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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

A importância de ter memória

Sem exercício de memória não há bom jornalismo. Tive pena, por isso, que metade da mais recente emissão do programa Quadratura do Círculo, da SIC Notícias, tenha sido passada a comentar a exclusão do deputado Pacheco Pereira das listas eleitorais do PSD sem ninguém lhe ter lembrado que o agora excluído foi por sua vez um dos mais notórios apoiantes da exclusão do actual presidente e do actual secretário-geral do partido das listas sociais-democratas às legislativas de 2009. Com a diferença assinalável, nas duas situações, de que Pedro Passos Coelho e Miguel Relvas haviam sido propostos pelas estruturas distritais a que pertencem e mesmo assim a direcção do partido manteve o anátema. Com o aplauso prolongado de Pacheco, que na altura não teve a menor dúvida em encabeçar o distrito de Santarém, assumindo o lugar para o qual a distrital havia indicado o nome de Relvas. Agora, tanto quanto se sabe, nenhuma distrital laranja sugeriu o nome de Pacheco. E seria de uma lata sem limites o comentador da Quadratura do Círculo esperar figurar nas listas de deputados pela quota do presidente - logo ele, que tantas vezes teorizou sobre a necessidade de sintonia política entre a liderança do partido e os candidatos ao hemiciclo de São Bento.

A política dá muitas voltas: em menos de dois anos, este entusiasta da exclusão de Passos é agora excluído - e, a escassos dias das legislativas, o assunto dá pano para mangas num programa em que se gastou mais tempo a fustigar a oposição do que o Governo. Pacheco, que numa emissão anterior da Quadratura defendeu a peregrina tese de que José Sócrates devia manter-se em funções até 2013, também nesta matéria foi poupado à maçada do contraditório. É cada vez mais macio, este jornalismo que deixa os políticos perorar em palco sem sombra de réplica. E afinal de contas não custava nada perguntar-lhe que espúria interpretação do interesse nacional podia levar alguém que se proclama da oposição a ansiar tanto por mais dois anos de mandato do primeiro-ministro com pior folha de serviço da democracia portuguesa.

Comprei o JN e levei o Acção Socialista…

 

 

O Jornal de Notícias é uma Instituição da cidade do Porto e do Norte. Em 2005 conseguia vender em banca mais de 120 mil exemplares e era o líder incontestado da imprensa diária em Portugal. Hoje, além de ter perdido a liderança dos diários (com estrondo) para o Correio da Manhã, com sorte lá consegue vender pouco mais de 70 mil exemplares.

 

O Jornal de Notícias, desde que está nas mãos de Joaquim Oliveira, deixou de ser um diário de referência. Aliás, o Jornal de Notícias sempre foi conhecido, até essa altura, por ser um diário próximo das populações, com uma forte componente noticiosa do que se passava na sociedade portuguesa e sem se meter muito na política. Aliás, todos sabiam que para estar a par do que se passava na política: o Público; para saber o que se passava no país real: o JN.

 

Eu sei que existem 300 milhões de razões para a capa de hoje do JN. Eu entendo que o director interino do JN tenha 300 milhões de razões para comentar como comentou no DN de hoje o debate de ontem. Eu entendo as razões suíças e a ordem de grandeza 300 milhões para o que se passou. Não sei se o título de hoje do JN e as linhas escritas pelo seu director interino no DN tenham sido escritas no DOP do meu querido amigo Rui Paula entre 300 milhões de chamadas telefónicas.

 

Quando o Emídio Rangel, em estado de choque, afirma na televisão que ficou surpreendido com a prestação de Passos Coelho; quando o insuspeito Miguel Sousa Tavares afirma, na televisão, que Passos Coelho esmagou Sócrates; quando todos os comentadores se dividiram entre o empate (os mais próximos de Sócrates) e a vitória de Passos Coelho (os mais próximos de PPC e os vários independentes), o director interino do JN, Manuel Tavares (ex-director do Jogo), escreve no DN que Sócrates ganhou e coloca um título absolutamente surpreendente, para não dizer abjecto e abaixo de cão*, no Jornal de Notícias:

 

 

 

 

Nem Paulo Baldaia, antigo assessor socialista e actual director da TSF, teve coragem para tanto! Até os Abrantes coraram de vergonha ao ver a capa do JN de hoje e lá para os seus botões pensaram: “não havia necessidade”.

