Diário de Notícias dos dias indicados

A caminho da República (16)

25 (10 de Setembro de 1910)
Esta história parece tirada de um filme de Chaplin, mas aconteceu de facto a 10 de Setembro, num sábado muito quente em que os lisboetas procuraram a frescura do Campo Grande. Em vez da frescura, enfrentaram os calores de uma tourada e o pânico de “uma balbúrdia medonha”. Tudo começara nessa madrugada, com o desembarque de 397 bois argentinos, levados do porto para o mercado de gado, no Campo Grande, por campinos e pastores que terão perdido o controlo de pelo menos um touro e de algumas vacas. O gado enfureceu-se e investiu contra os cidadãos que passeavam tranquilamente no jardim. A descrição, muito realista, fala de pessoas “volteadas” pelos animais, perseguidas e “arremessadas pelo ar”. Um desgraçado idoso, sentado num banco, é apanhado em cheio pelo “anafado boi argentino e fica muito maltratado, mais morto do que vivo”. Outro cidadão tenta fazer uma manobras com o casaco, mas é também atropelado. Um polícia tentou “socorrer o improvisado bandarilheiro” mas foi ele próprio apanhado por uma vaca mansa, que “volteou o pobre guarda, dando-lhe algumas marradas e deixando-o bastante magoado”.
A comoção durou mais de meia hora, deixando um ferido em estado muito grave e vários ligeiros.


24 (11 de Setembro de 1910)
O último dia da Feira da Luz, num domingo, garantiu uma “concorrência extraordinária” nesta feira popular, com muita alegria, carteiristas e até uma cena de pancadaria que deixou o agressor preso e o agredido em fuga. “Desde manhã que os carros eléctricos, e muito principalmente os comboios, porque o preço é mais convidativo, começaram transportando para Sete Rios centenas e centenas de pessoas que dali seguiam para a Luz em carros do Jorge [que não sei o que fosse, mas talvez algum transporte] e outros, no meio da maior animação, ao som das guitarras e canções populares”. O movimento da multidão ocupava todo o largo, repleto de barracas de comida e bebida, quinquilharia, teatros.  Foi um evento pacífico e alegre, tendo o DN registado poucas ocorrências, tirando uns casos de roubo.
António Braz, morador na rua D. Estefânia, confessou à polícia que após uma discussão com um desconhecido, lhe vibrou algumas bengaladas, pondo-se o agredido em fuga e ficando detido o agressor, após uma breve balbúrdia. Outro Braz, mas de nome Romão Augusto, queixou-se de ter recebido de um desconhecido alguns socos, por motivo não apurado, mas talvez sério.


23 (12 de Setembro de 1910)
O rei D. Manuel foi a Mafra caçar na Tapada e, segundo o DN, teve uma recepção de grande entusiasmo naquela localidade. Eis a descrição: “Foi imponentíssima a manifestação ontem feita a el-rei pelos habitantes desta vila à qual se associaram, em indescritível entusiasmo, em número incalculável de pessoas de todas as classes sociais, imprimindo nessa manifestação uma nota cheia de alegria, um enorme grupo de senhoras que acompanharam a marcha 'aux flambeaux' desde o seu início na câmara municipal até ao fim dela”.
O repórter fala em “delírio” e “manifestação sempre quente”, Seguiu-se a caçada, onde foram mortos “alguns gamos e muitos coelhos”.
Na mesma página noticiava-se que o paquete austríaco Clara tinha desaparecido entre Orão e Lisboa. Deveria seguir depois para Filadélfia, mas não aparecera. Levava a bordo 50 passageiros e uma carga valiosa. “A única esperança que resta”, escrevia o DN, é que “se encontre neste momento navegando directamente para Filadélfia”.
E veja-se o gosto pelos detalhes, nesta notícia: “Quando ontem à noite o senhor general Sepúlveda descia de um carro eléctrico ao Largo do Carmo, deu uma queda, de que lhe resultou um pequeno ferimento na cabeça. Foi receber os devidos socorros ao posto da Misericórdia, não inspirando o seu estado, felizmente, sérios cuidados”.

