Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Uma inqualificável trapalhada

Há eleições em Portugal, regularmente, desde Abril de 1975. Nunca até hoje se registaram tão escandalosas irregularidades num escrutínio eleitoral como sucedeu nestas presidenciais. A tal ponto que o mapa oficial dos resultados das eleições só foi aprovado com o voto de qualidade do presidente da Comissão Nacional de Eleições (CNE), depois de se terem registado dois votos contra e duas abstenções, com o espantoso argumento de que não convinha "prejudicar a data de tomada de posse" de Cavaco Silva. Segundo um dos membros da CNE que votaram contra, ocorreram "irregularidades inaceitáveis". Descendo ao concreto, refere-se a "omissão na contabilidade final de cerca de 120 mil eleitores e cerca de 60 mil votos no distrito de Setúbal", enquanto no distrito de Viseu "são contabilizados mais 40 mil eleitores e mais cerca de 20 mil votos".

É impressionante: nem esta inqualificável trapalhada leva Rui Pereira a oficializar o seu pedido de demissão, como exigiria a mesma ética de responsabilidade que levou Jorge Coelho há dez anos a demitir-se de titular da pasta das Obras Públicas na noite da tragédia da ponte de Entre-os-Rios. Agarrado desesperadamente à tutela nominal da Administração Interna, só ele ainda não percebeu que na prática já deixou de ser ministro ainda antes de a notícia ser oficializada. Quando perceber que devia ter saído pelo seu pé, para salvarguardar um mínimo de dignidade política, já será demasiado tarde.

O purgatório pode esperar

 

Domingo à noite, logo após terem sido conhecidos os resultados eleitorais, José Sócrates revelou-se um digno aprendiz de Maquiavel. Em poucas frases colou-se ao vencedor, com o pragmatismo de um jogador de casino ao reconhecer que os dados estão lançados. E deu um abraço de urso a Manuel Alegre, como se nunca tivesse amarrado o PS a uma estratégia tão errática e derrotista como a de há cinco anos.

Lesto em sacudir a água do capote, o primeiro-ministro proclamou: "Estas são eleições presidenciais e os portugueses sempre souberam distinguir entre opções políticas nas legislativas - em que os partidos estão directamente envolvidos - e eleições presidenciais, que são baseadas em candidaturas individuais". E logo a seguir, com aquela ligeireza que o caracteriza, acentuou: "Foi com orgulho que todos os socialistas estiveram ao seu lado [de Manuel Alegre]." Esta frase, além de contradizer a anterior, estava totalmente longe da verdade, pormenor irrelevante no habitual fio discursivo do primeiro-ministro, um hábil manipulador de pessoas e factos.

Marxismo puro, tendência Groucho: "Se estes princípios não servem, arranjam-se outros." Alegre, tal como Mário Soares antes dele, acaba de ser arrumado na galeria de troféus do pragmatismo socrático. Foi, naturalmente, um chefe do Governo com ar tranquilo que na noite eleitoral garantiu ao País que "os portugueses optaram pela estabilidade política" ao elegerem Cavaco Silva, a quem Sócrates se apressou a prometer "cooperação institucional". Subentende-se que Alegre traria instabilidade: é quase uma declaração a posteriori de voto contra o malogrado candidato socialista, duplamente derrotado no dia 23 - primeiro nas urnas, a 33 pontos do vencedor; depois na oratória daquele que é ainda o líder do seu partido, resta ver por quanto tempo.

Este Sócrates de verbo fácil e manha expedita fez-me lembrar o Marco António de Shakespeare dirigindo-se aos romanos logo após o assassínio de César às mãos de Bruto. "Friends, Romans, countrymen, lend me your ears; / I come to bury Caesar, not to praise him; / The evil that men do lives after them, / The good is oft interred with their bones."

A pressa é muita: ele veio para enterrar o candidato socialista, não para o louvar. E prestar desde logo tributo ao César de Boliqueime, renascido politicamente para novo mandato, cumprindo à risca o mandamento maquiavélico: há que "manter o ânimo dos súbditos aturdido e em suspenso", evitando que possam "urdir tranquilamente algo contra ele".

O purgatório pode esperar.