 

O problema, grave, é que no JN existem profissionais de comunicação social dos melhores de Portugal. Homens e mulheres dedicados à sua profissão, que dão tudo pelo seu Jornal de Notícias e que não merecem este tipo de gestão “voz do dono” que continua, infelizmente, a pautar o quotidiano do Jornal de Notícias. Só eu sei o que muitos, mesmo muitos deles, se queixam do rumo que o JN tomou desde que passou para as mãos de Joaquim Oliveira, ele que percebe tanto de comunicação social como eu de plantação de batatas – pelo menos sei o que é uma batata, o que já não é mau.

 

A capa de hoje do JN foi mais papista que o Papa e ficará, provavelmente, para a fantástica história do Jornal de Notícias como o dia mais negro da sua história. Por dizer mal de Passos Coelho e tecer loas a Sócrates? Não! Por ser um frete do tamanho da Torre dos Clérigos. Por se ter transformado numa edição encapotada do Acção Socialista. Por ser um exemplo do que não é nem pode nunca ser o jornalismo: mera “voz do dono”.

 

O Jornal de Notícias, repito, é uma Instituição, assim com letra grande, da minha cidade e da minha Região. O que se espera dele é um mínimo de isenção e a devida independência. O que se espera dele é que seja um verdadeiro jornal ao serviço dos seus leitores e não, como é, ao serviço dos 300 milhões de interesses de quem, em má hora e não percebendo nada de comunicação social, o adquiriu pensando que estava a comprar um pedaço de publicidade estática num qualquer campo pelado do Portugal profundo.

 

Eu hoje tive vergonha. Pensava que o tempo das toupeiras tinha terminado…

 

 

 

 

*Ó Abrantes,  o título é que é abjecto e abaixo de cão. Calma, não percas a esperança...

O fumo que esconde os factos

Não gosto da palavra, mas concordo com o que escreve Henrique Raposo. Nesta pré-campanha, os media estão a ser cúmplices na tentativa de centrar as discussões em pormenores da espuma política. Mas a culpa não é só do "jornalismo" ou de qualquer impreparação dos "jornalistas".

Há algo de errado na sociedade portuguesa, um elemento difícil de definir, mas que me parece ser a incapacidade doentia de encarar a realidade.

A crise económica é, de facto, profunda, e será prolongada como nenhuma antes foi. Não há memória de dez anos de estagnação, seguidos de (vão ser três?) anos de empobrecimento acentuado. A inflação está nos 4% e os salários baixam, o desemprego atingirá em breve 800 mil pessoas. O sistema judicial é um pesadelo, a dívida pública duplicou em seis anos, o fosso entre ricos e pobres aumentou de forma brutal (basta ver a evolução das diferenças salariais dentro das mesmas empresas). Nos bairros mais miseráveis a vida começa a ser insustentável.

Portugal é hoje um país exangue, transformado num protectorado da União Europeia; um país sem expressão, que um anónimo comissário pode tratar com sobranceria; um país de espinha quebrada, que respira de alívio porque o parlamento finlandês decidiu deitar uma moedinha na sua mão estendida. 

 

Podemos perguntar: mas na comunicação social não se fala destas coisas? Sim, claro que se mencionam estes temas. E as pessoas mudam para a novela. Há uma anestesia geral na opinião pública e o jornalismo não é apenas uma causa do alheamento, mas também um sintoma.

O que não desculpa a complacência. E um exemplo desta têm sido os debates sobre os debates, que duram mais tempo de antena do que os debates. Os analistas discorrem sobre a gestualidade dos candidatos, a sua capacidade de comunicar, depois criticam as posições políticas dos candidatos (ele não pensa como eu), explicam a doutrina correcta e, no final, concluem que Sócrates esteve muito bem, convincente, firme, e que os seus adversários estiveram péssimos. A ideia é retirar impacto, dificultar a escolha, diluir a impressão real que o eleitor possa ter tido no jogo a sério. As análises não têm sido jornalísticas e desinteressadas. Um debate pode ser dissecado de forma objectiva, tentando perceber a estratégia e se os objectivos foram atingidos (como o Pedro Correia tem feito neste blogue), mas o que tenho visto nas televisões roça o incrível, havendo até comentadores que colocam na boca dos candidatos opiniões que estes não têm. Há uma assustadora falta de rigor.

 

Esta pré-campanha está a ser particularmente mistificadora. Os propagandistas têm feito enorme esforço para prolongar as conversas da treta. Não convém falar da realidade. O caso da taxa social única ilustra bem os equívocos e a tentativa geral de enganar os eleitores: quem for para o poder terá de baixar essa taxa paga pelos empregadores, pois a isso obriga um compromisso assinado pelos três partidos que podem governar o país. E, no entanto, só um partido, o PSD, assume o compromisso assinado. Apesar de o primeiro-ministro ter sido confrontado com uma óbvia mentira sobre a taxa social única, no debate com Francisco Louçã, durante um dia a comunicação social chutou para canto e discutiu se Louçã citara no debate uma carta ou um memorando (o que não alterava em nada a mentira). Num país a sério, José Sócrates teria perdido ali as eleições.

