Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

"Ir Além da Tróica"

Se o governo se limita ao que acordou com a tróica e com o PS será completamente impossível não incorrer num "evento de crédito", i.e., incumprimento, default, etc. no curto prazo.

 

Por outro lado, só o que a tróica exige é pouco para prevenir um embaraço idêntico no futuro. O stock de dívida deve ser suficientemente baixo para que, em caso de crise, seja possível aumentar o endividamento sem que com isso se coloque em causa a sustentabilidade dinâmica das contas públicas. Esta é a lição que António Guterres, George W. Bush e outros não aceitaram.

 

Finalmente, ir para além do acordo da tróica significa alterar as estruturas económicas do país para que este possa finalmente crescer.

 

É assim tão difícil de compreender?

PS: não saber perder

 

Dois artigos de opinião publicados esta segunda-feira na imprensa diária revelam que os socialistas estão a digerir da pior maneira a pesada derrota eleitoral do partido nas legislativas de domingo. Vale a pena comentá-los, um de maneira sucinta outro com um pouco mais de atenção.

 

I

O primeiro artigo, de Alfredo Barroso, intitula-se "Uma esquerda à deriva" e foi publicado no i. Ao contrário do que o título indica, nele é mínimo o apontar de responsabilidades a José Sócrates no desastroso resultado eleitoral e na calamitosa situação do País: Barroso dispara preferencialmente contra o BE e o PCP por terem contribuído para o "derrube do governo do PS". Escamoteando que esse facto permitiu apurar nas urnas que os portugueses já não se sentiam representados num Parlamento dominado pelos socialistas. Exactamente como quando Mário Soares decidiu dissolver a Assembleia da República em 1987, escassos dois anos após as anteriores legislativas, abrindo caminho à primeira maioria absoluta do PSD.

Além da questão da substância, há a questão do estilo: o incontido azedume do articulista do i contra o vencedor destas legislativas, seu rival político, é tão óbvio que nem consegue tratá-lo pelo nome: chama-lhe, reparem bem na elegância, "o discípulo do engenheiro Ângelo Correia que nos coube em sorte".

Um primor de nível, sem dúvida.

 

II

O segundo artigo é de Vital Moreira e saiu no Público, sob o título "O que fica". Fiel ao seu estilo, o professor de Coimbra faz o balanço da derrota socialista deixando-a afinal por explicar. Porque o cenário que descreve deste finado Portugal de Sócrates assemelha-se muito ao país das maravilhas.

"Se, por causa da crise e dos seus devastadores efeitos, não temos um país mais próspero, temos seguramente um Estado mais eficiente e uma sociedade mais livre e mais decente. (...) O que avulta é o profundo espírito de modernização da sociedade e do País e de valorização do capital humano e material, que inspirou tanto as reformas das relações de família com as políticas sociais (na educação, de saúde e de segurança social), bem como as orientações no campo da economia e das infra-estruturas materiais."

Desemprego? Nem uma linha. A segunda maior vaga de emigração das últimas oito décadas, que vai afastando os nossos melhores? Nem a menor referência. Responsabilidade directa de José Sócrates no descalabro a que chegámos? Nem por sombras. Sobra apenas um longo panegírico, na linha de tantos outros a que Vital Moreira nos habituou.

Repare-se nestas linhas sobre um cenário virtuoso mas inexistente:

"Nunca se tinha sido tão ambicioso no aprofundamento e na busca de sustentabilidade do Estado Social, na reforma do sistema de pensões, no alargamento e racionalização do SNS, na valorização e qualificação da escola pública, no alargamento do sistema de protecção social, incluindo no combate à pobreza. (...) Decididamente, temos agora uma economia mais apetrechada para a competitividade."

Com textos como este, jamais o PS analisará e compreenderá os motivos da derrota. Esta complacência perante os erros próprios é, aliás, um dos motivos por que o partido chegou ao lamentável estado em que se encontra.

O Partido Socialista é muito parecido com o Sporting. Mas será ainda mais se António Costa concorrer para a liderança do partido.

 

 

José Sócrates está para o Partido Socialista como José Eduardo Bettencourt estava no dia em que abandonou o Sporting. António José Seguro é portanto o novo Bruno Carvalho do PS. Já António Costa aparece na mesma posição de Godinho Lopes e Assis resume-se a um mero Dias Ferreira do tabuleiro cor-de-rosa.

