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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Cavaco na voz de Manuela Ferreira Leite

Extraordinário, sendo as coisas o que são, não é que este discurso tenha sido proferido. Nem que corresponda, no essencial, ao pensamento político de Cavaco Silva, que Ferreira Leite tão bem exprimiu no hemiciclo de São Bento. Extraordinário é que tenha sido aplaudido de pé pela bancada social-democrata, a partir da última fila até à primeira, como uma 'onda' de claque num estádio de futebol.

Apetece perguntar aos deputados do PSD: afinal aplaudiram o quê?

Em pânico com as sondagens

 

Pobre e mal agradecido, no tom comicieiro de sempre, José Sócrates transforma o PSD - seu parceiro na viabilização da proposta orçamental - no bombo da festa do debate iniciado esta manhã na Assembleia da República. Não faz qualquer alusão às previsões de crescimento económico ou ao drama social do desemprego, como Paulo Portas muito bem acentuou, mas em alternativa faz várias referências às mais recentes sondagens.

O que significa isto? Que Sócrates está em pânico com as sondagens. Isto revela bem até que ponto o chefe do Governo vive dissociado da realidade: como poderia ser de outra maneira? Governando como governa, só admira que as sondagens não lhe sejam ainda mais desfavoráveis. Como, de resto, as próximas amplamente demonstrarão.

Orçamento: o que o PS não deve fazer e o que o PSD não pode fazer

 

 

Pedro Passos Coelho não pode pedir desculpa aos portugueses pela segunda vez em menos de seis meses. O líder do PSD foi suficientemente claro - read his lips - quando enunciou ao País, por vontade própria, quais seriam as matérias que o fariam votar contra o Orçamento de Estado para 2011: aumento da despesa pública e aumento dos impostos.

Fez isso em nome da necessidade de clarificar as regras do jogo político. E fez bem. Perante a sua própria lógica, seria inaceitável que repetisse o sucedido com o PEC2, dando o dito por não dito. Incomode quem incomodar, diga o Presidente da República o que disser. A política não pode ser um jogo de póquer, onde o bluff impera. Faltar à palavra dada é um dos piores defeitos dos nossos políticos. Sócrates já o fez vezes sem conta. Passos quererá imitar-lhe o estilo? Creio que não. Até porque o original é sempre favoravelmente comparado à fotocópia.

Note-se, aliás, que o PSD não tem nenhuma obrigação "institucional" de viabilizar o orçamento. Compreendo que esse cenário daria algumas dores de cabeça ao putativo recandidato Cavaco Silva, mas um Presidente da República é eleito para resolver problemas, não para se afastar deles. Por toda a Europa, a norma é o principal partido da oposição votar contra o orçamento apresentado pelo Governo. Veja-se o que sucede em Espanha, onde há também um Governo socialista minoritário: o Partido Popular prepara-se para chumbar o orçamento de Zapatero, que já se viu forçado a negociar com outra força da oposição - no caso, o Partido Nacionalista Basco - para garantir a aprovação do mais importante instrumento da acção governativa. Teve de dialogar, teve de fazer cedências - por sinal num quadro político, como é o espanhol, muito mais complexo do que o português.

Por cá, Sócrates não dialoga, não negoceia, não cede. Mantém a aura de "animal feroz", lançando as culpas sobre o PSD, como se este partido - que já lhe garantiu a aprovação do PEC1 e do PEC2 - estivesse em coligação com os socialistas, sob o alto patrocínio do Presidente da República.

Volto ao princípio: o PSD não pode votar um orçamento que aumenta impostos. Porque essa foi uma garantia proclamada aos portugueses por Passos Coelho. Há quatro outras forças partidárias no Parlamento. Cabe a Sócrates negociar com elas, tal como Zapatero fez em Espanha, em vez de lançar ultimatos em tom de amuo. Vire-se para o CDS, à direita. Vire-se para o BE, PCP e Verdes, à esquerda. Aprenda a dialogar: tarda a perceber que está há um ano em minoria. Um ano exacto, por sinal.

 

Publicado aqui a 27 de Setembro. Naturalmente, tão actual hoje como nesse dia.

Quando a oposição é mesmo oposição

Se houvesse agora eleições legislativas em Espanha, revela hoje uma sondagem do El Mundo, o Partido Popular conquistava a maioria absoluta, com 46,4% por votos - mais 12,6% do que o PSOE, de Zapatero. Em Espanha - como em Portugal - os socialistas estão no poder, governam em minoria e conduziram o país ao descalabro económico. A diferença é que lá, ao contrário do que acontece em Portugal, o maior partido da oposição não "viabiliza" o orçamento do Governo. Nem o Rei Juan Carlos procura "sensibilizar" o líder do PP, Mariano Rajoy, para facilitar a vida ao Executivo.

Talvez por isso, em Espanha o principal partido da oposição descola nas sondagens. Precisamente ao contrário do que sucede aqui.

Pode ser que me engane:

O PSD resolveu afirmar a sua disponibilidade para um último esforço.

 

Posso estar enganado mas não acredito que o Governo as aceite. Não acredito por saber que ESTA gente é quem realmente manda neste Governo e no actual Partido Socialista. Não acredito que a arrogância se transforme em humildade*, de um dia para o outro. Não acredito que olhem para as sugestões de forma séria.

 

Pode ser que me engane. Deus queira que me engane.

 

 

 

 

 

 

* (Carta enviada aos clientes do DBank):

 


É preciso ter topete

Andavam preocupadíssimos com a imagem de Portugal junto dos mercados internacionais e depois fazem uma coisa destas. O Orçamento de Estado é entregue incompleto, em clara violação da lei do enquadramento orçamental, o que acontece pela primeira vez.

A esta hora, os mercados internacionais só podem estar a  tecer rasgados elogios a tão comprovada competência...

Como diria Freitas do Amaral, no tempo em que havia Governo, é preciso ter topete.

O que faria Sá Carneiro num momento destes?

Colunistas de esquerda, colunistas de direita, colunistas furta-cores, colunistas sem coluna - todos falam, gritam, berram, imploram, exigem que o PSD "viabilize" um péssimo orçamento, em que ninguém se revê, que rompe os consensos sociais estabelecidos em Portugal nas últimas duas décadas (nomeadamente na questão das deduções fiscais) e com metas macro-económicas que não tardarão a ser ultrapassadas pela realidade, à semelhança do que sucedeu com o orçamento de 2010.

Invocam-se, para o efeito, argumentos de autoridade. Vindos de quem? De eminentes vultos como Durão Barroso, Marcelo Rebelo de Sousa, Francisco Pinto Balsemão, Marques Mendes, Manuela Ferreira Leite, Pacheco Pereira, Paulo Rangel e o prestigiado economista Miguel Sousa Tavares. Espantosamente, à esquerda há mesmo já quem invoque - na desesperada tentativa de pressionar Pedro Passos Coelho a alinhar com a dupla Sócrates-Teixeira dos Santos - opiniões debitadas por Vasco Pulido Valente, Medina Carreira e Pedro Santana Lopes.

Vale tudo para validar o esbulho. Mas, na perspectiva do PSD, a pergunta que num momento grave como este deve ser feita é simplesmente esta: como agiria Francisco Sá Carneiro se estivesse no lugar de Passos Coelho?

Por mim, não tenho dúvidas: o fundador do PSD sempre preferiu as rupturas aos falsos consensos. Dissessem o que dissessem os eminentes vultos.