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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

A grande crise global

Este artigo de agência contém pistas preciosas para tentar descodificar a realidade. O texto sugere que a actual crise transcende em muito a questão das dívidas soberanas, sendo na realidade uma crise da própria globalização e dos seus sistemas. Os mercados tornaram-se demasiado vorazes e os políticos deixaram de controlar todas as alavancas do poder, como por exemplo os fluxos financeiros ou as redes sociais onde se alimenta muito do actual descontentamento difuso. Não há vazio de poder, o que existe é uma miríade de novos actores:

 

"Many areas of the global economy have also become effectively "ungoverned space" into which a host of actors -- from criminals to international firms such as Google and Goldman Sachs to countless other individuals and groups -- have enthusiastically jumped."

 

Duas décadas de desregulação financeira tiveram grandes efeitos na economia global, com preços mais baixos de produtos de consumo, milhões de pessoas a enriquecer ou avanços em projectos políticos baseados na cooperação entre nações, como no caso da União Europeia. Mas os excessos de ganância, a irracionalidade e a falta de controlo deste sistema estão na base da crise iniciada em 2008 e que se agravou nos anos seguintes. Os problemas eram anteriores, com as deslocalizações a produzirem desemprego e a baixarem os salários, os governos a endividarem-se para estimular a economia ou por não saberem prever o que aí vinha (as guerras da década não ajudaram). Agora, quando a tempestade cresce, os políticos constatam a sua impotência e surgem exigências para maior regulação, sobretudo vindas da esquerda, que do ponto de vista ideológico foi totalmente ultrapassada. As pressões chegam de todo o lado e explicam a actual paralisia:

 

In the United States and Europe, far right groups including the Tea Party, eurosceptics and nationalist forces look to be rising, sometimes potentially blocking policy-making. On the left, calls grow for greater controls on unfettered markets and capital.

 

Os peritos citados neste artigo não acreditam na eficácia da reintrodução de mecanismos de regulação dos mercados, são cépticos em relação às possibilidades da China ficar fora da crise global e têm muitas dúvidas sobre a capacidade dos políticos de conseguirem manobrar o navio para segurança. A fragilidade política de Barack Obama no próximo ano não pode ajudar nesta situação e os europeus continuarão confrontados com os problemas que resultam da sua dependência de eleitorados muito contraditórios, cada vez menos convencidos da necessidade de aprofundar a união monetária. O resultado pode ser o afastamento gradual dos diversos blocos e a tendência para proteger os mercados nacionais.

Ao mesmo tempo surge um fenómeno de fragmentação social, bem evidente nos motins ingleses. Grupos de jovens sem perspectivas criam uma onda de violência que as autoridades têm imensa dificuldade em conter. Com os gangs à solta, vemos pilhagens e destruição insensata. A acção policial musculada não resolve o problema essencial de uma geração sem futuro (estes vândalos não estudaram e não terão empregos).

Pequeno e periférico, Portugal não está fora do mundo. A capacidade de manobra dos nossos políticos é ainda menor do que no caso das potências europeias, já que após o resgate financeiro perdemos muita da nossa soberania. Mas há menos sinais de fragmentação social e também menos intensidade nas exigências de franjas populistas. Desconhecemos fenómenos semelhantes aos indignados espanhóis, ao Tea Party americano, aos anarquistas gregos ou ainda aos vândalos britânicos. Esta é a nossa vantagem.

 

 

A tempestade

A crise financeira agrava-se em Agosto e leio este interessante artigo no Financial Times. Reparem na frequência de uso da palavra medo e até da palavra pânico. No fundo, a tese é a seguinte: os mercados temem riscos que não sabem ao certo se existem, acabando por aumentar o risco para os seus próprios investimentos. É o Catch 22. A recente cimeira europeia parecia ter resolvido a questão por alguns meses, o que daria tempo para introduzir as medidas acordadas e reduzir a pressão. Mas parece que os mercados querem desencadear um Lehman Brothers na Europa. Como já escrevi antes, a tempestade não termina enquanto os investidores não garantirem que os contribuintes do norte da Europa vão pagar cada tostão das dívidas soberanas dos países da zona euro. A questão vai agravar-se, é evidente, pois outros países serão arrastados no turbilhão. E estes ainda não estão a ver o filme de terror que os espera, iludindo-se com um breve contentamento (uau, os italianos estão pior do que nós).

