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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Alegre nunca esteve tão só

 

Como escrevi antes do escrutínio presidencial, Manuel Alegre terminou esta segunda corrida a Belém ainda mais isolado do que na primeira apesar de contar agora com o apoio oficial do Partido Socialista e do Bloco de Esquerda. A primeira estocada foi-lhe dada por José Sócrates na própria noite eleitoral ao declarar que os eleitores haviam optado pela "estabilidade política": uma tentativa canhestra de reaproximação a Cavaco Silva lançando para cima dos ombros de Alegre o labéu da "instabilidade". A segunda - e decisiva - estocada foi-lhe dada ontem por Francisco Louçã ao anunciar no Parlamento a primeira moção de censura pós-presidenciais ao Governo socialista, deitando por terra toda a estratégia de convergência das esquerdas que Alegre tentara construir nos últimos dois anos como plataforma para a sua candidatura presidencial. Por mero tacticismo político, apenas com o objectivo de medir forças com o PCP em radicalismo de esquerda, o líder do BE acaba de dizer aos portugueses, escassos 18 dias após a contagem dos votos, que a candidatura de Alegre não teve o menor significado político nem deixou rasto de qualquer espécie. Convém não abusar da perda de memória: o Louçã que anuncia a moção contra o Governo é o mesmo que há três semanas surgia com destacados dirigentes socialistas nos comícios do candidato apoiado simultaneamente pelo PS e pelo Bloco.

Alegre, de facto, nunca esteve tão só.

O purgatório pode esperar

 

Domingo à noite, logo após terem sido conhecidos os resultados eleitorais, José Sócrates revelou-se um digno aprendiz de Maquiavel. Em poucas frases colou-se ao vencedor, com o pragmatismo de um jogador de casino ao reconhecer que os dados estão lançados. E deu um abraço de urso a Manuel Alegre, como se nunca tivesse amarrado o PS a uma estratégia tão errática e derrotista como a de há cinco anos.

Lesto em sacudir a água do capote, o primeiro-ministro proclamou: "Estas são eleições presidenciais e os portugueses sempre souberam distinguir entre opções políticas nas legislativas - em que os partidos estão directamente envolvidos - e eleições presidenciais, que são baseadas em candidaturas individuais". E logo a seguir, com aquela ligeireza que o caracteriza, acentuou: "Foi com orgulho que todos os socialistas estiveram ao seu lado [de Manuel Alegre]." Esta frase, além de contradizer a anterior, estava totalmente longe da verdade, pormenor irrelevante no habitual fio discursivo do primeiro-ministro, um hábil manipulador de pessoas e factos.

Marxismo puro, tendência Groucho: "Se estes princípios não servem, arranjam-se outros." Alegre, tal como Mário Soares antes dele, acaba de ser arrumado na galeria de troféus do pragmatismo socrático. Foi, naturalmente, um chefe do Governo com ar tranquilo que na noite eleitoral garantiu ao País que "os portugueses optaram pela estabilidade política" ao elegerem Cavaco Silva, a quem Sócrates se apressou a prometer "cooperação institucional". Subentende-se que Alegre traria instabilidade: é quase uma declaração a posteriori de voto contra o malogrado candidato socialista, duplamente derrotado no dia 23 - primeiro nas urnas, a 33 pontos do vencedor; depois na oratória daquele que é ainda o líder do seu partido, resta ver por quanto tempo.

Este Sócrates de verbo fácil e manha expedita fez-me lembrar o Marco António de Shakespeare dirigindo-se aos romanos logo após o assassínio de César às mãos de Bruto. "Friends, Romans, countrymen, lend me your ears; / I come to bury Caesar, not to praise him; / The evil that men do lives after them, / The good is oft interred with their bones."

A pressa é muita: ele veio para enterrar o candidato socialista, não para o louvar. E prestar desde logo tributo ao César de Boliqueime, renascido politicamente para novo mandato, cumprindo à risca o mandamento maquiavélico: há que "manter o ânimo dos súbditos aturdido e em suspenso", evitando que possam "urdir tranquilamente algo contra ele".

