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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Pontos Pós Presidenciais

(i) Apesar da maioria das opiniões blogosféricas e imprimidas e não tendo simpatia política por Manuel Alegre, considero que o candidato-poeta não teve uma derrota nas eleições presidenciais. Se a teve, não foi por inteiro. É verdade que não conseguiu provocar a segunda volta. Mas também é verdade que contra todas as previsões, que destacavam a incoerência de receber o apoio do PS e do BE ao mesmo tempo e de passar de candidato independente (2006) a candidato mais-do-que-dependente (2011) - a verdade é que conseguiu uma percentagem de votos menor que a de 2006 em apenas e só menos do que 1%!

 

(ii) A observação politicamente mais relevante em relação aos resultados de Fernando Nobre não foi a distância a que ficou do segundo lugar, que nem foi tão pequena como alguns parecem crer. O mais relevante foi que um candidato completamente de fora da política, sem preparação e com uma máquina de propaganda muito limitada, conseguiu facilmente passar à frente do candidato do PCP, partido mais que instituído e experiente.

 

(iii) É preciso pensar seriamente na abstenção. Mas não me parece que a abstenção tenha enviezado os resultados: as percentagens de votos não teriam sido muito diferentes com uma abstenção mais baixa.

 

(iv) E é necessário quantificar o quanto da abstenção é explicado pelo problema dos cartões. Quanto do acréscimo da abstenção é tendência, de resto verificável em tantos outros países, e quanto foi o resultado do cartãogate?

 

(v) Estratégias ad hominem e BPN: afinal não tiveram efeito: nem prejudicaram Cavaco, nem Alegre foi castigado por as usar (e o resultado de Defensor Moura correspondeu muito simplesmente à nulidade intrínseca do mesmo).

A entrevista de D. Januário na TSF:

 

A entrevista de D. Januário Torgal Ferreira à TSF foi de uma frontalidade desarmante. Podemos concordar ou não concordar mas é raro, mesmo muito raro, ver um representante do Igreja tão claro e frontal.

 

Sobre o futuro, o Bispo das Forças Armadas disse esperar que o Presidente da República cumpra a promessa de ser provedor de todos os portugueses, uma função que não pode ser assumida com recados indirectos.

 

Nobre no Conselho de Estado?

E porque não? Não sei se Manuel Alegre por lá quer continuar (eu se fosse Alegre não quereria), mas mesmo que queira, há lugar para Fernando Nobre na quota dos cinco membros de escolha presidencial. A entrada de Nobre no Conselho de Estado teria duas vantagens: em primeiro lugar traria algum ar fresco e descomprometido ao órgão político de consulta do Chefe de Estado, dominado pelo establishment; em segundo lugar, permitiria a Nobre inteirar-se sobre o que faz, para serve e quais são os poderes que tem um Presidente da República. Fernando Nobre possui um conjunto de qualidades pessoais relevantes que Cavaco Silva faria bem em aproveitar.  

 

Esta é actual composição do Conselho de Estado.

Presidenciais 2011: "Magistratura Actuante"

 

 

 

 

 

O Prof. Cavaco Silva, a meio do discurso de vitória, afirmou que o seu próximo mandato será pautado por uma “magistratura actuante”. Ora, o anterior foi, palavras do próprio, uma “magistratura de influência”. Posso estar confundido mas de “influência” para “actuante” vai uma enorme diferença.

 

A mudança é fruto do que se passou durante a campanha eleitoral e, de igual forma, do resultado final destas eleições. Podemos olhar para os resultados de várias maneiras e conforme os gostos – Cavaco Silva, Fernando Nobre, Francisco Lopes, José Coelho e quase quase Defensor Moura cantaram vitória. Por sua vez, o valor da abstenção foi o maior de sempre (53,7%) e que dizer do valor dos votos em branco (4,26%) ou dos nulos (1,93%)?

 

O Presidente Cavaco Silva percebeu, muitíssimo bem, aquilo que aconteceu: venceu, é certo, mas ficou aquém do que desejava fruto de duas coisas muito simples mas bem significativas: uma campanha cuja recta final foi torpedeada por notícias nada abonatórias para a sua honra e honestidade e devidamente “cavalgadas” pelos partidários de Sócrates; um claro protesto maioritário contra o sistema e contra aqueles que, directa e indirectamente, suportaram este governo (fosse através de uma magistratura de influência, fosse pela pressão nunca vista da ala “cavaquista” para uma aprovação “sem espinhas” do actual orçamento de estado). Basta juntar a abstenção recorde, com os votos brancos (cinco vezes mais) e os nulos. E nem me atrevo a acrescentar o voto em José Coelho e parte substancial do voto em Fernando Nobre.