 

22 (13 de Setembro de 1910)
O paquete austríaco Clara tinha seguido, não para Filadélfia, mas para Nova Iorque, onde já chegara. Evitou-se desta forma a trágica notícia de um naufrágio e temos um feliz desmentido. Apesar de tudo, o DN insistia num título sensacionalista e sem justificação: “Drama no Mar”.
Bastante interessante é a estatística obituária publicada neste jornal e que dizia respeito à semana entre 31 de Julho e 6 de Agosto, na qual se afirmava que tinham falecido 192 pessoas em Lisboa. A febre tifóide matara uma e a varíola 10; a tuberculose dos pulmões fizera 25 vítimas. Mais cruel é a informação de que 32 crianças até aos 2 anos tinham morrido de diarreia e gastroenterite, o que diz muito sobre as condições de higiene e a qualidade da água. Havia outras doenças com menos mortos, como tumores, bronquites debilidade congénita e senil, difteria, gripe e tosse convulsa. E ainda 9 mortes violentas, à excepção de suicídios, cujos valores estranhamente não constam. As autoridades atribuíam 11 mortos a doenças cardíacas e 10 a hemorragias cerebrais.

Se esta era uma semana típica, então morriam por ano, em Lisboa, cerca de 10 mil pessoas, o que parece muito para uma população de 450 mil.
Mesmo por baixo desta estatística, era noticiado que o rei D. Manuel II deixara Mafra, após uma despedida “muito cordial e respeitosa”. Entre as manifestações de simpatia, destaque para a Real Filarmónica, que tocou durante o jantar, incluindo a rapsódia “Comboio”, da autoria do sr. Germano Augusto Santos.

 

21 (14 de Setembro de 1910)
Já aqui foi mencionada a tragédia de três “globe-trotters” portugueses que se afogaram num rio da Turquia, quando se tentavam refrescar. O caso passou-se perto de Salónica, actualmente na Grécia. Os aventureiros portugueses vinham da Albânia e decidiram nadar na ribeira de Konki, onde as águas são perigosas. Um polícia ainda os avisou para que não se lançassem à água, mas os três desapareceram depressa. Dois afogaram-se e os corpos não foram recuperados. Outro foi salvo pelo polícia (turco?), que se atirou à água. A informação citada veio do cônsul português em Salónica e mantinha-se a confusão sobre os nomes das vítimas e do sobrevivente.
História com final mais feliz é a da prisão em “fragrante delito” do “aspirante”, o “famigerado gatuno” e “intrujão” Cristiano Lourenço. “Vadio”, que vivia de “expedientes sujos”, o aspirante fazia-se passar por repórter do Diário de Notícias, o que certamente justifica a enorme quantidade de adjectivos que consta desta notícia. O truque era indagar pelos hotéis se tinha chegado alguma figura destacada. Depois, consistia em tirar o retrato e sacar algumas informações biográficas, bem como algum dinheiro para as despesas da notícia que deveria sair neste jornal sobre tão importante visita. “O aspirante é um indivíduo novo, magro, um pouco trigueiro, de bigode pouco farto e usa lunetas”. Não progrediu no jornalismo.

 

Crónicas baseadas nas edições do Diário de Notícias dos dias indicados.

A caminho da República (15)

30 (5 de Setembro de 1910)
Um curioso (e raro) editorial sobre temas internacionais. O autor do texto não assinado fala do “perigo amarelo” e das ambições do império japonês. Em 1910, na Ásia, emergia uma nova potência regional, que graças à derrota da Rússia obtinha agora o controlo da Coreia. Para o DN era “um acontecimento de alta gravidade” e a anexação fizera-se “insensivelmente”, como se fosse a coisa mais comezinha do mundo”. Escrevia ainda o autor: “o império japonês acaba portanto de adquirir, por assim dizer de graça, uma propriedade colossal. Segue-se um raciocínio bastante pró-britânico em que o articulista se questiona sobre a aparente distracção de Londres, que era o principal aliado do Japão. Aliás, o autor deste editorial “Assumptos do Dia” não consegue perceber que o crescimento do Japão na Ásia era uma estratégia que visava limitar a Alemanha nesta região. O texto cita um provérbio português, “honra e proveito não cabem num saco”, para concluir que “honra e proveito têm cabido à farta no saco japonês”. Segue-se a ideia de que as ambições japonesas eram regionais e que o “perigo amarelo” não teria de se verificar nos assuntos europeus e americanos. Em resumo, “as nações europeias estão por conseguinte ameaçadas de perder, mais hoje mais amanhã, as suas colónias orientais”.