Notas avulsas da noite eleitoral

 

 

1. Registou-se, como previ, a maior taxa de abstenção de sempre numa eleição presidencial: 53%. Houve menos um milhão de portugueses a votar nestas presidenciais, em comparação com as de 2006. Um sinal inequívoco do divórcio dos cidadãos em relação ao sistema político.

2. Houve 270 mil portugueses a votar branco ou nulo, o equivalente a 6,3% dos eleitores. Isto apesar de os votos brancos ou nulos serem irrelevantes para a contabilidade final em eleições presidenciais. Outro sintoma inequívoco de distanciamento.

3. Muitos portugueses não puderam hoje votar por motivos de ordem burocrática totalmente inadmissíveis. A culpa não pode morrer solteira. Espera-se, pois, a demissão do ministro da Administração Interna e do presidente da Comissão Nacional de Eleições ainda hoje.

4. Manuel Alegre, sem o apoio oficial do PS nem do Bloco de Esquerda, obteve há cinco anos maior percentagem (20,7%) e mais 300 mil votos do que agora (19,8%). José Sócrates e Francisco Louçã, em vez de somar, subtraíram.

5. O eleitorado do centro é decisivo. Por isso a radicalização à esquerda da candidatura de Alegre foi totalmente incompreensível. O desastre eleitoral estava à vista: eu bem avisei.

6. Fernando Nobre, sem aparelho partidário, foi o candidato genuinamente apartidário com maior sucesso nas urnas nestes últimos 30 anos. Com 14%, duplicou a percentagem obtida em 1986 por Maria de Lurdes Pintasilgo. Revelou-se, de facto, a maior surpresa desta noite eleitoral.

7. Numa altura em que os partidos muitas vezes são parte do problema e não da solução há hoje cada vez mais espaço para candidaturas de cidadania, emergentes da sociedade civil.

8. No duelo muito particular que mantém com o BE, o PCP não se saiu mal: aguentou o essencial do seu território. Mas o candidato comunista, Francisco Lopes, obteve metade da percentagem de Nobre, recolhendo menos 130 mil votos do que o seu camarada Jerónimo de Sousa em 2006. Com a máquina comunista a apoiá-lo enquanto Nobre não tinha máquina alguma.

9. Também sem máquina de espécie alguma, José Manuel Coelho obteve 4,5%. Mais que isso: conquistou maioria em três concelhos da Madeira, incluindo o Funchal, em ano de eleições regionais. E superou Lopes em Vila Real. Vale a pena analisar este fenómeno, que na região autónoma ultrapassa o mero voto de protesto.

10. Durante semanas, escutámos comentadores televisivos falar apenas em dois candidatos. Cavaco e Alegre. Como se mais nenhum existisse. Estes comentadores - muitos dos quais já tinham ignorado Alegre nas presidenciais de 2006 - também saem derrotados. E de que maneira.

11. Defensor Moura, esmagado nas urnas, fez um discurso de puro ódio pessoal contra Cavaco. Não cumpriu as regras mínimas do fair play democrático.

12. Destaque para o bom senso revelado por Pedro Passos Coelho. Os sociais-democratas "não vão à boleia desta eleição presidencial", acentuou o presidente do PSD, apresentado como "presidente da Assembleia Municipal de Vila Real" num comício de Cavaco. Fica-lhe bem esta prudência.

13. O melhor discurso da noite foi o de Alegre. Felicitou o vencedor e assumiu a derrota com humildade democrática. Nem uma palavra a mais, nem uma palavra a menos.

14. José Sócrates igual a si próprio com esta frase notável: "Todo o Partido Socialista esteve ao lado de Manuel Alegre."

15. Cavaco Silva, com menos meio milhão de votos que em 2006, pareceu totalmente fora de tom no seu amargo e crispado discurso da vitória: "Nunca vendi ilusões aos portugueses nem prometi o que não podia cumprir." Ninguém tenha dúvidas: esta é uma declaração de guerra contra Sócrates. Começou um novo ciclo na política portuguesa.

Presidenciais (30)

    

 

Três derrotados

 

MANUEL ALEGRE

A reboque do ex-presidente da câmara de Viana do Castelo, conduziu uma campanha pela negativa, diabolizando o seu principal adversário e contribuindo para congregar em torno de Cavaco Silva muitos eleitores pouco satisfeitos com o mandato presidencial. Literalmente abandonado pelo aparelho socialista, cada vez mais identificado com o Bloco de Esquerda, procurou satisfazer segmentos antagónicos do eleitorado, numa espécie de quadratura do círculo. Uma estratégia que não satisfez ninguém e acaba de ser fortemente penalizada nas urnas. Nada a ver com a candidatura de 2006.