 

No seu conjunto, o povo deixou uma mensagem clara: o Presidente é reeleito mas o aviso fica feito.

 

Os outros destinatários não sei se perceberam. Já Cavaco Silva percebeu e daí a mudança de “magistratura”. Da mera e ambígua “influência” para a “actuante” é todo um novo caminho, todo um programa…

 

 

 

 

Breves notas de rodapé:

1. O discurso de derrota de Manuel Alegre merece um forte aplauso. Foi digno.

2. O resultado de José Coelho no Continente é surpreendente. Na Madeira é um forte aviso de duplo destinatário: para Jardim e para a actual oposição socialista na ilha.

3. A votação expressiva de Fernando Nobre merece destaque: é verdade que foi menor que a de Alegre nas anteriores mas o Presidente da AMI nunca teve a exposição pública deste nem qualquer cargo político de relevo.

4. O discurso de Pedro Passos Coelho foi brilhante e uma bofetada de luva branca em muito boa gente…

Putativos Presidentes, Só um Permanente

Cavaco Silva aumentou a percentagem de votos relativamente às presidenciais anteriores e isso é uma vitória (pequena). O efeito da abstenção foi muito pesado em termos absolutos mas parece não ter sido significativo para efeitos da percentagem de votos. Os 52,94 sabem a pouco, sobretudo para quem no passado conseguiu duas maiorias absolutas consecutivas [sendo claro que a medida percentual de sucesso de umas legislativas não é a mesma da de umas presidenciais, muitos etceteras aqui]. De qualquer forma e contra algumas expectativas, a abstenção indiferente e a detestação católica não tiveram impacto determinante.

Alegre não esteve mesmo nada mal. Perdeu exactamente 1 por cento dos votos. Em valores absolutos, foi, tal como Cavaco Silva, penalizado pela abstenção. Levou a cabo uma campanha impossível, ao ser apoiado por dois partidos com práticas e discursos políticos tão opostos e, mesmo assim, conseguiu praticamente a mesma percentagem de votos de há cinco anos atrás. A diferença agora é saber: de quem é que são os votos? Do próprio Alegre e alegristas, do PS ou do BE? Sendo tão difusa a propriedade dos votos, será nula a sua gestão. Mas para Alegre, a questão essencial não é a gestão dos votos, é a gestão de si mesmo: que lugar, agora, para Alegre? Qual o "onde" de Alegre?

 

Os seiscentos mil votos de Fernando Nobre valerão tanto como o milhão de Alegre há cinco anos atrás: pouco ou nada, tudo depende da forma de gerir e de honrar essa massa de intenções. A votação foi expressiva mas não lhe deu nenhum segundo lugar nem pouco mais ou menos. É politicamente mais relevante ter ficado à frente do candidato do PCP do que ter ficado a uma relativa pouca distância do candidato do PS mais Bloco. A gestão dos votos agora recebidos adivinha-se mais difícil para quem não é político profissional nem pela experiência nem pela vocação. Se o objectivo era humilhar Alegre puxando-o para o terceiro lugar, os soaristas voltaram a receber uma boa lição. Há males que parecem vir por bem... ou não.

Como se repartem os prejuízos da abstenção? É possível investigar o assunto mas não é fácil responder pela intuição. Parece-me que abstenção não interferiu muito nas percentagens dos candidatos. A indiferença dos eleitores reparte-se na mesma proporção dos votos e acaba ela mesma por ser irrelevante na prática. Não o deveria ser politicamente: 53,37% de abstenção deveriam dar que pensar, falar e agir à classe política toda.

José Manuel Coelho ficou em segundo lugar na Madeira. Será que os madeirenses estão finalmente a acordar para a realidade ao votarem no Anti-Jardim? Será que já sentem menos medo? 39,01% dos votos na Madeira e venceu no Funchal! Por entre disparates e coisas sérias, Coelho revelou-se um sucesso de popularidade.

Francisco Lopes: nada de novo, não aquece nem arrefece, a modorra costumeira. Logo, um futuro bom secretário-geral do PCP.

Defensor Moura: mesmo para candidato de contestação, supostamente inconformista e fora do sistema (que obviamente não é) o resultado foi aquém do esperado - e ainda bem. Mas isso não se deveu à estratégia agressiva ad hominem, que também foi seguida por Alegre sem que o prejudicasse, mas sim à essencial nulidade daquele candidato.