 

29 (6 de Setembro de 1910)
Uma pequenina notícia na primeira página do DN dava conta da partida do cônsul de Portugal em Demerara, que partira para tomar posse do seu cargo. Nome desse cônsul: Aristides de Sousa Mendes. O novo cônsul português em Demerara tinha na altura 25 anos e viria a distinguir-se 30 anos mais tarde. Embora discreto funcionário (a sua carreira começava mal, com um lugar que devia ser dos piores da diplomacia nacional, na então Guiana Inglesa), Aristides de Sousa Mendes foi um dos portugueses do século. Em 1940, então cônsul em Bordéus, desobedeceu ao seu governo e passou vistos a 30 mil refugiados, incluindo 10 mil judeus, a quem sem dúvida salvou a vida. É o único português considerado “Justo entre as Nações”.
Embora conste da primeira página, a notícia é minúscula e relata apenas que o cônsul partiu a bordo do paquete Aragunya. Por estes dias, o noticiário era deste género, com pequenas notícias sem relevância ou casos de sociedade, como o “burburinho” no rossio, devido a um acidente com um eléctrico, ou a agressão grave de um empregado do comércio, que vingara a honra da sua irmã ferindo o “sedutor”. Na Turquia, dois “globe trotters” portugueses em excursão de aventuras, tinham morrido afogados quando se banhavam num rio. Havia dúvidas sobre a identidade, mas já nesta época o turismo era perigoso.

 

28 (7 de Setembro de 1910)
No início de Setembro, quando já faltava menos de um mês para a revolução, era difícil encontrar uma notícia de política nas páginas do DN. A situação parecia ser tranquila. O rei partira para as Caldas da Rainha, para assistir às provas finais do concurso hípico. E fora ao Cacém apanhar o comboio. Nas Caldas, a recepção foi entusiástica, com muito povo a assistir.
Cacém onde um repórter do DN passou nesse dia em busca de informações sobre o “grande crime” no lugar de Francos, freguesia de Rio de Mouro, zona pitoresca “onde se desfruta um panorama encantador”.
A história é contada pela sogra do infeliz assassinado, um trabalhador rural que surge apenas com o apelido, Santos (certamente, erro do enviado esquecer-se do nome). Em resumo, um “maltez”, Joaquim Dias da Silva, o Quinquilheiro, surgiu na terra e namoriscou uma rapariga local, Júlia da Conceição. A narradora usa o termo “lançou pó d'alferes” para designar o feitiço em que a sua filha tombara. Não é claro até que ponto a mãe forçou a filha a casar com Santos, mas é nítido que não gostava do maltez. Santos e Júlia casaram e o homem tinha de se deslocar para fora e sempre que o fazia, entrava-lhe pela casa o quinquilheiro. A parte espantosa é que o casamento durou um mês e que os dois amantes terão combinado matar o Santos. O crime foi consumado uma noite, mas existe no relato a ideia de que Júlia tentou ajudar o desgraçado do marido atingido com uma facada. Júlia era “magra, tez trigueira, parecendo mulata. Muito risonha ao ser fotografada”, embora nas páginas do DN apareça com ar melancólico. “Isto é para eu ficar ainda mais bonita”, terá dito ao repórter.

 

27 (8 de Setembro de 1910)
Os leitores do DN já tinham encontrado, um mês antes, reportagens sobre o “homem-macaco”, um desgraçado de nome Albano de Jesus, que enlouquecera em Angola e que por lá ficara, após uma tentativa de o trazer para Lisboa. Na quinta-feira, 8 de Setembro, Albano de Jesus fez “tropelias” no Rossio, para susto de muitos e gáudio de outros transeuntes. O homem-macaco jantara sossegado e foi assistir a um music-hall quando, sem razão aparente teve um ataque. A palavra não é usada na notícia, mas parece ser um simples ataque de pânico, que os populares não conseguiram controlar. A cena funciona em bola de neve: Albano de Jesus salta para a rua e quase é atropelado por um eléctrico. Fica ligeiramente ferido e arrastam-no para uma farmácia. Ele fugiu e os risos devem ser de tal ordem que tudo acaba com o pobre homem-macaco, enfurecido como um animal, cercado por tropas de infantaria. O pobre louco é salvo pelo seu primo, o guarda 1151, que o acalma, pedindo às pessoas que dispersem, para não o assustar.
Na mesma página, outra história de doenças mentais: um homem a rondar 30 anos foi encontrado junto à linha de comboio de Cascais, perto da estação de Alcântara, muito ferido na cabeça. Sem documentos, não tinha qualquer memória de quem era. Talvez tivesse caído do comboio, ninguém sabia. Levado para S. José, não se esperava que se salvasse. Uma pessoa perdida na História, sem nome, nem nada.