Se a questão fosse só europeia, podíamos estar mais ou menos tranquilos, mas as nuvens negras acumulam-se lentamente nos céus sobre a América. Ali, os efeitos da crise estão a ser brutais. Milhões de empregos perdidos e 45 milhões de pessoas a comida subsidiada (em 2008, eram 28 milhões). Os americanos dificilmente poderão pagar a dívida que acumularam e isso terá consequências em todo o mundo. A popularidade de Barack Obama continua em queda acelerada e o actual presidente pode falhar a reeleição, o que implicará a possível vitória de um republicano que não chega lá sem algum tipo de apoio dos populistas do Tea Party.

 

A democracia está de facto a atravessar um período mau. A Espanha vota dentro de meses, mas o mercados não terão a paciência para esperar pelo veredicto popular. Os países do norte da Europa enfrentam um dilema ainda mais dramático: a preservação do euro exige mecanismos que os eleitores não estão dispostos a aceitar. Esta federalização da moeda única (eurobonds, alargamento do FEEF, ministro das finanças europeu) não só não está prevista nos tratados como não passaria em referendo. Em resumo, a tempestade só acalma quando forem tomadas decisões impossíveis, nomeadamente quando as dívidas dos países forem assumidas pelo conjunto dos parceiros. Puro suicídio político, mas nunca passaria nos parlamentos. Os mercados exigem decisões ditatoriais.

É neste ambiente de medo e pânico que teremos de viver durante anos. Alguns economistas começam a falar em dificuldades prolongadas, comparáveis às do Japão, que vai em duas décadas de estagnação económica e declínio relativo. Esta parece ser uma crise civilizacional e do próprio sistema capitalista.

Julgo que, neste contexto, Portugal está a fazer tudo bem: através de eleições, o povo tirou um Governo pouco credível e elegeu um novo Executivo, que ganha lentamente a sua credibilidade; a situação política é agora estável; as medidas que nos foram impostas estão a ser aplicadas sem ambiguidades ou hesitações e com o apoio corajoso da oposição socialista; mesmo os que não assinaram o memorando de entendimento têm sido razoáveis nas críticas; a população parece aceitar sacrifícios que até aqui eram impensáveis; não temos o fenómeno dos indignados, as excentricidades de Berlusconi ou a violência dos anarquistas gregos; o ritmo reformista é elevado e não são vendidas ilusões propagandísticas.

Infelizmente, não controlamos o ambiente externo e precisamos de tempo, paciência e sorte.

  

A Europa alemã.

 

 

O resultado da cimeira europeia de ontem pode ter sido bom para os países aflitos, mas a meu ver foi péssimo para a construção europeia, tal como tinha sido concebida pelos seus fundadores. Durão Barroso deixou-se ultrapassar completamente e o papel da Comissão Europeia ficou totalmente sacrificado ao peso do eixo franco-alemão, sendo que até uma figura apagada como Hermann Von Rompuy conseguiu ter maior protagonismo. A Comissão Europeia tem assim que se resignar a partir de agora a cumprir um papel secundário, uma vez que a componente intergovernamental passou a ser a nova configuração do poder na Europa, o qual passa a recair no seu mais poderoso Estado-Membro. Efectivamente, o que saiu claro da reunião de ontem é que presentemente quem manda na Europa é a chancelerina alemã Angela Merkel. Nos velhos tempos Henry Kissinger queixava-se de que não tinha um número de telefone para falar com a Europa. Agora os americanos já o têm. É o número de telefone da chancelaria alemã. Conforme se viu, Obama já percebeu para que número de telefone deve ligar.

 

As dúvidas de Agosto

Sem querer interferir no debate entre Ricardo VicenteVasco Campilho, um pouco mais abaixo neste blogue, julgo que a Europa enfrenta a sua hora decisiva, para mais num contexto de crise iminente também nos Estados Unidos. Este comentário no Financial Times é preocupante e deve ser lido com atenção.

