A colecção de cromos Lembro com nostalgia a paciência necessária para concluir uma colecção de cromos. Quando era criança, fiz a História de Portugal, com bonecos lindíssimos (não recordo qual era o mais difícil). Na redacção do jornal onde trabalho, há um enorme entusiasmo juvenil pela colecção de cromos dos jogadores do mundial. Parece que um dos mais difíceis é o de João Moutinho, que nem sequer jogou na África do Sul. No albergue e em blogues amigos há também um entusiasmo febril para completar uma colecção de cromos do universo socrático, em forma de cartas de jogar. Não vou discutir o mérito da iniciativa, mas julgo que a crítica explícita vai um bocado ao lado, pois o problema do País não tem a ver com pessoas, mas com o regime. Tal como João Moutinho não joga no mundial, o baralho socrático podia ter sido feito com indivíduos totalmente diferentes. Estes serão os que tiveram oportunidade ou que foram levados pelas circunstâncias.
A actual organização política tem pouco a ver com democracia e com capitalismo. Acho que os socialistas estão a tentar criar um regime mexicano ou, se quiserem, uma Madeira em larga escala. Os empregos resultam das amizades, da lealdade ao movimento, da filiação partidária. A progressão nos empregos ainda mais depende destes critérios. Os negócios sujeitam-se à proximidade de interesses e favores. Quem joga na equipa é compensado, mesmo que seja bronco, e de preferência se realizar algum trabalho útil para a causa. Vimos com espanto que há gestores nomeados para empresas cuja missão é apenas a de servir o partido, não a empresa onde trabalham. A oposição tem maior fatia do bolo quanto maior for a sua inépcia e incapacidade de alterar a situação. A ligação entre grupos empresariais e Estado é tão íntima que quase nada os distingue. Em troca de favores de Estado são garantidos empregos. As empresas que atraem a hostilidade têm fiscalizações inesperadas e enfrentam concorrentes cujo privilégio é o de não terem de cumprir a lei. E não há cultura do mérito, pelo contrário, a incompetência parece ser o critério fundamental para a ascensão nas hierarquias. É fácil perceber a razão: nenhum incompetente pensa pela sua cabeça.
As privatizações foram uma ficção, como se comprova com a golden share da PT, e o controlo da informação é apertado, não através de coronéis censores, mas de forma mais subtil, sobretudo através de opiniões com aspecto de diversidade mas que são todas idênticas. Cada um sabe o seu lugar. Quem jogar na equipa é compensado. Quem não está connosco é contra nós. Isto vale para todos, do simples funcionário público ao presidente do conselho de administração. No fundo, trata-se de um sofisticado sistema feudal de pequenos territórios, de vassalagens e dependências, de alianças indestrutíveis e corruptas, com mecanismos brutais de retaliação. O Estado determina os incentivos e a clientela é monstruosa, dispensável e facilmente substituível. Nem pensem que isto depende das pessoas, porque se não forem estes, serão outros.
A retaliação maior é ficar sem emprego, ficar sem amigos. A famosa secretária sem telefone e com vista para a parede. Os sindicatos desapareceram, devidamente domesticados. O jornalismo está calmo, sobretudo onde conta, nas televisões. Os jornais estão quase falidos, evoluíram para tablóides, em busca de leitores, e já não lideram. A oposição de esquerda continua num mundo de fantasia retórica, incapaz de travar a perda de direitos sociais dos trabalhadores. E a direita tribalizou-se. As pessoas têm medo: medo de perderem o seu emprego, de não poderem pagar os empréstimos da casa; medo de criticar, medo de quem possa estar a ouvir o desabafo. Os locais de trabalho estão balcanizados (porque é que aquele sobe e eu fico na mesma?). Há quem tenha medo de falar ao telefone ou passar numa auto-estrada, mas isso deve ser paranóia.
É por isso que não gosto das cartas. O baralho socrático estará sempre incompleto e fará a injustiça de incluir pessoas genuinamente idealistas. Foi o PS que teve a oportunidade de criar este sistema, mas o PSD fez o mesmo na Madeira. Este não é um problema de pessoas, mas de mentalidade errada e crise de valores; um problema da nossa democracia, que o endividamento e o colapso financeiro vieram exacerbar. O bolo está a diminuir e, por isso, a divisão ficou mais restritiva. A elite já inclui descontentes e o ciclo termina de forma catastrófica, com o País a afundar-se e os cidadãos comuns, as vítimas do costume, a terem de pagar o sacrifício. E era bom que o próximo ciclo pudesse romper com o mecanismo infernal, evitando as dependências que nos levaram ao declínio e ao desastre, como se fossem um vício.