O purgatório pode esperar.

Notas avulsas da noite eleitoral

 

 

1. Registou-se, como previ, a maior taxa de abstenção de sempre numa eleição presidencial: 53%. Houve menos um milhão de portugueses a votar nestas presidenciais, em comparação com as de 2006. Um sinal inequívoco do divórcio dos cidadãos em relação ao sistema político.

2. Houve 270 mil portugueses a votar branco ou nulo, o equivalente a 6,3% dos eleitores. Isto apesar de os votos brancos ou nulos serem irrelevantes para a contabilidade final em eleições presidenciais. Outro sintoma inequívoco de distanciamento.

3. Muitos portugueses não puderam hoje votar por motivos de ordem burocrática totalmente inadmissíveis. A culpa não pode morrer solteira. Espera-se, pois, a demissão do ministro da Administração Interna e do presidente da Comissão Nacional de Eleições ainda hoje.

4. Manuel Alegre, sem o apoio oficial do PS nem do Bloco de Esquerda, obteve há cinco anos maior percentagem (20,7%) e mais 300 mil votos do que agora (19,8%). José Sócrates e Francisco Louçã, em vez de somar, subtraíram.

5. O eleitorado do centro é decisivo. Por isso a radicalização à esquerda da candidatura de Alegre foi totalmente incompreensível. O desastre eleitoral estava à vista: eu bem avisei.

6. Fernando Nobre, sem aparelho partidário, foi o candidato genuinamente apartidário com maior sucesso nas urnas nestes últimos 30 anos. Com 14%, duplicou a percentagem obtida em 1986 por Maria de Lurdes Pintasilgo. Revelou-se, de facto, a maior surpresa desta noite eleitoral.

7. Numa altura em que os partidos muitas vezes são parte do problema e não da solução há hoje cada vez mais espaço para candidaturas de cidadania, emergentes da sociedade civil.

8. No duelo muito particular que mantém com o BE, o PCP não se saiu mal: aguentou o essencial do seu território. Mas o candidato comunista, Francisco Lopes, obteve metade da percentagem de Nobre, recolhendo menos 130 mil votos do que o seu camarada Jerónimo de Sousa em 2006. Com a máquina comunista a apoiá-lo enquanto Nobre não tinha máquina alguma.

9. Também sem máquina de espécie alguma, José Manuel Coelho obteve 4,5%. Mais que isso: conquistou maioria em três concelhos da Madeira, incluindo o Funchal, em ano de eleições regionais. E superou Lopes em Vila Real. Vale a pena analisar este fenómeno, que na região autónoma ultrapassa o mero voto de protesto.

10. Durante semanas, escutámos comentadores televisivos falar apenas em dois candidatos. Cavaco e Alegre. Como se mais nenhum existisse. Estes comentadores - muitos dos quais já tinham ignorado Alegre nas presidenciais de 2006 - também saem derrotados. E de que maneira.

11. Defensor Moura, esmagado nas urnas, fez um discurso de puro ódio pessoal contra Cavaco. Não cumpriu as regras mínimas do fair play democrático.

12. Destaque para o bom senso revelado por Pedro Passos Coelho. Os sociais-democratas "não vão à boleia desta eleição presidencial", acentuou o presidente do PSD, apresentado como "presidente da Assembleia Municipal de Vila Real" num comício de Cavaco. Fica-lhe bem esta prudência.

13. O melhor discurso da noite foi o de Alegre. Felicitou o vencedor e assumiu a derrota com humildade democrática. Nem uma palavra a mais, nem uma palavra a menos.

14. José Sócrates igual a si próprio com esta frase notável: "Todo o Partido Socialista esteve ao lado de Manuel Alegre."

15. Cavaco Silva, com menos meio milhão de votos que em 2006, pareceu totalmente fora de tom no seu amargo e crispado discurso da vitória: "Nunca vendi ilusões aos portugueses nem prometi o que não podia cumprir." Ninguém tenha dúvidas: esta é uma declaração de guerra contra Sócrates. Começou um novo ciclo na política portuguesa.