Tal como no Sporting, a luta entre António José Seguro (Bruno de Carvalho) e António Costa (Godinho Lopes), caso fosse candidato, poderia ser muito dura. Tal como no Sporting (contra mim falo por ser sócio), não me parece que nenhum deles consiga ganhar já o próximo campeonato.

A diferença entre o Sporting e o Partido Socialista é que tudo aponta para que neste último ganhe António José Seguro (Bruno de Carvalho).

 

PS1 - Tudo podia ter sido diferente se Godinho Lopes tivesse apoiado Dias Ferreira.

PS2 - Dizem-me que a foto de Francisco Assis não está correcta (que se lixe!).

Assim não!

As declarações de Ana Gomes, hoje, sobre Paulo Portas são um perigo.

 

Todos conhecem as minhas opiniões e posições críticas sobre Paulo Portas. É com esse cartão de visita que tenho, entendo, moral para criticar o que Ana Gomes fez. As acusações da eurodeputada socialista fundamentam-se em quê? Existem provas do que afirma? Foi Paulo Portas condenado judicialmente? Caso contrário, estamos perante um ataque pessoal de uma gravidade sem paralelo.

 

Ou Ana Gomes prova o que afirma ou, espero, Paulo Portas e o CDS terão de agir judicialmente. E já.

 

O novo Governo ainda nem foi feito e já começam os ataques pessoais. Assim não!

Legislativas (22)

 

A DESCER

 

José Sócrates. Os portugueses fartaram-se de José Sócrates, das suas contínuas promessas por cumprir, do défice monstruoso, dos 700 mil desempregados, da pesada herança que deixa ao sucessor no palácio de São Bento. Esta legislativa, como era de antever, funcionou como um plebiscito ao homem que encabeçava o Governo desde 2005. O veredicto das urnas foi claro: o pior resultado do PS dos últimos 20 anos. Deixando sem margem de manobra o homem que ainda há bem pouco tinha recebido uma votação esmagadora no mais inútil e mais patético dos congressos do seu partido.

 

Francisco Louçã. Dir-se-ia que estas eleições seriam ideais para capitalizar os votos de descontentamento no Bloco de Esquerda. Nada disso aconteceu: os bloquistas sofrem uma pesada derrota que os faz reduzir para metade o grupo parlamentar eleito em 2009. Consequência directa dos clamorosos erros estratégicos do Bloco que foram sendo cometidos nos últimos meses e que mereceram aqui diversas críticas. O erro principal foi a tentativa de copiar o Partido Comunista, esgotando-se numa força de mera oposição, sem propor qualquer solução governativa. Louçã é o rosto da derrota eleitoral do BE.

 

Ferro Rodrigues. Regressado de Paris, foi o maior trunfo de Sócrates na elaboração das listas eleitorais. Cabeça-de-lista do partido da rosa, teve um discurso errático durante a campanha, em que destacou como um dos principais defensores de uma solução de bloco central - repetindo, aliás, um apelo que já fizera em 2009. Conduziu o partido a uma pesada derrota na capital, frente ao PSD encabeçado por Fernando Nobre, e perde assim margem de manobra para influenciar um cenário de sucessão nas hostes socialistas.

 

Participação eleitoral. Apesar da profunda crise em que o País mergulhou, com um cenário iminente de bancarrota, demasiados eleitores portugueses continuam divorciados das urnas. Estas foram, aliás, as legislativas menos participadas em quase quatro décadas de regime democrático: 41% dos inscritos recusaram votar. Esta questão faz suscitar outra, cada vez mais premente, sobre a profunda desactualização dos cadernos eleitorais. A percentagem oficial corresponderá à percentagem real?

 

Sondagens. Foi vergonhosa a tentativa de manipulação dos eleitores através de sucessivas sondagens que apontavam para "empates técnicos". Nunca houve tantas sondagens numa campanha e nunca as sondagens falharam tanto. Os resultados das urnas demonstraram que não podia haver situações de efectivo empate técnico a tão poucos dias do exercício do voto. Aqui está um tema de urgente reflexão por parte dos responsáveis das empresas de sondagens e por parte dos responsáveis editoriais que as divulgam.