 

DEFENSOR MOURA

Sai deste escrutínio com um resultado irrisório sem nunca ter explicado verdadeiramente aos portugueses por que motivo entrou na campanha presidencial. Ao longo destas semanas notabilizou-se apenas por agitar o chamado 'caso BPN', com os resultados que esta noite ficaram à vista de todos: em vez de prejudicar Cavaco, beneficiou-o. No campeonato dos 'pequenos', foi claramente derrotado por José Manuel Coelho apesar de ter beneficiado de um protagonismo nos debates pré-campanha que foi negado ao madeirense.

 

JOSÉ SÓCRATES

Surgiu duas vezes em palco, nos comícios de Manuel Alegre, apelando ao voto no candidato que o PS apoiou oficialmente. E viu um dos seus principais ministros, Augusto Santos Silva, protagonizar as habituais declarações dignas de elefante em loja de porcelana. Verá a coabitação com Belém ainda mais difícil daqui por diante num momento em que é cada vez mais patente o seu divórcio com os portugueses - incluindo largos milhares de eleitores socialistas, que ostensivamente rejeitaram a sua recomendação de voto. Confirma-se: é incapaz de acertar numa estratégia presidencial.

Presidenciais (29)

  

  

Três vencedores

  

CAVACO SILVA

Vitória clara - em todos os distritos, incluindo Beja, onde fora segundo em 2006 - numa campanha em que não houve verdadeiro debate sobre o seu mandato presidencial. Ao contrário do que alguns vaticinavam, não foi penalizado pela forte abstenção registada neste escrutínio. Beneficiando da notória incompetência de alguns adversários, ganhou nova legitimidade para reforçar o protagonismo no quadro político português. Disse com clareza ao que vinha: esperem dele, a partir de agora, uma "magistratura activa".

 

FERNANDO NOBRE

Coube-lhe nesta eleição o papel desempenhado por Manuel Alegre no escrutínio de 2006, reclamando-se dos valores da cidadania. Sem apoios partidários, sem aparato de propaganda, ignorado pela maioria dos comentadores, escandalosamente marginalizado por um certo "jornalismo de referência", congregou sectores importantes do eleitorado cansados de guerrilhas partidárias e dos jogos políticos de sempre. Uma lição para muitas vozes arrogantes, sobretudo à esquerda. 

 

JOSÉ MANUEL COELHO

O candidato anti-sistema que veio da Madeira para fazer política a nível nacional, sem nunca se levar demasiado a sério. Um papel em que ganhou a simpatia declarada de milhares de portugueses, que têm razões de sobra para se rever em boa parte do que disse este herdeiro da nossa melhor sátira vicentina, apontando o dedo a várias feridas. Caiu em graça por ser genuinamente engraçado, ao contrário do que sucedeu com Defensor Moura.

Tédio presidencial

E qual é o mal do aborrecimento presidencial? Nenhum e ainda bem! A nossa cultura política é muito típica da Europa do Sul: queremos escândalo, pimenta, energia. Queremos ser entretidos e entusiasmados pela política. Na minha opinião, numa democracia normalizada, os processos eleitorais e o desempenho dos políticos deveriam pautar-se pela contenção, pela normalidade, por um certo aborrecimento. A política deveria ser isso: mais uma das regularidades da vida, sem sobressaltos. A política enquanto rotina necessária.

 

(Continuar a ler aqui).

Presidenciais (28)

 

 

A campanha de A a Z:

 

ABSTENÇÃO - Palavra-chave. Uma abstenção recorde prejudicará seriamente Cavaco nestas presidenciais. É outra maneira de exprimir um voto de protesto.

BPN - A sigla que dominou a campanha. Num país mergulhado na mais grave crise económica de que há memória devia ter sido outra: FMI.

CAMPANHA - Os portugueses cada vez vibram menos com campanhas eleitorais. Isso nunca foi tão notório como nesta.

DIREITA - Como aconteceu nos últimos 25 anos, Cavaco neutralizou-a e deixou-a refém dele próprio. Em troca de quê? A direita que responda.

