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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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Um erro trágico

 

Como se verá em Junho, quando forem contados os votos das legislativas, José Sócrates cometeu um erro trágico ao manter-se na liderança do Partido Socialista em vez de imitar o que Rodríguez Zapatero fez em Espanha. Uma nova direcção partidária permitiria outro fôlego eleitoral ao PS - à semelhança do que o PSOE vem indiciando nas mais recentes sondagens, feitas após Zapatero ter comunicado que não se recandidataria a novo mandato - e sobretudo recolocaria os socialistas portugueses no centro do palco político português, prontos a estabelecer pontes simultâneas à esquerda e à direita. Precisamente ao contrário do que fez Sócrates, também incapaz de dialogar dentro do partido que lidera e do seu próprio Governo, como testemunha a sua ruptura com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, agora saneado das listas eleitorais socialistas. Como esta noite sublinhou Diogo Freitas do Amaral, numa notável entrevista concedida à RTP, o ainda primeiro-ministro "revela muito pouca capacidade de diálogo com a oposição" precisamente num momento de emergência nacional: a solução que emergir das urnas, a 5 de Junho, impõe uma convergência partidária que o PS é incapaz de assegurar com Sócrates. Desde logo, também como acentuou Freitas nesta entrevista bem conduzida por Fátima Campos Ferreira, porque o líder socialista "começou a viver num mundo irreal". A tal ponto - e também na opinião do ex-ministro dos Negócios Estrangeiros do primeiro Executivo Sócrates, antecessor de Luís Amado - o titular da pasta das Finanças deveria ter pedido a demissão. "Com as despesas eleitoralistas de 2009, o défice subiu de 3% para 9%, o que é imperdoável", sustenta Freitas, criticando ainda o facto de Sócrates "ter feito um cavalo de batalha" da ajuda externa, que teimou em não pedir contra a lógica mais irrefutável. E só o fez - conclui ainda Freitas - "depois de todos os partidos da oposição terem chumbado o PEC 4, da dissolução da Assembleia da República com o parecer unânime do Conselho de Estado e do manifesto público da banca portuguesa".

Tudo quanto o insuspeito Freitas do Amaral disse esta noite sobre Sócrates já foi referido diversas vezes, por vários de nós, neste blogue. São evidências que só o restrito núcleo de incondicionais do líder socialista persiste em não reconhecer. Quanto mais o PS teima em seguir acriticamente este líder que perdeu o contacto com a realidade mais o partido, no seu conjunto, se arrisca a ir ao fundo com ele. O que - neste particular momento sobretudo - constitui uma péssima notícia para Portugal.

Parte do problema, não da solução

 

1. O programa que Sócrates apresentou aos portugueses, nas legislativas de Setembro de 2009, não incluía nenhuma medida do vasto pacote de sacrifícios exigidos aos portugueses desde então. Não previa o aumento dos impostos. Nem a redução das prestações sociais. Nem o corte dos salários da função pública. Nem o congelamento das reformas. Nem a quebra do investimento público. Hoje é possível concluir, sem constrangimentos de qualquer espécie, que esse programa apresentado a sufrágio equivaleu a uma fraude eleitoral.

 

2. Há nove meses, quando o PSD - já com Pedro Passos Coelho na liderança - viabilizou o segundo PEC (que previa o aumento do IVA e do IRS, à revelia das promessas eleitorais socialistas), Sócrates assegurou: "Medidas adicionais só seriam necessárias se não estivéssemos a cumprir o objectivo orçamental. A verdade é que nós estamos a cumprir esse objectivo orçamental." O primeiro-ministro faltou à verdade: depois disso, apesar de Sócrates garantir com insistência que a execução orçamental corria bem, foi aprovado mais um programa de austeridade e há agora outro anunciado pelo Governo à Comissão Europeia, como facto consumado, à revelia do Presidente da República, da Assembleia da República, dos parceiros sociais e do próprio Conselho de Ministros, o que põe em causa o regular funcionamento das instituições.

 

3. Como todas as sondagens indicam, é notória a vontade de mudança dos eleitores portugueses, como sucedeu com os britânicos em Maio de 2010 e com os irlandeses há poucas semanas. E como sucedeu entre nós em Outubro de 1985 e em Fevereiro de 2005, quando se registaram importantes alterações do ciclo político antes de se esgotar o prazo previsto para a normal conclusão da legislatura.

 

4. José Sócrates está no poder há 2195 dias. Tempo mais que suficiente para os portugueses terem percebido que ele é parte do problema, não é parte da solução. Este é um dado de reflexão essencial sobre a actual situação política. Direi mesmo: este é o dado essencial.