 

Pequenos partidos. Alternativas? Que alternativas? Os pequenos partidos continuam sem mobilizar os portugueses. Não há justificação para que muitos deles, que nunca conseguiram eleger ninguém ao longo de sucessivas eleições legislativas e autárquicas, continuem a receber apoios do Estado, nomeadamente na realização de tempos de antena eleitorais. A lei deve ser revista nesta matéria fazendo depender esses apoios de números mínimos de votos obtidos nas urnas.

Noite de legislativas (5)

José Sócrates e Paulo Portas saudaram publicamente o vencedor da noite, Pedro Passos Coelho. Outros dois líderes partidários, Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa, não o fizeram - pelo menos que eu tivesse ouvido em directo nas televisões. Há pequenos gestos que dizem muito sobre o espírito democrático dos políticos e sobre a forma como encaram o veredicto popular expresso nas urnas.

 

ADENDA: Leitor atento informa-me que Louçã dirigiu parabéns ao vencedor. Fica feita a rectificação.

Legislativas (18)

 

PARTIDO SOCIALISTA: MEDIDAS EMBLEMÁTICAS

(para ler e comentar)

 

Programa eleitoral do PS

Título genérico: Defender Portugal

Número de páginas: 64

Frase-chave: «O tempo não está para aventuras políticas.» (José Sócrates)

Data de apresentação: 27 de Abril de 2011

 

1. Eliminação de cerca de mil cargos de chefia na Administração Pública.

2. Fusão ou extinção de 60 organismos e serviços da administração central do Estado.

3. Alargamento do programa Simplex ao sector autárquico - para escolas, hospitais, ambiente e reabilitação urbana, entre outras áreas.

4. Lançamento do programa Zero Stop Shop para "eliminar formulários desnecessários".

5. Diminuição do número de freguesias.

6. Adopção de medidas que aumentem a celeridade dos processos judiciais e  reforcem as garantias da execução de créditos e de cobrança de dívidas.

7. Crescimento das exportações de forma sustentada.

8. Concentração dos apoios públicos ao investimento nos sectores de bens e serviços transaccionáveis.

9. Reforçar a parceria com o sector da economia social - cooperativas, misericórdias, instituições particulares de solidariedade.

10. Assegurar uma estratégia de ajustamento orçamental, "prosseguindo a consolidação das contas públicas".

11. Privilegiar a redução do défice pelo lado da redução da despesa pública.

12. Racionalização da estrutura de taxas do IVA.

13. Aumento dos impostos sobre o álcool e o tabaco.

14. Conclusão do processo de convergência entre pensões e rendimentos do trabalho.

15. "Rever estruturalmente o sistema de deduções e benefícios fiscais".

16. Reforçar os instrumentos de luta contra a fraude e a evasão fiscal.

17. Aumentar a produção agrícola nacional reduzindo a dependência do exterior.

18. Aprovação de uma Lei de Reestruturação Fundiária que institua um "banco de terras" para combater a desertificação dos solos.

19. Programa para a requalificação dos rios portugueses.

20. Redução da dependência energética e aposta nas energias renováveis.

21. Rejeição da opção pelo nuclear.

22. Desenvolvimento de um programa específico de formação dos jovens portugueses para os sectores económicos emergentes, nomeadamente das energias alternativas e dos empregos verdes.

23. Continuação do Plano Tecnológico.

24. Substituir o trabalho subordinado de jovens sob a forma abusiva de recibos verdes por formas contratuais que garantam uma relação de trabalho, quer em termos laborais, quer em termos de protecção social.

25. Criar condições que favoreçam o empreendedorismo dos jovens.

26. Defesa da sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde.

27. Aposta em novos serviços nos centros de saúde, como a saúde oral, psicologia, nutrição, fisioterapia e terapia da fala.

28. "Será criado o Registo de Saúde Electrónico de cada cidadão."

29. Prioridade à luta contra a obesidade e o estímulo pela actividade física.

30. Consolidação e qualificação das redes de cuidados de saúde e de equipamento sociais.

31. Reforço das instituições de apoio social, com destaque para creches.

32. Reforço dos abonos de família destinados às famílias monoparentais.

33. Aposta na manutenção do Complemento Solidário para Idosos, que beneficia actualmente 266 mil pensionistas.

34. Aumento da taxa de escolarização dos jovens para os 12 anos de ensino obrigatório e generalização do acesso ao ensino superior.