 

26 (9 de Setembro de 1910)
Na sexta-feira, 9 de Setembro, foi divulgada a lista dos deputados eleitos. As eleições tinham sido no dia 28 Agosto e a campanha fora feroz (dizem os historiadores), embora isso não transpareça nas páginas do DN. Na realidade, os dois partidos parecem ter-se estilhaçado em facções que correram para dois blocos: os governamentais (mais liberais, que queriam reformas) e o bloco da oposição (mais conservador e nacionalista). Os do governo, leais sobretudo ao presidente do conselho Teixeira de Sousa, elegeram 89 deputados. Venceram em Bragança, Coimbra, Braga, Guarda, Santarém, Évora, Faro; mas perderam para a coligação de oposição no Porto, Aveiro e Viseu. Em Lisboa, os republicanos elegeram 10 deputados, entre os quais Miguel Bombarda e Carlos Cândido dos Reis, (o almirante Reis), dois dos principais conspiradores do 5 de Outubro e que perderiam a vida antes de 5 de Outubro. Bombarda era psiquiatra e foi assassinado por um doente mental, crime que serviu de rastilho para a revolta; Cândido dos Reis suicidou-se a horas do triunfo.
Ao todo, a coligação elegeu 50 deputados e os republicanos 14, com vitória em Lisboa, o que os deixou em euforia.
O apuramento dos votos tinha corrido francamente mal e esta assembleia não chegaria a tomar posse. O DN escrevia: “como é sabido, a coligação contesta os resultados eleitorais apurados para o governo nos círculos de Faro, Guarda e Braga e sustenta que lhe cabe a maioria também em Castelo Branco".

 

Crónicas baseadas nas edições do Diário de Notícias dos respectivos dias.

A caminho da República (14)

35 (31 de Agosto de 1910)
A Associação de fottball de Lisboa discutiu no Ateneu Comercial o novo projecto de estatutos e talvez remonte a esta reunião toda a sequência de trapalhadas futebolísticas tão familiar aos leitores contemporâneos. O redactor do DN queixa-se, a certo ponto: “A reunião, a princípio muito concorrida, foi perdendo a animação, de forma que às 11 horas, quando nos retirámos, ficavam na sala do Ateneu apenas duas ou três dezenas de assistentes. A discussão, que se eternizava sobre qualquer ponto, era de molde a enfastiar até o homem melhor dotado de paciência. Basta dizer que, até àquela hora, apenas se tinham discutido os dois primeiros artigos daqueles enormes estatutos”.
A notícia, naturalmente, não explica inteiramente o que estava em causa (profissionalismo e a adesão à liga portuguesa de football). Também se dá conta de rivalidade. Um antigo dirigente, o senhor Cândido da Silva, por exemplo, tenta tomar a palavra, que lhe é negada. A reunião parecia muito controlada pelo senhor José Roquette. Enfim, os distintos “sportmen” ensaiavam os primeiros jogos a sério. O enviado do DN aguardava desenvolvimentos para expressar a sua opinião, que aliás ia adiantando um pouco: “Por agora, apenas diremos que o feitio impulsivo e irrequieto dos nossos rapazes não se amolda a regulamentos”.

 

34 (1 de Setembro de 1910)
Com tantos acontecimentos importantes, ainda não referimos nestas colunas os animatógrafos que faziam as delícias dos portugueses urbanos. O entretenimento dava os primeiros passos. Neste dia, uma sexta-feira, era possível ir ao animatógrafo, ao Teatro D. Amélia, ver as fitas “Uma Surpresa”, “Totó faz Dívidas” (certamente, ainda não o Totó que seria celebrizado pelo actor italiano Antonio Gagliardi, nesta altura apenas com 12 anos) e a “Criada Terrível”. O DN não tinha crítica de cinema e pouco sabemos sobre os filmes, mas a notícia dá conta das “curiosas fitas” do Salão Trindade, entre as quais se contava “uma sobre o incêndio na Exposição de Bruxelas”.
Há mais pormenores sobre os teatros, por exemplo, sobre a peça “O Olho do Diabo”, no Teatro do Príncipe Real, cuja primeira representação se anunciava no DN. Os autores Ernesto Rodrigues e Félix Bermudes contavam com a música dos “inspirados maestros Filipe Duarte e Carlos Calderon”. No salão Fantástico, havia outra peça, “Os Ursos do Pachá”, também com tema fantástico, que pelos vistos estaria na moda.