O Governo de Sócrates sobrevive hoje exclusivamente à custa do medo que instituiu em todos os agente políticos de que o seu derrube represente uma catástrofe para o país. Em consequência toda a actividade política está condicionada por esse medo. O Presidente da República não se atreve a demitir o Governo, apesar de as situações em que este se envolveu porem claramente em causa o regular funcionamento das instituições. O PSD acaba de pactuar com o Governo uma série de medidas gravíssimas de aumento de impostos para além do limite do suportável, "desculpando-se" com o medo de que se agrave a crise financeira, que nos cortem o crédito, e possa cá chegar o papão do FMI. Mas, em consequência desse medo, o Governo continua na sua senda despesista e depois de se recusar a abandonar a linha do TGV para o Poceirão, vai ainda lançar novo concurso para a terceira travessia do Tejo. Pelo caminho, Sócrates permite-se gozar com o aumento do IVA nos bens essenciais, dizendo que também abrange as Coca-Colas, demonstrando assim uma enorme insensbilidade social, ao fazer os pobres pagar a crise.
Estamos assim num ciclo vicioso, que não há maneira de ser quebrado. Enquanto os agentes políticos tiverem medo de derrubar o Governo, o Governo vai continuar a conduzir esta campanha alegre, e a situação do país continuará a agravar-se cada vez mais.
Que não haja ilusões quanto à urgência em se alterar esta situação. Há um claro paralelo entre a crise que atravessamos e a América depois da crise de 1929. Roosevelt concorreu e venceu Herbert Hoover em Novembro de 1932, com um ambicioso programa de reformas económicas. No entanto, só podia legalmente tomar posse em Abril do ano seguinte. Ora, esse período de mais seis meses traduziu-se no arrastar da crise, com a falência de um banco por dia. Tomando consciência dessa situação, logo que assumiu o cargo, mandou alterar a lei, antecipando a tomada de posse do novo Presidente para Janeiro, como ainda hoje ocorre.
Simbolicamente, a chegada de Roosevelt ao poder foi marcada por um discurso contra o medo que atingia a América, de que ficou a frase emblemática: "We have nothing to fear but fear itself". É tempo de em Portugal se tomar consciência de que não se pode deixar arrastar por mais tempo esta situação. Se este Governo durar mais seis meses, esses seis meses serão catastróficos para Portugal. Deve-se terminar rapidamente com este Governo e colocar no poder um novo Governo, que devolva a confiança aos cidadãos, e tenha a coragem de realizar as reformas que se impõem.
A crise do capitalismo Nos Estados Unidos alastra um movimento populista chamado Tea Party. Trata-se de uma rebelião anti-grande-capital e anti-governo, que à primeira vista parece liberal (no sentido europeu do termo), mas que na realidade é ultra-conservadora. Ela assenta numa visão religiosa e anti-científica. Por exemplo, os seus adeptos são criacionistas e contestam a tese das mudanças climáticas. O movimento é também isolacionista, reanimando uma longa tradição adormecida da política americana. Convém ler este artigo da New Yorker para entender o movimento do Tea Party. O nome é referência a um famoso episódio que precedeu a Revolução Americana, mas também a sigla de “Taxed Enough Already”, que significa “Já pagamos suficientes impostos”. Do ponto de vista político, este movimento de bases sociais (cujos heróis são Sarah Palin, apresentadores de rádio ultra-direitistas e vedetas da Fox News) constitui uma enorme ameaça para Barack Obama, pois são usados os mesmos métodos de pequeno activismo em rede e em larga escala que o levaram à Casa Branca.
As mentiras É preciso compreender que em muitas pequenas comunidades dos EUA as pessoas acreditam que as iniciativas de Obama são “socialistas”; a protecção constitucional da livre expressão, garantida a todos os americanos, torna fácil propagar mitos e tecnologias como a internet colocam as mentiras em todo o mundo: Obama nasceu no Quénia, John Mc Cain é um comunista, o supervulcão de Yellowstone vai rebentar, a evolução é uma fábula, existem mil conspirações contra a América. O crescimento do Tea Party (que tem milhões de adeptos) só pode ser explicado pela extrema ansiedade em que vivem os americanos. Esse nervosismo é provavelmente uma marca inevitável das sociedades pós-industralizadas que vivem sob o choque do iminente fracasso do capitalismo. A crise financeira de 2008 foi vista como uma traição dos poderosos de Wall Street, cuja ganância provocou o colapso económico de quem trabalha. Enfim, minando a base da prosperidade.
Já não há lugar para velhos Na óptica do homem comum, o capitalismo parece de facto um mundo a encolher. Trabalhamos cada vez mais horas, com máquinas mais sofisticadas, mas a nossa produtividade não acompanha as necessidades da economia. Depois, vem o downsizing: empresas poderosas, que outrora dominaram mercados globais, despedem fatias importantes das suas forças de trabalho. As indústrias fecham e os novos empregos vão para os serviços, onde parece que não se produz nada. Para mais, a imbatível economia financeira também entrou em colapso e ainda mais depressa do que indústrias que outrora marcaram as paisagens da Europa e EUA. Além disso, pagamos cada vez mais impostos, que parecem perder-se numa espécie de buraco negro, de dívida crescente, de défice galopante. E o que melhorou nos serviços públicos? Pois bem, tudo piorou. Em todos os serviços. E as pensões, que julgávamos gordas e confortáveis para todo o sempre, virão mais tarde e serão menores, por isso é preciso poupar para a velhice, para a saúde e para a hipoteca. Aos 50 anos, um trabalhador já não serve para nada, a sua memória e experiências são inúteis para os patrões. E aos 35, passa-se a velho. E, por absurdo que pareça, chegar empregado à idade da pensão começa a ser um desafio. Este fracasso do capitalismo está a gerar um imenso medo e a criar terreno fértil para soluções populistas. Fenómenos como o Tea Party vão proliferar. São baseados em mentiras mil vezes repetidas, nos delírios mais desenfreados, mas são o futuro.
