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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

A Maior Bolha Especulativa de Sempre da Política Portuguesa Rebentou (e não foi preciso um tiro...)

 

 Fernando Nobre foi a maior bolha especulativa de sempre da política portuguesa. Foi. Hoje, depois de muitíssimo empolamento próprio e induzido, rebentou.

 

Fernando Nobre abandonou a Assembleia da República. A renúncia ao mandato de deputado foi dada a conhecer por carta enviada aos serviços da Assembleia (no Público).

 

O convite do PSD a Fernando Nobre para que este fosse cabeça de lista da maior circunscrição eleitoral do país e, ainda, "candidato a Presidente da Assembleia da República" não era racionalizável. Os resultados estão à vista: um vexame.

 

Na história da democracia portuguesa, Fernando Nobre, presidente da AMI e candidato nas últimas eleições presidenciais, foi o primeiro candidato a presidente da Assembleia da República a falhar a eleição para esse cargo (no Expresso). Isso: um vexame.

 

"É com alguma tristeza que me afasto das funções de recém-eleito deputado, mas estou certo e ciente de que serei, como já referi, mais útil aos portugueses, a Portugal e ao mundo na ação cívica e humanitária que constitui a minha marca identitária", refere na carta de renúncia ao mandato do lugar de deputado (idem, bold meu).

 

Tanta megalomania... E ainda vem insistir na "marca identitária" e sugerir que é um não-político... depois de já tanta participação política. Político mal sucedido, provavelmente; não-político é que nem pensar!

 

Como escrevi, [s]ó tenho muita pena que esta bolha vá acabar por estourar no parlamento português e, ainda por cima, nas mãos do PSD (aqui). Mas, de facto, também sinto pena de Fernando Nobre: um homem com um currículo bom, por causa destas aventuras políticas, todas elas fúteis e inúteis e irracionalizáveis, acabou por provocar a deterioração do seu próprio prestígio, que era merecido, e da sua imagem.

 

Política, megalomania e ingenuidade, todas juntas, só poderiam levar a este fim.

Um desfecho previsível.

Logo na altura em que Fernando Nobre declarou que não ficaria no Parlamento se não fosse eleito Presidente, escrevi aqui que a única atitude correcta que Passos Coelho poderia ter era retirar-lhe imediatamente o convite. Efectivamente, era evidente que, depois dessas declarações, Nobre nunca iria conseguir ser eleito e a sua candidatura acabaria por ser prejudicial para o próprio e para o PSD. A estratégia seguida foi diferente, tendo aparecido vários responsáveis a desvalorizar o sentido das suas declarações e o próprio Fernando Nobre procurou atenuá-las. Os estragos, porém, já tinham sido realizados e o resultado final era inevitável. Como era previsível que Nobre a seguir renunciasse imediatamente ao mandato, como prometeu, e acabou por concretizar hoje. Como ele próprio salientou, é "mais útil aos portugueses, a Portugal e ao mundo, na acção cívica e humanitária". Só é pena que não tenha percebido isso antes de aceitar ser cabeça de lista pelo PSD no maior círculo nacional. Embora eu ache que foram muito poucos os eleitores de Lisboa que votaram no PSD por causa de Fernando Nobre, aqueles que o fizeram têm o justo direito de se sentir desiludidos. Não com Fernando Nobre, que desde o início assumiu o que iria fazer, mas sim com um partido que permitiu que ele se candidatasse para só estar presente em duas sessões no Parlamento.

 

 

 

O Casamento

Uma coligação política é assim uma espécie de casamento. Para o bom e para o mau.

 

O CDS não gosta de Fernando Nobre. Está no seu direito. Eu também não apoiei Fernando Nobre nas presidenciais.

Até posso ter algumas reticências quanto à escolha. Posso. Mas estes não são tempos para limpar armas. O CDS e alguns, poucos, deputados do PSD não perceberam. A sorte deles (e nossa) é que o país está de tal forma que este é o menor dos nossos problemas. Agora.

 

Mas fica para memória futura.