35. Continuação da aposta no programa Novas Oportunidades.

36. Reforço da acção social escolar.

37. Combate à criminalidade violenta e grave através de novos contratos locais de segurança e da dinamização do policiamento de proximidade.

38. Combate à imigração ilegal.

39. Alargamento do Plano Nacional de Videovigilância às zonas históricas e nevrálgicas das principais cidades.

40. Instalação de uma rede nacional de controlo de velocidade.

41. Atenção redobrada aos antigos combatentes e aos deficientes das Forças Armadas.

42. Aprovação de uma Lei da Paridade que combata as desigualdades sociais entre homens e mulheres.

43. Combate à violência doméstica e de género, com a formação de magistrados para estas áreas específicas.

44. Criação da Rede Portuguesa de Teatros Municipais.

45. Criação da Rede de Cinema Digital.

46. Reforço das medidas de preservação patrimonial.

47. Criação de um museu dedicado às Descobertas Marítimas e à Expansão da Cultura Portuguesa no Mundo.

48. Criação do Arquivo Sonoro Nacional.

49. Criação do Estatuto do Bailarino e do Fundo de Reconversão Profissional dos bailarinos.

50. Consolidação da aplicação do acordo ortográfico em Portugal.

Sozinho ao pequeno-almoço:

 

Segundo noticia o Público online, a desmarcação prende-se com o descontentamento de pelo menos dois convidados, os arquitectos Siza Vieira e Souto de Moura, que não terão gostado, depois de terem aceite participar no pequeno-almoço, de se verem ligados à campanha socialista.

Siza Vieira disse ao Público que foi, de facto, convidado para um encontro com José Sócrates, embora lhe tenham informado que seria uma reunião "informal" e na qual estaria também presente Eduardo Souto de Moura. O arquitecto recusou identificar quem lhe fez o convite.

Calados à espera do desaire

 

Tenho a maior consideração por vários socialistas. Mas, neste momento, apetece-me destacar três: Ana Gomes, José Medeiros Ferreira e Manuel Maria Carrilho. Foram eles que pregaram no deserto clamando contra a falta de debate interno no PS, alertando contra sucessivos erros de governação hoje evidentes aos olhos de todos e acentuando os aspectos mais negativos do carácter autoritário de José Sócrates - um autoritarismo sem fundamento pois nem sequer pode justificar-se pela competência governativa.

Há outras vozes lúcidas de socialistas - a começar pelo patriarca do partido, Mário Soares - que incluem alguns destacados autores de blogues cuja leitura não dispenso. Mas são vozes demasiado isoladas face ao descalabro dos erros cometidos por Sócrates no Executivo e na própria direcção do partido. O PS, outrora a força partidária portuguesa com mais fecundo debate interno, reduziu-se há muito a uma câmara de louvores ao líder que teve o seu baptismo político como militante da Juventude Social Democrata. O último congresso socialista foi um esclarecedor exemplo de como neste partido hoje não se debate nada nem sequer se admite um erro: é a política a copiar as piores características de certos clubes de futebol, em perpétua e acrítica veneração aos líderes.

Escrevo hoje estas linhas a pensar em 5 de Junho. Por não ter a menor dúvida de que alguns socialistas que não esboçaram o menor reparo ao actual secretário-geral do partido serão os primeiros a exigir a demissão de Sócrates no provável cenário de uma derrota eleitoral. Enquanto Ana Gomes, Carrilho e Medeiros Ferreira iam lançando sinais de alerta, ao longo destes anos, eles mantiveram-se em silêncio ou alinharam mesmo no coro de ladainhas ao líder. Reservavam-se para o momento em que o veriam enfim aparentando alguma fragilidade: a política, como sabemos, é fértil nestas súbitas erupções de heroísmo tardio e em figuras incapazes de esboçar um protesto em tempo útil mas prontas para dar nas vistas mal soa a hora inevitável da mudança de ciclo e do ajuste de contas.

Nesse dia, o jornalismo político, sempre pronto a eleger novos heróis de turno, há-de bafejá-los com o fervor dos holofotes. Por mim, direi o que digo hoje: uma palavra de elogio aos que no PS viram, ouviram, leram - e não calaram. São poucos. Escandalosamente poucos.

 

Quadro: A Queda dos Anjos Rebeldes (1562), de Pieter Bruegel