Presidenciais (30)

    

 

Três derrotados

 

MANUEL ALEGRE

A reboque do ex-presidente da câmara de Viana do Castelo, conduziu uma campanha pela negativa, diabolizando o seu principal adversário e contribuindo para congregar em torno de Cavaco Silva muitos eleitores pouco satisfeitos com o mandato presidencial. Literalmente abandonado pelo aparelho socialista, cada vez mais identificado com o Bloco de Esquerda, procurou satisfazer segmentos antagónicos do eleitorado, numa espécie de quadratura do círculo. Uma estratégia que não satisfez ninguém e acaba de ser fortemente penalizada nas urnas. Nada a ver com a candidatura de 2006.

 

DEFENSOR MOURA

Sai deste escrutínio com um resultado irrisório sem nunca ter explicado verdadeiramente aos portugueses por que motivo entrou na campanha presidencial. Ao longo destas semanas notabilizou-se apenas por agitar o chamado 'caso BPN', com os resultados que esta noite ficaram à vista de todos: em vez de prejudicar Cavaco, beneficiou-o. No campeonato dos 'pequenos', foi claramente derrotado por José Manuel Coelho apesar de ter beneficiado de um protagonismo nos debates pré-campanha que foi negado ao madeirense.

 

JOSÉ SÓCRATES

Surgiu duas vezes em palco, nos comícios de Manuel Alegre, apelando ao voto no candidato que o PS apoiou oficialmente. E viu um dos seus principais ministros, Augusto Santos Silva, protagonizar as habituais declarações dignas de elefante em loja de porcelana. Verá a coabitação com Belém ainda mais difícil daqui por diante num momento em que é cada vez mais patente o seu divórcio com os portugueses - incluindo largos milhares de eleitores socialistas, que ostensivamente rejeitaram a sua recomendação de voto. Confirma-se: é incapaz de acertar numa estratégia presidencial.

Presidenciais (27)

Cavaco Silva – Uma sombra do que foi noutros tempos. Começou de forma titubeante a campanha, que só pareceu ganhar gás com o tema BPN: um Cavaco momentaneamente vigoroso veio à tona nesses dias. O assunto funcionou também como agregador das hostes, que pareciam adormecidas. Mas o homem que desta vez nem contou com um blogue especial de apoiantes foi incapaz de qualquer golpe de asa. Termina a campanha a pedir uma vitória à primeira volta pelo pior dos motivos: para poupar dinheiro. E com um temor indisfarçável da abstenção.

 

Defensor Moura – O deputado socialista que mal ousou sair do perímetro de Viana do Castelo e chegou a ser notícia nas televisões por "dar um passeio improvisado na rua onde mora" esgotou-se nesta campanha a fazer o papel de lebre para dar alento à de Manuel Alegre, seu camarada de partido e seu colega de Parlamento. A estratégia saiu-lhe às avessas: o BPN funcionou como toque a rebate dos desmobilizados eleitores de Cavaco. A partir daí Moura praticamente desapareceu.

 

Fernando Nobre – O médico independente que muitos socialistas irritados com Alegre apoiam teve boas prestações nos debates televisivos e conduziu no terreno uma campanha que foi ganhando projecção, apesar das tentativas de muitos comentadores de o considerarem irrelevante. Tal como Alegre em 2006, o fundador da AMI utilizou o apelo da cidadania como trunfo eleitoral num país cansado de jogos partidários. Pode vir a protagonizar a maior surpresa da noite do escrutínio.

 

Francisco Lopes – Foi sólido, consistente e esforçado na tarefa de mobilizar os eleitores comunistas. Para esse efeito insistiu sobretudo em percorrer o tradicional circuito do partido, centrado no triângulo Lisboa-Setúbal-Alentejo. A candidatura deu projecção a nível nacional ao mais que provável sucessor de Jerónimo de Sousa no cargo de secretário-geral do PCP. Tenha o resultado que tiver no domingo, este desafio já foi vencido. E para ele, no fundo, era isso que contava.