O falhanço da eleição de Fernando Nobre

Conforme várias vezes escrevi nestre blogue, a candidatura de Fernando Nobre pelo PSD era um erro político colossal. Conforme se viu pela comparação dos resultados do distrito de Lisboa com o total nacional, Fernando Nobre não trouxe um único voto ao PSD e provavelmente até fez perder alguns votos em Lisboa. E era um erro ainda maior apresentá-lo desde o início como candidato a Presidente do Parlamento. Era evidente a falta de perfil político de Nobre para o cargo e sabendo-se que a votação era feita por escrutínio secreto dos deputados, era muito provável que Nobre não fosse eleito, conforme se verificou. Nobre nem sequer conseguiu ter os votos de todos os deputados do PSD. E esse resultado é péssimo, porque vem estragar completamente algum estado de graça que tinha sido conseguido depois das boas escolhas efectuadas para o Governo e a rapidez com que foi constituído.
O que também é fonte de perplexidade é que o PSD e o CDS não se tenham entendido para apresentar um nome consensual para o cargo. É evidente que o cargo de Presidente da Assembleia é fundamental para o bom funcionamento da coligação. Historicamente o colapso da AD começou a evidenciar-se em 1981 precisamente pelas dificuldades que Oliveira Dias teve em ser eleito Presidente da Assembleia da República à primeira volta. Deveria ter-se evitado a repetição dessa experiência histórica, tanto mais que as declarações desastradas de Nobre sobre a sua renúncia ao cargo, caso não fosse eleito Presidente da Assembleia da República, indiciava um sentimento de rejeição por parte dos restantes deputados.
Por outro lado, esta imagem de um Parlamento em que se insiste em sucessivas eleições para fazer passar um nome que os deputados sucessivalmente rejeitam é péssima numa época de crise do regime e descrédito das instituições. Fernando Nobre deveria perceber isso, cumprir a sua palavra e renunciar de imediato. 

O Super Ministro?

 

Na imprensa, os sinais sobre o futuro político de Fernando Nobre são distintos: alguns jornais avançam que o CDS continua a barrar o nome de Fernando Nobre para a Presidência da Assembleia da República; Por outro lado, outras publicações, avançam que o fundador da AMI deverá integrar o próximo governo, chefiando o super ministério que terá as pastas dos assuntos sociais e da saúde.

Sobre este tema, estranho bastante a posição de Paulo Portas. Em primeiro lugar, por insistir em barrar o nome de Fernando Nobre para a Presidência da Assembleia da República, mesmo sabendo que esta era uma promessa eleitoral do seu parceiro de coligação, que ganhou as eleições com 38,63% dos votos dos portugueses. Em segundo lugar, por se recusar a ter Fernando Nobre como presidente da A.R., mas aparentemente não se importar de o ter como colega no Conselho de Ministros. Caricato, não?

Entretanto, como votante em Fernando Nobre e ex-apoiante da sua candidatura presidencial, preferia vê-lo como Ministro da Saúde. Tendo por certo que este é o homem ideal para fazer as reformas necessárias no sector, fazendo-se valer das suas amplas provas dadas, ao nível da assistência médica e social, para acalmar a esquerda, que já por aí anda a gritar desesperadamente pela salvação do estado social, da saúde pública e do feriado de todos os santos.

Legislativas (21)

A SUBIR

 

Pedro Passos Coelho. Venceu as legislativas suplantando todos os vaticínios e contrariando até o que alguns companheiros de partido antecipavam. A sua clara vitória no frente-a-frente com José Sócrates, como aqui logo se sublinhou, foi vital para que os portugueses acreditassem nele. O seu discurso de vitória, contido e sóbrio, contribuiu ainda mais para se perceber que entrámos num novo ciclo.

 

Paulo Portas. O CDS cresceu em número de votos e número de deputados, consolidando-se em áreas urbanas como Lisboa e Setúbal. Mais importante que isso: fará parte da próxima solução governativa. Um momento alto na carreira política de Portas.

 

Jerónimo de Sousa. A CDU ganha apenas um deputado mas é a única força de esquerda que resiste nestas legislativas. E alcança sobretudo um saboroso triunfo sobre um rival de estimação: o Bloco de Esquerda. A personalidade do secretário-geral comunista desempenhou um papel importante neste resultado.

 

Debates. Não há campanha sem debates. Esteve mal, portanto, um jornal que titulava recentemente em manchete "O povo não vai em debates". Pelo contrário, nestas legislativas os debates televisivos tiveram nível, substância e uma influência determinante. Com destaque natural para aquele que opôs Sócrates a Passos Coelho. Porque o povo vai mesmo em debates.

 

Fernando Nobre. Foi uma aposta arriscada de Passos Coelho para encabeçar o distrito de Lisboa. Aposta ganha: Nobre contribuiu para reforçar a votação social-democrata no principal círculo eleitoral do País (mais cinco deputados e mais 9% dos sufrágios), onde o PSD obtém o melhor resultado desde 1991, depois de ter vencido claramente um debate televisivo na TVI 24 com o cabeça-de-lista do PS em Lisboa, Ferro Rodrigues.

 

Cavaco Silva. Estaria agora a ser alvo de todas as críticas se o PS voltasse a ganhar as legislativas. A clara derrota eleitoral dos socialistas, menos de dois anos após o anterior escrutínio, confirmou que a maioria parlamentar já não correspondia à maioria sociológica do País. A dissolução do Parlamento foi, portanto, a melhor decisão que havia a tomar.

Tiros no pé.