 

O próximo governo terá de tomar muitas decisões semelhantes à da taxa social única, todas elas impopulares. Mas, por outro lado, é difícil falar verdade; por exemplo, admitir que se vai mexer na lei das rendas, impôr regras aos juízes e aos professores; que haverá menos direitos sociais e que o despedimento será mais fácil. Que acabou a festa (duas equipas na final de uma taça europeia) e muitas empresas acabarão por ser vendidas a capitais estrangeiros.

Cada vez que um político contar a verdade, o seu adversário fará uma berrata para lhe ganhar votos, sabendo que se for ele o eleito terá de fazer exactamente o mesmo. E o excesso de sinceridade sai penalizado pela simples razão de muitos eleitores ainda não estarem a perceber exactamente o que lhes caiu em cima.

Os comentadores servem para acentuar as nuvens de fumo em torno dos factos. Isto é tudo um bocadinho como o Feiticeiro de Oz, uma manipulação sofisticada que cria um mundo de fantasia a cores, pelo menos durante mais um tempo, até ao dia em que poderemos regressar ao preto e branco da nossa pequena depressão.   

 

'Rei' Larry: uma lição de vida

 

Tive o privilégio de assistir a uma magistral lição de jornalismo, pronunciada por um dos maiores especialistas da matéria: Larry King, brindado com uma prolongada ovação em pé ao fim da manhã de hoje no Centro de Congressos do Estoril, onde foi o principal orador do dia. O mais célebre entrevistador do planeta, que durante um quarto de século foi o rosto mais conhecido da CNN, mostrou-se igual a si próprio: divertiu-se e divertiu o auditório, comoveu-se e comoveu a plateia neste segundo dia das Conferências do Estoril. Mal chegou, tirou o casaco. "Now I'm feeling at home", declarou, entre risos, enquanto exibia os suspensórios que se tornaram uma das suas imagens de marca. À conversa com Mário Crespo e diversos outros participantes, deixou algumas mensagens que merecem registo. Desde logo, esta: "Nunca sabemos tudo. Só sabemos um bocadinho. Aprendo coisas novas todos os dias." Ele, que deu os primeiros passos no jornalismo em 1957, ainda hoje não entende em pormenor "como se faz a radiotransmissão em apenas um segundo" das suas palavras por todo o mundo.

Larry King trouxe ao Estoril outras mensagens importantes. Esta, por exemplo: "Ninguém aprende nada enquanto está a falar." Nada mais certo. E também esta: "Nunca utilizo o termo eu numa entrevista." Mensagens que bem merecem ser meditadas num país em que tantos narcisos medíocres peroram durante horas a fio à frente dos microfones sem terem verdadeiramente nada a comunicar.

Um momento emocionante? Aquela emissão em que reuniu Yasser Arafat, o rei Hussein da Jordânia e o primeiro-ministro de Israel para discutirem o futuro do Médio Oriente. "Foi um momento de diplomacia internacional", confessa este veterano de 50 mil entrevistas, que mesmo após a retirada dos ecrãs, em Dezembro passado, continua a confessar uma paixão sem limites pela comunicação. "Nunca me aconteceu ficar sem perguntas por fazer´. Quando não há outra, é sempre possível perguntar 'porquê'? Podemos estar o dia inteiro a perguntar porquê."

Estive entre os que o aplaudiram sem reservas. Ontem escutei com gosto Howard Dean e Nouriel Roubini, hoje ouvi igualmente com atenção Francis Fukuyama. E amanhã estarei entre os que assistirão às conferências de Dominique de Villepin e Mohamed ElBaradei: bastaria a presença destas personalidades para justificar o sucesso desta segunda edição das Conferências do Estoril. Mas, para já, nenhuma me tocou tanto como Larry King, este jovem de 77 anos que continua a ser uma pessoa "de uma curiosidade sem limites" e tem como plano de vida "tornar-se a pessoa mais idosa à face da Terra".

Não foi só uma lição de jornalismo: foi também uma lição de vida, 'King' Larry.

Os inimigos da liberdade

              

 

O que há de comum entre Robert Mugabe, Hu Jintao, Mahmoud Ahmadinejad, Raúl Castro e Kim Jong-il? São todos inimigos da liberdade de imprensa. A lista completa, agora divulgada pelos Repórteres Sem Fronteiras, inclui também organizações criminosas, como a Mafia e a ETA. Vale a pena consultá-la aqui. Uma lista com 38 nomes - menos dois do que em 2010 devido à queda dos ditadores do Egipto e da Tunísia, duas das melhores notícias do ano.