Segundo as interpretações dominantes na imprensa, ainda não estamos na situação que levou aos canhões de Agosto, o esplêndido suicídio da Europa em 1914, mas há elementos semelhantes, desde a má interpretação dos factos à lentidão na reacção, passando pela cedência ao sentimento da opinião pública. Nas semanas frenéticas que levaram à Primeira Guerra Mundial, os alemães terão agido na base de um catastrófico erro de cálculo, de que o império britânico ficaria fora do conflito. Agora, a culpa será também alemã, já que Berlim minimiza a dimensão do problema e interpreta mal os sinais da realidade. 

A atitude da opinião pública em 1914, entre o patriótico e o displicente, é descrita num fabuloso romance francês, Os Thibault, de Roger Martin du Gard. O raciocínio frio dos diplomatas tornou-se impossível e os pacifistas foram depressa ultrapassados pelo tumulto da rua.

Ao ler alguns dos comentários sobre a actual crise, ocorrem-me todas estas semelhanças. Claro que desta vez não estamos a falar de uma guerra, mas apenas do que parece ser o iminente colapso de uma determinada ordem europeia.

 

Das interpretações que tenho lido sobre este verão, sobretudo em jornais económicos, surge a tese frequente de que os políticos europeus estão a avaliar mal os mercados financeiros. Jean-Claude Trichet surge nestes textos como um sábio que tenta travar a teimosia alemã da senhora Angela Merkel. Por outro lado, Silvio Berlusconi, na sua habitual inabilidade, colocou a Itália em perigo, ao gozar (literalmente) com o sábio Giulio Tremonti, o seu ministro das finanças. Berlusconi e Merkel cometeram ambos o incrível erro de cálculo de dizerem em público que devia ser a política a comandar as soluções, e não as finanças. Merkel teve uma frase também muito criticada (tendo os seus conselheiros divididos em duas metades, prefere esperar mais um pouco para escolher uma das duas vias). 

Confesso não perceber muito bem estas críticas. Merkel responde perante os eleitores alemães e o seu parlamento.  E é muito evidente que a Alemanha tem outros países a apoiarem as suas posições contra, por exemplo, os eurobonds. Este mecanismo seria óptimo para Portugal, mas claramente prejudicial para os contribuintes alemães, holandeses, austríacos, finlandeses. E aqueles que acreditam que o governo português pode ir a Bruxelas bater o pé e fazer alianças com outros endividados, parecem não perceber os mecanismos de poder na UE.

Enfim, sobretudo não entendo a razão pela qual devem ser os contribuintes europeus os únicos a pagar esta crise.

 

A tese dominante, em comentários de jornais e televisões, é a de que a Europa enfrenta um dilema entre federalização da moeda única e colapso da zona euro. As abordagens intermédias que foram ensaiadas estão condenadas ao fracasso e isso aplica-se à mais recente ideia defendida pela França e Alemanha, a de se estabelecer um acordo com bancos europeus para que estes aceitem de forma voluntária suavizar o peso da dívida grega, aceitando algum prejuízo. As agências de notação ameaçaram de imediato decretar o incumprimento da Grécia e o Banco Central Europeu recusa acompanhar financiar os bancos gregos se houver incumprimento. Em resumo, a Grécia não consegue pagar a sua dívida com as actuais taxas de juro e as agências de notação dão nota de lixo; mas se essa dívida diminuir por acordo voluntário dos credores, não há nota de lixo, mas incumprimento.

Os mercados apostam no seguinte resultado: a Grécia pagará a totalidade da dívida ou alguém por ela. A partilha da dívida entre contribuintes e instituições é intolerável. Se Atenas não conseguir pagar, então, em nome da solidariedade europeia e da defesa da moeda única, a dívida grega será assumida pelos contribuintes dos países menos endividados, por exemplo, na forma de eurobonds.

Ora, quando a senhora Merkel diz que isto não é justo, que a decisão final será política e que os bancos têm de pagar a sua quota-parte do prejuízo (quem os mandou especular com dívida soberana?), surgem textos a jurar que a Europa não tem liderança à altura do desafio, que a Alemanha está a deixar cair a Grécia, a arrastar os pés numa questão que já devia estar decidida, e que a chanceler alemã é uma ignorante que não percebe o funcionamento dos mercados.