Tenho uma profunda admiração por António Capucho, que considero um dos militantes do PSD com mais currículo de serviço prestado à causa pública desde há mais de 30 anos. Foi Deputado à Assembleia da República, Ministro em sucessivos Governos, Deputado ao Parlamento Europeu, onde foi Vice-Presidente, Presidente de Câmara e Conselheiro de Estado. Acho que não passava pela cabeça de nenhum líder partidário convidar um militante com este currículo político para ser Vice de um independente sem currículo político algum, e que foi chamado às listas no intuito calculista de obter mais um punhado de votos, que não lhe pertencem, e que por isso não serão transferidos para o PSD. A rejeição liminar de António Capucho é um acto que só o honra e constitui a resposta adequada a tão insólito convite.

 

Devo dizer que começo a estar cansado de tantos tiros no pé, como aqueles a que temos assistido nos últimos tempos. Primeiro foi o desastrado convite a Nobre, que ameaça causar mais réplicas políticas que o terramoto no Japão. Depois foram as declarações contraditórias em torno dos telefonemas e reuniões sobre o PEC 4. Agora são também as incoerências no discurso político a que já aqui chamou a atenção o António Nogueira Leite. Entretanto com isto o PS vai somando pontos nas sondagens. Há que arrepiar caminho enquanto é tempo. O PSD tem todas as condições e mais algumas para ganhar estas eleições. Se as perder, só se pode queixar dos tiros no pé que tem insistido constantemente em dar.

Fernando Nobre é a Maior Bolha Especulativa Política de Sempre

Fruto do descontentamento popular com o sistema (a degradação total do país às mãos dos socialistas e as inúmeras hesitações e tibiezas da oposição social-democrata),

 

do pendor sebastianista do eleitorado português,

 

do populismo marialva do próprio (o tiro na cabeça e as inclinações monárquicas),

 

da apetência portuguesa pelas madres teresas (a AMI, o António Guterres, a gente boazinha),

 

fruto da sua própria vaidade, megalomania e empolamento pessoal

 

e ainda da hipocrisia da independência política (na verdade, ubiquidade política) e da mitologia da "sociedade civil"

 

- Fernando Nobre, sendo cobiçado por socialistas, bloquistas e sociais-democratas e com os seus seiscentos mil votos, o seu lugar de número um na lista de Lisboa do PSD e a sua candidatura ao segundo lugar na hierarquia do Estado, é já a maior bolha de especulação política de que há memória na democracia portuguesa.

 


Só quando chegam os primeiros dividendos é possível aferir da qualidade de um investimento. Só quando esses dividendos não chegam ou ficam àquem do esperado é que deixa de ser possível continuar a ignorar a irracionalidade desse investimento. Quando isso acontece, a bolha rebenta.

 

 

Fernando Nobre é uma bolha política que não necessitará de nenhum tiro para rebentar: o seu comportamento errático será mais que suficiente.

 

Só tenho muita pena que esta bolha vá acabar por estourar no parlamento português e, ainda por cima, nas mãos do PSD.

O nome mais cobiçado

 

Fernando Nobre tem confessadas simpatias monárquicas. Apesar disso, o republicaníssimo Mário Soares convidou-o para membro da Comissão Política e da Comissão de Honra da sua candidatura presidencial, em 2006. Apesar de ter apoiado Soares, o Bloco de Esquerda convidou-o para mandatário nacional da sua lista de candidatos ao Parlamento Europeu em 2009, liderada por Miguel Portas. Apesar de ter sido mandatário da candidatura do Bloco, o social-democrata António Capucho convidou-o no mesmo ano para membro da Comissão de Honra da sua candidatura autárquica a Cascais. Apesar de ter sido apoiante do candidato presidencial do PS em 2006, Fernando Nobre desafiou o candidato presidencial do PS em 2011, apresentando-se ele próprio a sufrágio. Com o apoio, entre muitas outras figuras, de Maria Barroso e Isabel Soares.

Monárquico, republicano, de esquerda e de direita: querem um verdadeiro independente? Aí o têm. Pedro Passos Coelho acaba de o convidar para integrar a lista eleitoral do PSD por Lisboa - e ele aceitou. Caiu o Carmo e a Trindade. Como se o percurso errático de Fernando Nobre na política tivesse começado agora. E esquecendo os actuais críticos que foi por causa dessas contradições e não apesar delas que Nobre recolheu 600 mil votos em Janeiro, correspondentes a 14% dos sufrágios nas presidenciais. Ampliando o fenómeno José Manuel Coelho também no escrutínio presidencial de há três meses: um político que se diz comunista e apesar disso foi eleito por um partido de direita para a Assembleia Legislativa Regional da Madeira, tendo recebido na candidatura a Belém votos de todos os quadrantes políticos.

Deixemo-nos de hipocrisias: na corrida aos candidatos independentes, Nobre era certamente o nome mais cobiçado. À esquerda e à direita. Socialistas e bloquistas gostariam de o ter também com eles, como já sucedeu no passado. Passos Coelho levou a melhor, os adversários políticos criticam-no. Tudo isto faz parte do jogo político e teria porventura alguma importância se o País não estivesse - como está - à beira da bancarrota.