 

José Manuel Coelho – A maior surpresa desta campanha. Trouxe irreverência à corrida presidencial recorrendo apenas aos seus naturais dotes oratórios e à sua vocação para a "sátira de rua", mordendo à esquerda e à direita com a saudável irreverência de uma personagem vicentina. Deixou de estar confinado ao estatuto de estraga-festas no reduto madeirense, ganhando projecção nacional. Foi o único candidato excluído dos debates. Vai receber bastantes votos de simpatia.

 

Manuel Alegre – Encarnou o papel que menos lhe convinha: o de Mário Soares na campanha anterior. Tal como Soares então, radicalizou excessivamente o discurso, procurando transformar a corrida a Belém numa espécie de ajuste de contas com Cavaco Silva. Esqueceu-se da sábia conduta que ele próprio revelou há cinco anos, quando evitou ataques pessoais e sublinhou que uma vitória de Cavaco não poria em risco a democracia. O discurso radical de esquerda, em sintonia com o BE, distanciou-o de muitos socialistas. Termina esta campanha talvez mais só do que estava em 2006.

Presidenciais (19)

 

Sobre o caso BPN, que tem dominado a campanha presidencial, havia duas abordagens possíveis. A primeira, a abordagem política, confrontando Cavaco Silva com um núcleo nada recomendável do seu vasto clube de amigos – com destaque para o inefável ex-secretário de Estado Oliveira e Costa, financiador da campanha cavaquista de 2006. Esta foi a via seguida, com desassombro e eficácia, pelo candidato comunista Francisco Lopes no frente-a-frente com Cavaco. A segunda abordagem, a tentativa de assassínio de carácter, foi feita pelo candidato Manuel Alegre de série B nesta campanha, Defensor Moura. Aludindo ao BPN de mistura com a história requentada de um pavilhão qualquer em Viana do Castelo e outra acerca da fadista Kátia Guerreiro: tudo ao molho e fé em Maquiavel, que alguma coisa havia de se agarrar à parede. Agarrou-se o pior: um “escândalo” já noticiado pelo Expresso há dois anos em que à viva força se pretendeu recriar a biografia de Aníbal Cavaco Silva, político bem conhecido dos portugueses há três décadas, apresentando-o como um sujeito dado a negócios ilícitos e favorecimentos indevidos no exercício de funções públicas.

Manuel Alegre, que devia ter seguido o trilho de Francisco Lopes, preferiu adoptar o tom e o estilo chocarreiro de Moura – o Alegre de série B, que só se candidatou para isto. Um papel que lhe serve muito mal: o candidato a Belém apoiado pelo PS e pelo Bloco de Esquerda não é vocacionado para carregar baldes de lama destinados a adversários políticos. Conheço-o, sei do que falo: nunca até hoje o vi proceder assim.

Foi mal aconselhado por quem gosta de sentir o cheiro do napalm ao amanhecer. As companhias escolhem-se – e nesta campanha Alegre não tem nenhum motivo para se gabar das que escolheu.

Presidenciais (15)

 
Assistimos nesta campanha a uma insólita simetria à das legislativas de 2009, quando um Sócrates recém-derrotado nas eleições europeias foi questionado quase exclusivamente não pela sua política desastrosa nem pelo incumprimento das promessas de 2005 mas pelo seu carácter. O PSD, com Pacheco Pereira a dar a táctica, andou enredado nisto até lhe cair em cima uma estrondosa derrota eleitoral da qual ainda hoje não recuperou. Estou à vontade para escrever estas linhas pois insurgi-me com clareza contra essa estratégia numa altura em que muitos pensavam que podia ter êxito.
Desta vez os papéis invertem-se e é Cavaco Silva que vê agora o seu carácter posto em xeque por alguns dos rivais nesta campanha presidencial. Convenhamos: há muito que criticar no recandidato apoiado pelo PSD e pelo CDS. Mas, estranhamente, em vez de Cavaco estar a ser alvo de justificadas críticas políticas pelo seu mandato de cinco anos em Belém ei-lo a ser alvo de ataques de carácter, exactamente como sucedeu a Sócrates em 2009, pondo em causa um facto da sua vida privada numa fase em que não desempenhava qualquer cargo público.
Apetece-me fazer minhas as palavras proferidas ontem por António Vitorino na SIC Notícias: "este tema ocupa um peso desproporcionado" na campanha eleitoral em curso. E acrescento: não custa vaticinar que uma campanha deste género terá o mesmo sucesso do que teve a do PSD em 2009. Algo estranho é ver que alguns dos que então mais se destacaram na denúncia dos 'assassinatos de carácter' estejam hoje na primeira fila desta modalidade nada desportiva que só consegue afastar os portugueses ainda mais da política e os eleitores das urnas.
Entretanto lamento muito ver Manuel Alegre, em 2011, desempenhar o papel que Basílio Horta teve na campanha presidencial de 1991. A maioria das pessoas tem memória curta. Mas eu não: lembro-me bem como essa campanha terminou.