 

Não digo que isto não seja assim. A liderança europeia não parece particularmente feliz e pode existir profunda incompreensão do funcionamento dos mercados. Da parte da opinião pública, há certamente. O que digo é que esta narrativa tem de ser questionada.

Se houver cimeira europeia na quinta-feira e sair dali um plano para salvar a Grécia, a decisão política final será testada e talvez contrariada pelos mercados, essa misteriosa entidade sem nação, com infinitos poderes e que ninguém elegeu.

Os investidores, obviamente, não querem perder dinheiro esta semana, sobretudo os que estiverem mais expostos às dívidas grega, portuguesa, irlandesa e italiana. A actual fórmula parece conveniente: os gregos podem bem sofrer uma austeridade sem saída, os portugueses e os irlandeses podem fazer sacrifícios, tudo isto é indiferente para os ditos mercados, cujo funcionamento apenas um cínico poderá considerar como irrepreensível.

As vítimas estão presas no labirinto e estes "mercados" sabem bem que os europeus do norte vão pagar a despesa do resgate e que esta terá o valor que eles inscreverem na factura. E se houver mais países para salvar, melhor. Será uma questão dos líderes europeus terem tempo para convencer as respectivas opiniões públicas de que ceder à chantagem é melhor do que perder tudo.

 

Curiosamente, nenhuma das duas opções dadas como inevitáveis parece possível. Nem a federalização nem o colapso do euro. A federalização da zona euro não passa de uma quimera. Nada disso consta nos tratados e refazer a arquitectura da UE simplesmente não é viável a curto prazo. Bastam 30 segundos de análise para perceber que países como França ou Alemanha não têm nos seus planos a obediência a um ministro das finanças europeu (eleito por 27, por 17?) que impeça uma determinada despesa aprovada pelos parlamentos. Bruxelas a explicar aos alemães como vão organizar o seu orçamento, alguém consegue imaginar o cenário? O princípio da subsidariedade completamente enterrado? E tudo feito sem consulta aos eleitores? E como se avança para uma hipótese destas sem cobrança de impostos?

[Uma nota: já começou a discussão das perspectivas financeiras entre 2014 e 2020. Adivinham-se discussões ferozes no próximo ano e os contribuintes líquidos não querem passar de 1% do PIB, nem sequer um cêntimo a mais].

O colapso da moeda única era um filme de terror. Complicações técnicas e legais, o fim do mercado único, milhões de desempregados. A saída de um ou dois países era já uma complicação intragável e um super-euro sem os cábulas também não parece viável, pois segundo os tratados é mais fácil sair da União Europeia do que sair do euro. Mantinha-se a questão: moeda única com 14 ou 15 países bons alunos teria um deles mais endividado do que os outros e, portanto, mais vulnerável. Sem as garantias dadas por instituições federais, há sempre um lanterna vermelha, por muito bom que seja o pelotão.

 

Enfim, podemos estar a assistir a um verão recheado de erros políticos que nos conduza directamente a mais um esplêndido suicídio europeu. Mas julgo que o que está em causa, por estes dias, é saber se as democracias conseguem ou não resistir à ganância e à estupidez dos mercados sem regulação. A Europa parece estar entre um lugar afiado e um lugar duro, mas não deve ceder a uma perspectiva muito pior, a de se deixar dominar pelo medo puro, pois é esse que conduz aos piores desastres.

Obedece quem deve

Eduardo Pitta escreve este texto em Da Literatura. Parece que, afinal, o actual governo já não chega à Páscoa, acaba antes do fim do ano. Substituído não se sabe bem por quem.

Eduardo Pitta esquece que foram os socialistas liderados por José Sócrates que puseram o País nesta situação e foi o anterior governo, tão elogiado pelo autor, que nos mentiu sempre. Não tenho nada contra a amnésia, sobretudo tão precoce, mas não vejo motivos para estarmos satisfeitos com a calamidade.

 

Como explicam alguns especialistas, incluindo neste blogue, a notação que foi dada a Portugal não é apenas técnica, é sobretudo política. Ela visa criar um ambiente de pressão sobre os líderes europeus, para que estes tomem a decisão mais conveniente para os investidores que pretendem ganhar biliões na aposta que fizeram da bancarrota grega. No caminho trucidam os bancos gregos, levam a população à penúria e arrastam outros países europeus, incluindo Portugal. Tanto faz para eles, o capitalismo financeiro que triunfou na civilização ocidental é mesmo assim, desmiolado e anónimo, sem rosto e sem nação. O Golem está desregulado, mas não é um problema só nosso.

