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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Que horror, quem faz assessoria de comunicação são mesmo profissionais da comunicação?

 

O Pacheco Pereira e os Abrantes descobriram agora que os governos têm adjuntos e assessores e que as assessorias de imprensa são feitas essencialmente por comunicadores, ou seja: jornalistas, consultores de comunicação e bloggers. Mas gostavam que fossem feitas por quem? Electricistas? Marinheiros? Políticos profissionais? Convém que esclareçam. 

Admiro ainda o espanto com que se referem às agências de comunicação. Porque só num país de conservadores, tacanhos e botas de elástico, é que não se aceita a necessidade da existência de um sector forte de Public Affairs. Antes o poder de influência praticado por profissionais da comunicação, do que por sucateiros. Tenho dito.

Duelo ao pôr-do-sol

 

Quando o PSD venceu as europeias de Junho de 2009 e adquiriu por via disso um capital político que prontamente desbaratou, vindo a perder as legislativas realizadas três meses depois, Pacheco Pereira publicou um longo artigo no Público e no seu blogue do qual destaco estes excertos:

 

- «Lembro-me dos jornais a colocarem a líder do PSD para baixo ao mais pequeno pretexto, porque cometia gaffes, não ia a comícios, não contratava agências de publicidade, não lia do teleponto e tinha "tabus", ou seja, não dizia as coisas quando eles achavam que deviam ser ditas. Lembro-me do clamor quanto à escolha tardia do candidato, garantia da derrota, e outros clamores que, de novo, o jornalismo de rebanho tornava em evidências onde ninguém parava para pensar, escutar e olhar, só repetia.»

- «O mais interessante era ver os que estavam completamente convencidos de que o PSD nunca ganharia as eleições, e desejando, por pura táctica pessoal que as perdesse, a exigir que as ganhasse, num exercício de má-fé e hipocrisia que acabou por se tornar tão explícito como contraproducente. O ambiente era tão hostil, tão hostil, que de facto deu à vitória um significado interior, para o partido, e para o país, muito difícil de tragar, quer pelos adversários internos de Manuela Ferreira Leite, quer para o PS de José Sócrates. A vitória marca um antes e um depois, e isso mostra que já não se pode pensar as coisas como se pensavam antes e muita táctica, principalmente no PS e no interior do PSD, tornou-se poeira de um dia para o outro.»
- «Para muitos profissionais do aparelho partidário, é mais importante manter o seu próprio poder interno do que ganhar as eleições ao PS e dar um novo governo ao país. Vejo muita gente a tomar por adquirido que o "cheiro do poder" chega para "unir" o PSD. Terá sido assim no passado, não o é certamente no presente, onde é mais relevante controlar as listas de deputados e os equilíbrios de poder entre distritais e dirigentes que se comportam como caciques, do que mudar o país.»

 

Corria o dia 15 de Junho de 2009. O PSD parecia embalado por todas as sondagens para vitórias eleitorais mais vastas. Mas o texto de Pacheco suscitou-me a seguinte reflexão:

 

«Pacheco Pereira, no estilo muito próprio a que já nos habituou, transforma o seu primeiro artigo de 'análise' do pós-europeias num lamentável estendal de ajustes de contas em que não se vislumbra uma só frase sobre a derrota do PS mas sobram parágrafos sobre as questiúnculas intestinas do PSD. Um revelador quadro - admito que a contre-coeur - do que é realmente hoje este partido que aspira a tornar-se governo daqui a poucos meses.

Pacheco investe contra os habituais ódios de estimação, nomeadamente aquilo a que chama 'jornalismo de rebanho'´. Mas investe sobretudo contra os ex-adversários internos de Manuela Ferreira Leite, escamoteando um relevante pormenor: a escassíssima margem de progressão do PSD nestas europeias exige um partido unido, sem fracturas, nos dois próximos actos eleitorais. Exige um partido com o discurso oposto ao de Pacheco.

Será talvez lamentável, pelo menos na óptica de Pacheco Pereira, mas Ferreira Leite não poderá prescindir de Pedro Passos Coelho na lista de candidatos a deputados (talvez até como cabeça de lista num distrito, quem sabe?) nem de Pedro Santana Lopes à frente da corrida para a mais emblemática autarquia do País. Por um motivo simples: no próximo Outono cada voto conta. O de Pacheco conta tanto como o de outro social-democrata qualquer. A menos que prefira levar mais quatro anos com José Sócrates em São Bento, o que lhe deve dar matéria para trinta e sete novos artigos contra o 'jornalismo de rebanho'.»