Era suposto ter já passado à história, mas Guantanamo Bay e os 192 prisioneiros que ainda por lá estão são uma realidade que custa à reputação de Barack Obama. Foram muitos os que há um ano demonstraram que não seria possível fechar aquele centro de detenção, que vive há cerca de oito anos à margem do direito, em doze meses apenas. É no que dá tentar cumprir promessas eleitorais sem pensar, ou, para dizer o mínimo, com muito mau aconselhamento. Ainda assim, é incontestável a mudança de retórica, de rumo na diplomacia, mudança de postura no que a Direitos Humanos diz respeito. E isto é muito importante. Recomendo a leitura das posições da Human Rights Watch sobre os ganhos deste primeiro ano com Obama na Casa Branca. Está lá tudo, o bom e o mau.
Da parte negativa destaco a preocupação que os defensores dos direitos civis sobre a possibilidade de muitos dos prisioneiros que ainda se encontram em Guantanamo Bay poderem vir a ser encarcerados de novo, mas em solo norte-americano, após o fecho da prisão ilegal.
Daqueles 192 que ainda estão em na base dos EUA em solo cubano, mais de cem receberão “guia de marcha” e poderão ser acolhidos e integrados nas sociedades de outros países. Quanto aos restantes – cerca de 80, indica a maioria da imprensa internacional –, espera-os um dos seguintes destinos: aqueles sobre quem existam evidências de envolvimento em actividade criminosa poderão ser julgados em tribunais civis ou por comissões militares (a Administração Obama ainda não esclareceu quais as razões que presidirão à distinção); aos outros espera-os uma prisão, muito provavelmente no estado do Illinois, mesmo que sobre eles não exista acusação formada, nem suficientes provas para que tal se deduza ou justifique a detenção, mas que, diz Washington, serão indivíduos muito perigosos para serem simplesmente soltos, repatriados ou reintegrados. Isto é absolutamente inaceitável do ponto de vista democrático, dos direitos humanos e, a acontecer assim, deixará aberta a ferida que, sim, foi aberta por George W. Bush, mas que Obama prometeu fechar. Joga-se a credibilidade dos EUA e, também, a honestidade e capacidade de compromisso do próprio presidente dos EUA. Eu, apesar de algum cepticismo, confesso, quero continuar a acreditar que o senhor não é nenhum mentiroso e vou esperar para ver. Para já, a perspectiva é um pouco mais realista.
O oposto do amor Qual é o oposto do amor? Podemos pensar que é o ódio, mas essa talvez não seja a melhor resposta. Um sábio diria que o oposto do amor pode bem ser o medo. Ouvi esta meditação numa conferência da neta do Mahatma Gandhi, Tara Gandhi, na Fundação Gulbenkian, terça-feira, em Lisboa. O ensinamento flutuou quase anónimo, sem parecer importante. As ideias orientais são por vezes incompreensíveis para nós, materialistas do ocidente, e algumas opiniões da conferencista eram difíceis de aceitar. Ela usava um discurso de estranha humildade, tornando mais improvável a nossa aceitação. Podemos dizer de outra maneira este pensamento iluminado: o que impede o amor não é o ódio, mas sim o medo. Isto aplica-se às nações, aos conflitos entre amantes, às discórdias civis das sociedades. Temos medo; em resposta, parecemos destilar ódio, mas apenas mostramos o temor do desconhecido. A vertigem assusta e quanto maior o receio, maior a rejeição do que se teme.
Esta realidade está mais próxima de nós do que parece. Ela rodeia-nos. O medo explica a inveja, a guerra preventiva, a hostilidade, o ciúme, a resistência; o medo explica a gritaria no debate, a indecisão ferida, o erro destrutivo, a dúvida, o desprezo. Veja-se com distanciamento: existe medo à nossa volta, uma tensão social feita de pequenas inseguranças, de apreensão pelo futuro, de sobressalto permanente. Deixámos de ter uma vida, deixámos de ter estabilidade. E o temor produz agressão: não queremos ouvir o outro, tudo o que ele nos diga soa a estranho ou maléfico e pode ser reduzido a minúsculos fragmentos negativos; repetiremos mil vezes a mentira, transformando a possibilidade em antipatia, o diálogo em discórdia, o amor em miséria. Num mundo materialista, é difícil perceber a ideia da não-violência. Ela exige um penoso ponto de partida, tão inaceitável para a razão interesseira, de que o nosso inimigo nunca o é verdadeiramente; antes o que parece ódio não passa de pânico e susto, sendo por isso digno da compaixão, da lástima que se tem pelo próximo, daquele que no fundo é igual a nós.
Imagem: pintura de Frits van den Berghe, "O corredor", 1927.