 

33  (2 de Setembro de 1910)
Uma complexa cena de ciúmes é contada por um repórter do DN que gasta algumas linhas a explicar que fora atraído por boatos e que a verdadeira história era bastante diferente do que se dissera em Lisboa.
António Jacinto Morgado trabalhava na artilharia do forte de Caxias e, na zona de Barcarena, “passou a ser o terror dos chefes de família”, especializado em galanteios às mulheres que trabalhavam naqueles campos.
Palmira da Conceição, rapariga dos seus 20 anos, “que por sinal nada deve à formosura”, interessou-se por Jacinto Morgado, que lhe prometeu casamento, mas em vez disso apenas lhe forneceu uma vida de pancada, proibindo-a de trabalhar. Ela foi então cortejada pelo sapateiro Marcolino da Silva, de 29 anos, e a partir deste ponto  a história parece repetir a Cavalleria Rusticana.
Morgado encontrou o rival num caminho, sacou de uma navalha de barba e fazendo dois golpes na cara de Marcolino, afirmou que aquilo “era só uma amostra”. E se o visse com a Palmira matava os dois: “Largos dias têm cem anos”, ameaçou.
Na madrugada de dia 2 de Setembro, Morgado entrou no casebre em que os dois viviam e, descobrindo os corpos enlaçados, disparou à doida, atingindo Palmira numa perna e Marcolino no peito. As duas vítimas foram tratadas em São José e os seus ferimentos eram ligeiros. O Jacinto, que foi preso, era especialista em artilharia; no tiro a pistola revelou-se felizmente menos preciso.


32 (3 de Setembro de 1910)
Um bom título é meio caminho andado para fixar a atenção do leitor. Usando este “O cholera não é a cólera”, o DN garantia a atenção dos seus leitores para um texto que, infelizmente, era algo enganador. Podíamos pensar que afinal não havia nenhuma epidemia de cólera, ou os seus efeitos tardios. Não: tratava-se de uma polémica sobre o género da palavra. O autor da prosa, regressado do Porto, “cidade onde infelizmente a higiene deixa muito a desejar”, demonstra que o bacilo Cholera morbus é do sexo masculino (o cholera), em oposição à cólera divina, à desumana cólera, ambas do sexo feminino.
Apeteceria deixar de comprar o DN se não fosse o preço baixo de 10 reis e a notícia sobre a chegada de uma embaixada inglesa que se dera ao trabalho de vir a Portugal “noticiar a sua majestade el-rei a ascensão ao trono de Jorge V, de Inglaterra”, como se não houvesse telégrafos.
À chegada da embaixada à gare do Rossio, nosud-expressque entrou “à tabela”, nada mais nada menos do que quatro ministros a receberem o embaixador Lord Grenard, um regimento de infantaria “na sua máxima força” a apresentar armas e a banda a tocar God Save the King. O respeitinho era muito bonito.

 

31 (4 de Setembro de 1910)
Uma estatística publicada por um jornal italiano revela um dos mais agudos problemas portugueses, que está aliás na origem de muito do descontentamento que levou à proclamação da República. Dizia esse jornal italiano não referido que entre 1900 e 1907, os emigrantes portugueses para a América do Sul revelavam uma taxa de analfabetismo superior à dos emigrantes turcos. Os valores eram de 54% para os portugueses contra 53% dos turcos.
“A percentagem é aterradora”, escrevia o DN, e não admira que os emigrantes portugueses acabem a fazer trabalhos “pesadíssimos e mal remunerados”.
A notícia prosseguia com alguns números reveladores, extraídos do Anuário Estatístico de Portugal e do último censo. Durante três anos, tinham emigrado 66961 portugueses, dos quais 39234 eram analfabetos. Uma proporção de 58%. A taxa de emigração era algo elevada, de quase meio por cento.
Portugal tinha pouco mais mais de 5,4 milhões de habitantes, dos quais 4,2 milhões eram analfabetos. Uma espantosa taxa de analfabetismo de 78%. O texto recordava que durante a recente greve no Minho, tinha havido grande dificuldade em “arranjar um operário de cada fábrica que soubesse ler”. Em muitas freguesias do país, a taxa de analfabetismo entre as mulheres atringia 100%.

 

Crónicas baseadas nas edições do Diário de Notícias das datas mencionadas