Presidenciais (11)

Parte dos desempregados e pensionistas perdem isenção de taxas moderadoras na saúde - medida que abrangerá igualmente os cônjuges dos reformados com pensões de reforma inferiores ao valor do salário mínimo nacional, até agora isentos daquelas taxas. Pensionistas e desempregados vão passar também a pagar o transporte de ambulância. Tudo isto, como é evidente, agravará ainda mais os efeitos da crise nas bolsas dos mais desfavorecidos. Uma decisão do Governo tomada apenas a três semanas das presidenciais, para facilitar a vida ao recandidato Cavaco Silva contra o candidato oficialmente apoiado pelo PS. Bem pode Manuel Alegre, justamente indignado com esta acção interna de sabotagem à sua campanha, clamar contra a inconstitucionalidade da medida - um claro ataque ao 'estado social' por parte do Executivo socialista. Cavaco, reconfortado pelas sondagens e pelo esforço desenfreado do Governo em divorciar-se ainda mais dos portugueses, só tem motivos para sorrir. E para agradecer a José Sócrates.

Presidenciais (10)

 

 

Debate Cavaco Silva-Manuel Alegre

 

Um Cavaco Silva surpreendentemente ao ataque, um Manuel Alegre excessivamente contido. Esta pode ser uma síntese daquele que foi - de longe - o melhor debate desta pré-campanha, há pouco transmitido pela RTP. Um debate que Cavaco conseguiu levar para o terreno que mais lhe interessava, o da estabilidade institucional como arma defensiva perante a actual crise económica, enquanto se mostrava muito agastado perante críticas antigas do seu antagonista, que o acusou de pretender destruir o estado social. Alegre pareceu perplexo com a táctica de Cavaco e perdeu preciosos minutos do frente-a-frente procurando justificar aquelas declarações, proferidas num tom que raras vezes associamos ao actual Presidente da República.

"Manuel Alegre acusou-me pelo menos 50 vezes de eu destruir o estado social. É uma afirmação falsa. Ele andou a enganar os portugueses", afirmou Cavaco, entrando ao ataque no estúdio da estação pública. Alegre tentou contra-atacar, mas o primeiro tema que lhe veio à mente não terá sido dos mais eficazes: "Eu teria dado uma resposta imediata à humilhação que o Presidente checo fez a Portugal na presença do Presidente da República [Cavaco Silva]. Foi uma situação embaraçosa. O Presidente da República devia ter respondido imediatamente."

O tiro fez ricochete. "Eu não actuarei, no domínio da representação externa, como sugere o candidato Manuel Alegre. Um Presidente que se metesse num avião para bater à porta da senhora Merkel ou de Sarkozy era um desprestígio para Portugal. Não nos levavam a sério. A política externa não se faz aos gritos na praça pública", retorquiu Cavaco Silva.