 

Sabe-se o que sucedeu depois: sucessivos processos de intenção, a exclusão do adversário interno, a fúria quase irracional contra os jornalistas, a disparatada equiparação dos supostos rivais dentro das fronteiras do partido ao influente aparelho socialista. Tudo isto contribuiu em larga escala para dar a vitória a José Sócrates a 27 de Setembro de 2009, tudo isto saiu errado aos sociais-democratas naquele Verão funesto. Pacheco, ao nível do PSD de Manuela Ferreira Leite, comportou-se como Sócrates ao nível do governo: é ainda hoje incapaz de admitir que errou como estratego e conselheiro da então líder. Pelo contrário, nos diversos palcos mediáticos de que dispõe para dar largas às obsessões de sempre, comporta-se como um velho cowboy ansioso por um duelo ao pôr-do-sol. Sem reparar que, no fundo, acaba por disparar apenas contra a própria sombra.

A importância de ter memória

Sem exercício de memória não há bom jornalismo. Tive pena, por isso, que metade da mais recente emissão do programa Quadratura do Círculo, da SIC Notícias, tenha sido passada a comentar a exclusão do deputado Pacheco Pereira das listas eleitorais do PSD sem ninguém lhe ter lembrado que o agora excluído foi por sua vez um dos mais notórios apoiantes da exclusão do actual presidente e do actual secretário-geral do partido das listas sociais-democratas às legislativas de 2009. Com a diferença assinalável, nas duas situações, de que Pedro Passos Coelho e Miguel Relvas haviam sido propostos pelas estruturas distritais a que pertencem e mesmo assim a direcção do partido manteve o anátema. Com o aplauso prolongado de Pacheco, que na altura não teve a menor dúvida em encabeçar o distrito de Santarém, assumindo o lugar para o qual a distrital havia indicado o nome de Relvas. Agora, tanto quanto se sabe, nenhuma distrital laranja sugeriu o nome de Pacheco. E seria de uma lata sem limites o comentador da Quadratura do Círculo esperar figurar nas listas de deputados pela quota do presidente - logo ele, que tantas vezes teorizou sobre a necessidade de sintonia política entre a liderança do partido e os candidatos ao hemiciclo de São Bento.

A política dá muitas voltas: em menos de dois anos, este entusiasta da exclusão de Passos é agora excluído - e, a escassos dias das legislativas, o assunto dá pano para mangas num programa em que se gastou mais tempo a fustigar a oposição do que o Governo. Pacheco, que numa emissão anterior da Quadratura defendeu a peregrina tese de que José Sócrates devia manter-se em funções até 2013, também nesta matéria foi poupado à maçada do contraditório. É cada vez mais macio, este jornalismo que deixa os políticos perorar em palco sem sombra de réplica. E afinal de contas não custava nada perguntar-lhe que espúria interpretação do interesse nacional podia levar alguém que se proclama da oposição a ansiar tanto por mais dois anos de mandato do primeiro-ministro com pior folha de serviço da democracia portuguesa.

Um partido sem emenda (8)

«Não há um problema pessoal com um homem, há um problema político com um homem, José Sócrates. Não é com o PS, transformado em marioneta, nem com o Governo, inexistente, é com José Sócrates, político. Os puristas podem dizer que este é um terreno perigoso em democracia, a pessoalização das críticas, e repetir a lenda urbana construída pelo próprio Sócrates com a colaboração de Passos Coelho e dos seus amigos, quando estavam a combater Manuela Ferreira Leite, que atribuía as razões do seu falhanço eleitoral aos "ataques pessoais a Sócrates". Tretas! O problema existe mesmo e queiram os autores da lenda no PSD ou não queiram, é exactamente a idiossincrasia do "homem" o que lhes perturba a possibilidade de terem sucesso com todas as vantagens a empurrar a seu favor. (...) Eu não estou a dizer que Sócrates seja um produto da televisão, embora também seja, mas que as suas qualidades pessoais, e o modo profissional como utiliza os media, lhe permitem uma enorme vantagem sobre os seus adversários, mesmo no pior dos contextos.»