Com lugar cativo na lista figura um ditador que ainda não caiu - o sírio Bachar al-Assad, responsável por 632 mortes e pelo menos três mil detenções desde que começaram os protestos populares contra o regime de Damasco, a 15 de Março. E também o ditador líbio, Muammar Kadhafi, que persiste em bombardear Misrata, cidade-mártir, surdo aos apelos à demissão feitos até por antigos aliados como o primeiro-ministro turco Recep Erdogan, agora estupefacto por ver que o tirano líbio condena o seu próprio povo a "sangue, lágrimas e opressão".

Agência Lusa no seu melhor

«Uma hora antes do início do protesto da "geração à rasca", os manifestantes eram praticamente invisíveis na maioria das cidades para onde estão convocadas manifestações.»

Notícia da Lusa, 15.03

 

«Entre mil a duas mil pessoas estão concentradas a meio da Avenida da Liberdade, à hora marcada para o início da manifestação (15.00) pelo movimento "Geração à Rasca".»

Notícia da Lusa, 15.13

 

«Milhares de pessoas estão a aderir à manifestação da "geração à rasca", num mar de gente que se concentrou na Avenida da Liberdade, em Lisboa, num ambiente festivo.»

Notícia da Lusa, 15.25

Presidenciais (26)

Ontem à noite, na RTP N, escutei dois 'analistas políticos' comentando durante longos minutos a campanha eleitoral no espaço habitual que o canal público alojado no cabo costuma reservar para este efeito. Joaquim Aguiar e Manuel Loff - os analistas a que me refiro - "debatem a actualidade política", lia-se em rodapé no ecrã.

Em lado nenhum era referido que qualquer deles é parte muito interessada no debate das presidenciais. Joaquim Aguiar integra a Comissão Política de apoio à candidatura de Cavaco Silva. Manuel Loff é apresentado, na página do PCP na Net, como um dos apoiantes de primeira hora do candidato presidencial Francisco Lopes. Acontece que naquele momento, perante os telespectadores, nenhum deles foi identificado - ao contrário do que as boas normas exigiriam - como comentador alinhado. Sugerir  que possam ser analistas isentos em plena campanha oficial para as presidenciais, a cinco dias do voto, é servir gato por lebre - facto ainda mais lamentável por ocorrer num canal público. 

 

Amanhã e depois: balanço da campanha

Presidenciais (24)

 

 

Há cinco anos, todos os cenários jornalísticos estavam montados para uma bipolarização nas eleições presidenciais. Para muitos comentadores e vários jornalistas que tomavam decisões editoriais, apenas dois candidatos contavam: Cavaco Silva e Mário Soares. Esta é a lógica do sistema: raciocinar em dicotomia simples. Ou simplista. Um cenário que envolva mais que duas opções faz confusão a muita gente. Porque, tal como nas brincadeiras de crianças, é sempre mais fácil catalogar os políticos em duas categorias: os bons e os maus. Índios e cobóis, polícias e ladrões. Os bons são os nossos, os maus são os deles.

Nem o melhor jornalismo escapa a esta lógica maniqueísta. Só isto explica que o Expresso tenha publicado uma edição de 40 páginas a uma semana das presidenciais sem mencionar numa só linha o candidato Fernando Nobre, subitamente riscado da corrida a Belém em nome de critérios “jornalísticos” semelhantes aos que levaram os apaniguados de Estaline a apagar as imagens de Trotsky das fotos da Revolução de Outubro. O mesmo maniqueísmo que levou um comentador como Daniel Oliveira (também com coluna no Expresso) a proferir quatro vezes seguidas, como se martelasse uma evidência, a frase “há dois candidatos” na última emissão do Eixo do Mal. À força de tantas vezes repetidas, certas inverdades perdem o prefixo.

Vários destes jornalistas e comentadores são os mesmos que em 2006 não conseguiram digerir o segundo lugar obtido nas urnas por Alegre, com um milhão e cento e vinte e cinco mil votos, correspondentes a 20,7% dos sufrágios. Ainda hoje devem interrogar-se: como foi possível um candidato presidencial não apoiado por qualquer partido político ter chegado tão longe?

Não aprenderam nada em cinco anos.

 

ADENDA. Clara Ferreira Alves na mesmíssima edição do Expresso: "Nunca foi tão visível o empobrecimento intelectual do jornalismo e da política." Pois.