Houve divergências claras entre os candidatos em quase todos os domínios. Alegre acusou Cavaco de ter falhado a anunciada "cooperação estratégica" com o Governo. O candidato apoiado pelo PSD e pelo CDS deu uma rápida volta à questão, não hesitando em colar-se ao Executivo socialista - aliás confirmando o que foi o essencial do seu percurso em Belém nos últimos cinco anos: "O Governo está a tomar medidas [contra a crise]. A prova disso é que aprovou um Orçamento do Estado, que prevê a redução do défice para 4,6% e está a colocar as finanças públicas numa situação sustentada" Deu-se aliás esta coisa espantosa: ouvir-se um Cavaco mais próximo de José Sócrates do que o seu antagonista. De resto, Alegre deixou claro: "Eu não me candidato para defender este Governo."

A minha maior perplexidade ocorreu, no entanto, quando Alegre trouxe para o debate a questão das alegadas escutas telefónicas do Governo no Palácio de Belém suscitada por colaboradores muito próximos de Cavaco no Verão de 2009 - aquele que foi, sem qualquer dúvida, o pior momento do mandato do actual Chefe do Estado. "Este caso pôs em causa a lealdade institucional", acusou o socialista. Cavaco fez como costuma quando uma questão o incomoda: não respondeu. Estranhamente, Alegre não deu sequência ao assunto, que morreu ali. Ele próprio, aliás, também ficou sem resposta quando a moderadora, Judite Sousa, lhe pediu uma apreciação sobre o Orçamento do Estado para 2011.

Houve alguma proposta original neste debate? Sim. E veio da boca de Alegre. Se for eleito, o candidato apoiado pelo PS e pelo BE convocará uns Estados Gerais da Justiça. "Para uma reflexão muito profunda sobre a justiça" em Portugal. Cavaco, por seu lado, fez uma revelação ao confessar ter manifestado "muitas dúvidas" sobre o decreto que nacionalizou o BPN, em 2008, e sobre a competência da actual administração deste banco. Alegre não chegou a incomodá-lo muito neste tema apesar de ter estado bem ao alertar para as situações de "promiscuidade entre política e negócios" e ao apontar sem rodeios que figuras como Dias Loureiro e Oliveira Costa "nasceram politicamente com Cavaco Silva".

Manuel Aegre precisava mais de uma vitória clara neste debate do que Cavaco. Para contrariar a convicção dominante - indiciada por todas as sondagens - que as presidenciais ficarão decididas logo à primeira volta, tal como aconteceu há cinco anos. Esse objectivo não foi conseguido. Por um motivo muito simples: Cavaco preparou-se melhor do que o socialista. Em política, estas coisas contam.

 

Vencedor: Cavaco Silva

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Frases do debate:

 

Alegre - Tenho uma visão mais aberta, mais tolerante e mais progressista em relação a determinados valores. A lei da interrupção voluntária da gravidez, a lei da paridade e a lei do divórcio, entre outras, representaram avanços civilizacionais.

Cavaco - Portugal depende muito do estrangeiro.

Alegre - Em política não há inevitáveis. Devemos resolver os nossos problemas com as nossas próprias forças.

Cavaco - Pode-nos faltar dinheiro para muita coisa. Mas não pode faltar dinheiro para situações de emergência social.

Alegre - [Oliveira Costa e Dias Loureiro] nasceram politicamente com Cavaco Silva.

Cavaco - Lamento que o candidato Manuel Alegre alimente uma campanha de insinuações e de intrigas.

Alegre - Não estou a insinuar coisíssima nenhuma. (...) Cavaco Silva confunde crítica política com insulto.

Cavaco - Este não é um tempo de fazer experiências, não é um tempo de aventuras. (...) Precisamos de soluções de segurança.

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A 'gaffe':

 

"O BPN já custou cinco mil milhões de contos."

Manuel Alegre, confundindo euros com escudos

Presidenciais (6)

 

  

Debate Fernando Nobre-Manuel Alegre

 

Manuel Alegre tem uma notória dificuldade nesta campanha presidencial: os valores da "cidadania" que lhe serviram de bandeira na corrida a Belém de 2006 estão a ser hoje levantados pelo candidato que notoriamente mais o irrita. Fernando Nobre, que Alegre defrontou esta noite pela primeira vez, num frente-a-frente na TVI, faz lembrar muito o Alegre de há cinco anos: procura captar votos em vários terrenos ideológicos, proclama aos quatro ventos a "independência" como valor político supremo e assume um discurso antipoder que entra como faca em manteiga num país que vive a maior crise económica dos últimos 30 anos.