ESPERANÇA - Cavaco quer ganhar à primeira, com maior percentagem do que Sampaio quando foi reeleito. Alegre e os outros sonham com a segunda volta.

FRALDAS - "Os políticos, tal como as fraldas, têm de ser mudados de vez em quando. Porque senão cheiram mal." Eça actualizado por Coelho: uma das frases da campanha.

GOVERNO - Sócrates esteve duas vezes em palco com Alegre. Santos Silva picou o ponto. O resto do Governo permaneceu longe da campanha.

HONESTO  - "Para serem mais honestos do que eu têm de nascer duas vezes", disse Cavaco. Deixando bem evidente a imagem pouco lisonjeira que tem dos portugueses.

 

 

IGREJA  - Os tempos são outros, mas quase todos os candidatos a cortejaram - de Cavaco a Nobre. Alegre chegou a ter um padre a seu lado num comício.

JOVENS - Cada vez mais alheados da vida política portuguesa, como ficou bem evidente nesta campanha em que o candidato mais novo tinha 55 anos.

LIBERDADE - Ganhe quem ganhar, a liberdade não está em risco. Pelo menos este argumento absurdo deixou de ser invocado em campanhas eleitorais.

MADEIRA - Veio de lá o mais divertido e desbocado dos candidatos: Coelho, o anti-candidato por excelência.

NULO - Atenção, eleitores: o voto branco ou nulo não conta rigorosamente para nada nesta eleição.

OVOS - Mário Soares dizia que "os portugueses não gostam de pôr os ovos todos no mesmo cesto." Uma teoria que já se provou ser falsa. E Soares desta vez nem se (ou)viu.

PARTIDOS - PSD e CDS alinham com Cavaco, que se referiu a Passos Coelho como "presidente da Assembleia Municipal de Vila Real". PCP tem Lopes. BE apoia Alegre. Parte do PS também.

 

 

QUEDA - As últimas sondagens dão um Alegre em queda. E Nobre em terceiro, com tendência para subir. Surpresa - mas só para alguns.

REI - Se houvesse um por cá, seríamos poupados aos custos de uma campanha eleitoral, na lamentável lógica de Cavaco, preocupado com as despesas da democracia.

SEIS - Desta vez houve seis candidatos à Presidência da República: Cavaco Silva, Defensor Moura, Fernando Nobre, Francisco Lopes, José Manuel Coelho e Manuel Alegre.

TIRO - Nobre assegura que só a tiro o impedirão de chegar a Belém. Portugal é um país de brandos costumes. Mas certas bravatas só servem para estimular pirómanos.

UM - Só um candidato terá motivos para sorrir na noite eleitoral? Talvez não apenas um, mas dois ou mesmo três.

VOTO - "O voto é a arma do povo. Não votes senão ficas desarmado", diziam os anarquistas em 1975. Há cada vez mais portugueses a pensar assim.

XIS - A grande incógnita: haverá segunda volta? Tudo depende, em última análise, do valor da abstenção.

ZIGUEZAGUE - Ao lado de Sócrates, adversário do Bloco. Com Louçã, firme opositor do Governo. Não admira que a campanha de Alegre tenha sido ziguezagueante. Logo ele, que não tem vocação para o ziguezague.

 

 

Presidenciais (27)

Cavaco Silva – Uma sombra do que foi noutros tempos. Começou de forma titubeante a campanha, que só pareceu ganhar gás com o tema BPN: um Cavaco momentaneamente vigoroso veio à tona nesses dias. O assunto funcionou também como agregador das hostes, que pareciam adormecidas. Mas o homem que desta vez nem contou com um blogue especial de apoiantes foi incapaz de qualquer golpe de asa. Termina a campanha a pedir uma vitória à primeira volta pelo pior dos motivos: para poupar dinheiro. E com um temor indisfarçável da abstenção.

 

Defensor Moura – O deputado socialista que mal ousou sair do perímetro de Viana do Castelo e chegou a ser notícia nas televisões por "dar um passeio improvisado na rua onde mora" esgotou-se nesta campanha a fazer o papel de lebre para dar alento à de Manuel Alegre, seu camarada de partido e seu colega de Parlamento. A estratégia saiu-lhe às avessas: o BPN funcionou como toque a rebate dos desmobilizados eleitores de Cavaco. A partir daí Moura praticamente desapareceu.