 

José Pacheco Pereira, no Público de sábado. Faltam 33 dias para as legislativas.

Um partido sem emenda (6)

«Nós não temos hoje à frente dos dois principais partidos pessoas que tenham capacidade e preparação para enfrentar a crise que temos.»

Pacheco Pereira, quinta-feira, na Quadratura do Círculo (SIC N)

 

«O PSD é um partido sem estratégia.»

Pacheco Pereira, ontem, em entrevista à Antena 1 e reproduzida na RTP

 

Faltam 36 dias para as legislativas.

Um partido sem emenda (3)

«O radicalismo inconsciente de "correr o Sócrates o mais depressa possível", a que no PSD se deu ouvidos, ameaça ser ou mantê-lo, contra todas as evidências, ou dar-lhe o melhor cenário possível para um retorno ao poder a curto prazo. E o melhor cenário possível, não custa perceber, é um PSD ganhador por uma pequena margem sobre um PS que sai do seu annus horribilis sem grandes estragos. Sócrates escapará ao pior da crise, a execução do plano de austeridade do FMI passará a responsabilidade do PSD, e este estará na primeira bancada da Assembleia a conduzir uma oposição revanchista e perigosa face a um PSD muito debilitado por uma vitória que será de Pirro.»

José Pacheco Pereira, em artigo de página inteira hoje no Público. Faltam 42 dias para as legislativas.

Importam-se de explicar isto?

Esta revelação de Pacheco Pereira deixou-me absolutamente perplexo. Em primeiro lugar, fiquei a saber que os deputados, que elegemos como representantes do povo, são afinal comandados por SMS, nos quais até recebem mensagens a ordenar-lhes para ficarem calados. Só isso já seria algo que nos deveria fazer pensar muito sobre o verdadeiro estado das nossas instituições. Mas o que resulta da revelação é ainda mais preocupante. É que parece que a razão da ordem de silêncio era para não prejudicar as negociações que o Governo estava a ter em Bruxelas. Se de facto era essa a razão, tudo o que se passou depois passa a ter que ser visto com outros olhos. Se o PSD apoiou previamente as negociações do PEC4 em Bruxelas e apenas mais tarde as decidiu rejeitar no Parlamento português, compreende-se a onda de indignação que atingiu os responsáveis da União e dos outros países e as declarações exaltadas que têm feito contra os políticos portugueses.

 

As eleições são um tempo em que os políticos devem explicações aos eleitores sobre o que fizeram e o que não fizeram. Para eleições que decorreram num cenário totalmente virtual, já basta as de 2009. Acho que é altura de se dar uma explicação coerente sobre as reuniões que houve ou que não houve, as negociações que ocorreram ou não ocorreram,  e se houve ou não retirada de apoios que previamente tenham sido dados à negociação. Isto é muito mais importante do que a apresentação de programas ou de listas. Eu, como simples cidadão eleitor, gostava muito de ser esclarecido sobre este assunto.

Enfim, boas notícias para Passos

Uma boa notícia para Pedro Passos Coelho: Santana Lopes está contra ele. Outra boa notícia para o líder do PSD: Pacheco Pereira também está. Com o ex-presidente do grupo parlamentar social-democrata a suplantar, nesta matéria, o antigo líder do partido. "Os partidos da oposição têm responsabilidades no agravamento da situação", dizia ontem Pacheco na Quadratura do Círculo, com Pedro Silva Pereira no habitual lugar de António Costa. O ministro socialista sorria ao escutar o deputado laranja, seu acólito no programa. "Nenhum dos partidos está a comportar-se à altura da crise que atravessamos", prosseguia Pacheco, tornando ainda mais rasgado o sorriso do ministro. "Não acho admissível que o PSD não tenha apresentado de imediato uma alternativa ao PEC que o PS apresentou", insistia o ex-guru de Manuela Ferreira Leite, que ainda há pouco defendia alto e bom som a necessidade de José Sócrates permanecer como primeiro-ministro até 2013.

No estúdio da SIC, Silva Pereira mantinha o sorriso. A essa mesma hora, estivesse onde estivesse, Passos Coelho tinha motivos para sorrir também.