Alegre é político profissional desde 1974. Mas hoje Nobre - o amador - ultrapassou-o em profissionalismo na forma como arquitectou o debate, sem dúvida o mais interessante de todos quantos ocorreram nesta campanha. Foi contundente sem se tornar impertinente, roubou a Alegre o habitual discurso em defesa dos mais desfavorecidos e teve ainda a subtileza de citar perante o poeta que se orgulha de ter cátedra em Parma dois outros grande vultos da nossa poesia, Sophia e Torga.

"Tenho dificuldade em entender Manuel Alegre. Em 2006, dizia que Francisco Louçã é um Cavaco do avesso. Em 2007, dizia que o Governo do PS estava a destruir o estado social." Frases de Nobre, que obrigaram Alegre a abandonar a atitude de bonomia com que se apresentou em estúdio: "Não gosto de pessoas que se apresentam com uma pretensa superioridade moral." Ambos invocaram - significativamente - o nome de Mário Soares. Nobre caiu no erro de recordar novamente que testemunhou a tragédia de Beirute em 1982: as repetições soam mal nestes debates. Melhor andou Alegre ao deixar um rasgado elogio à "excelente prestação" de Francisco Lopes, que na véspera vencera Cavaco Silva num debate igualmente moderado por Constança Cunha e Sá na TVI. O candidato apoiado pelo PS e pelo Bloco de Esquerda não ignora que podem fazer-lhe falta os votos comunistas.

O poeta orgulha-se de conciliar hoje apoiantes do Governo e da oposição: "É bom conseguir unir dois partidos que parecem inconciliáveis." E advertiu o seu antagonista: "Ninguém é proprietário da cidadania." Mas foi ambíguo em questões como o apoio à recente greve geral e em momento algum do debate pareceu o Alegre dos melhores tempos - aquele que enfrentou com eficácia Mário Soares no decisivo frente-a-frente da campanha eleitoral anterior, por exemplo. Nobre mostrou-se superior ao dirigir-se a segmentos muito significativos do eleitorado que vão sofrer os efeitos do Orçamento do Estado. "Não há maior falência da nossa democracia do que a fome instalada entre nós, do que a pobreza, do que haver 300 mil idosos com reformas inferiores a 300 euros", sublinhou.

Há cinco anos, seria Alegre a dizer isto. Nobre é o Alegre de 2011.

 

Vencedor: Fernando Nobre

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Frases do debate:

 

Alegre - Ninguém tem o monopólio da cidadania.

Nobre - Não sou pessoa para me deixar condicionar ou empurrar seja por quem for.

Alegre - Não misturemos uma candidatura presidencial com percursos de vida.

Nobre - Há cinco anos [Alegre] candidatou-se contra o candidato do seu partido. São estas incoerências que tenho dificuldade em entender.

Alegre - Conhece mal essa história. É estranho. [Nobre] parece que é mais do PS do que os próprios dirigentes do PS.

Nobre - Sou apenas dono do meu voto. Sou casado há mais de duas décadas e nem sei em quem vota a minha mulher. O voto é livre e secreto.

Alegre - Fernando Nobre entrou no sistema. É candidato, é político. Penso que não está aqui para derrubar o sistema. (...) É muito perigoso fazer o discurso antipartidos.

Nobre - Perigoso para a democracia é termos chegado à situação social a que chegámos.

Alegre- [Nobre] não tem o exclusivo da preocupação.

Nobre - Manuel Alegre sabe quanto custa um litro de leite? Sabe quanto custa um pão? Sabe quanto custa um ticket da Carris em Lisboa?

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A 'gaffe':

 

"Vasco Gonçalves contribuiu para a construção da nossa democracia."

Fernando Nobre