 

Fernando Nobre – O médico independente que muitos socialistas irritados com Alegre apoiam teve boas prestações nos debates televisivos e conduziu no terreno uma campanha que foi ganhando projecção, apesar das tentativas de muitos comentadores de o considerarem irrelevante. Tal como Alegre em 2006, o fundador da AMI utilizou o apelo da cidadania como trunfo eleitoral num país cansado de jogos partidários. Pode vir a protagonizar a maior surpresa da noite do escrutínio.

 

Francisco Lopes – Foi sólido, consistente e esforçado na tarefa de mobilizar os eleitores comunistas. Para esse efeito insistiu sobretudo em percorrer o tradicional circuito do partido, centrado no triângulo Lisboa-Setúbal-Alentejo. A candidatura deu projecção a nível nacional ao mais que provável sucessor de Jerónimo de Sousa no cargo de secretário-geral do PCP. Tenha o resultado que tiver no domingo, este desafio já foi vencido. E para ele, no fundo, era isso que contava.

 

José Manuel Coelho – A maior surpresa desta campanha. Trouxe irreverência à corrida presidencial recorrendo apenas aos seus naturais dotes oratórios e à sua vocação para a "sátira de rua", mordendo à esquerda e à direita com a saudável irreverência de uma personagem vicentina. Deixou de estar confinado ao estatuto de estraga-festas no reduto madeirense, ganhando projecção nacional. Foi o único candidato excluído dos debates. Vai receber bastantes votos de simpatia.

 

Manuel Alegre – Encarnou o papel que menos lhe convinha: o de Mário Soares na campanha anterior. Tal como Soares então, radicalizou excessivamente o discurso, procurando transformar a corrida a Belém numa espécie de ajuste de contas com Cavaco Silva. Esqueceu-se da sábia conduta que ele próprio revelou há cinco anos, quando evitou ataques pessoais e sublinhou que uma vitória de Cavaco não poria em risco a democracia. O discurso radical de esquerda, em sintonia com o BE, distanciou-o de muitos socialistas. Termina esta campanha talvez mais só do que estava em 2006.

Presidenciais (26)

Ontem à noite, na RTP N, escutei dois 'analistas políticos' comentando durante longos minutos a campanha eleitoral no espaço habitual que o canal público alojado no cabo costuma reservar para este efeito. Joaquim Aguiar e Manuel Loff - os analistas a que me refiro - "debatem a actualidade política", lia-se em rodapé no ecrã.

Em lado nenhum era referido que qualquer deles é parte muito interessada no debate das presidenciais. Joaquim Aguiar integra a Comissão Política de apoio à candidatura de Cavaco Silva. Manuel Loff é apresentado, na página do PCP na Net, como um dos apoiantes de primeira hora do candidato presidencial Francisco Lopes. Acontece que naquele momento, perante os telespectadores, nenhum deles foi identificado - ao contrário do que as boas normas exigiriam - como comentador alinhado. Sugerir  que possam ser analistas isentos em plena campanha oficial para as presidenciais, a cinco dias do voto, é servir gato por lebre - facto ainda mais lamentável por ocorrer num canal público. 

 

Amanhã e depois: balanço da campanha

Presidenciais (25)

 

 

Num país onde os direitos dos cidadãos são espezinhados diariamente, onde muitas garantias constitucionais (com destaque para o direito ao trabalho) não passam de letra morta e onde as liberdades – nomeadamente no plano económico e social – estão sob ameaça permanente, há um candidato presidencial que tem como uma das suas principais bandeiras (a outra é a regionalização) a defesa dos direitos dos animais. Dir-se-ia que é um candidato fora do sistema, alguém apostado em tornar visível uma causa específica por falta de outro meio de acesso a uma tribuna pública. Nada disso: este paladino dos animais, Defensor Moura, é deputado do PS – o partido do poder – e co-responsável, através do seu voto no Parlamento, pelo Orçamento do Estado para 2011 – o mais restritivo e penalizador de que há memória num quarto de século em Portugal. 

Este deputado que sonha ser Presidente e que parece preocupar-se mais com o bem dos bichos do que com o bem da gente podia adoptar, como lema de campanha, aquela frase célebre do clássico de Orwell: “Quatro patas bom, duas patas mau.” Vinha mesmo a propósito.