Tentando um panorama mais abrangente, os factos parecem ser estes: os EUA e a Europa enfrentam uma brutal crise de endividamento, sobretudo a economia americana, cuja dívida pública compara com a portuguesa (em proporção). Por outro lado, os líderes políticos americanos e europeus não se entendem sobre as soluções para resolver os problemas internos, isto por razões diferentes. Nos EUA está a crescer o fenómeno populista (e extremamente inquietante) do chamado Tea Party, um movimento que condiciona as posições dos republicanos, impedindo a própria negociação do orçamento.

Na Europa, a questão de raiz é o erro de concepção da moeda única e o laxismo com que se permitiu o endividamento de alguns Estados membros, incluindo Portugal. As soluções são federais, o que não agrada a ninguém. O euro é obviamente um rival do dólar e há gigantescos interesses financeiros em jogo. No ambiente de crise global decorre ainda intensa competição entre moedas de vários países, num contexto multipolar e altamente instável de emergência de novas potências, sobretudo a China, que é vista com grande desconfiança pelos restantes jogadores. Portugal, nisto tudo, é a vítima que se pôs a jeito.

Existe outra interpretação, mais preocupante, segundo a qual a crise das dívidas é a ponta de um icebergue. Debaixo das águas, esconde-se um problema maior que pode levar o sistema financeiro global ao naufrágio.

 

Do ponto de vista europeu, julgo que esta crise é a mais importante da História da UE. Vai provavelmente definir se a organização sobrevive como jogador internacional. Quero dizer: o euro está verdadeiramente sob ameaça e há cenários tão diferentes como, por exemplo, a saída de cinco ou seis países da moeda única ou o seu alargamento a mais uma dúzia. Na pior das hipóteses, a moeda europeia vai desaparecer e a UE torna-se uma entidade irrelevante, pois sem uma moeda única não há mercado único e apenas iniciativas intergovernamentais limitadas. A pouco e pouco, os países europeus iam divergindo e nas nossas velhices olharíamos com nostalgia para aquele tempo em que passávamos as fronteiras sem passaporte.

O problema, a meu ver, nem é tanto a qualidade das lideranças (que não é famosa), mas a forma como os líderes europeus têm as mãos atadas. Não podem avançar para a federalização do euro, pois isso seria inaceitável para a sua opinião pública; não podem deixar cair a Grécia, pois isso seria iniciar um efeito dominó interminável, que comprometeria a solidez da própria UE.

A ameaça feita por uma agência de notação de considerar como "default selectivo" a possibilidade do sector privado aceitar ajudar no resgate grego foi uma humilhação inaceitável para os europeus e obriga os líderes a pensarem num plano mais eficaz. A passagem das medidas de austeridade no parlamento grego e a consequente aprovação do segundo pacote de ajuda dão espaço para respirar até princípio do próximo ano.

Sem margem de manobra por erros anteriores e transformado no peão involuntário de um conflito mais vasto, Portugal tem de demonstrar que é capaz de cumprir o acordo da troika e introduzir as reformas estruturais que nos são exigidas. É o que fazem os países que estão sob protecção estrangeira e que não têm verdadeira autonomia: citando Salazar, "manda quem pode, obedece quem deve"*.

 

*Esta citação está obviamente tirada do contexto original. Salazar referia-se a algo de muito diferente...

Poderes furtivos

Compreendo esta opinião de Luís Rocha, em Blasfémias. Por outro lado, escapa-me o sentido deste tipo de comentário, que sob a capa de ironia blasé insinua que o actual governo já está a fazer tudo mal. Os ressabiamentos da direita são inúteis para tentar compreender a realidade.

Mas se lermos com atenção este despacho de uma agência especializada, começamos a entender melhor o envolvimento.

Portugal não parece ter controlo sobre a sua realidade financeira, o que se comprova pela atitude de uma agência de rating de baixar a notação da dívida para classificação de lixo. Mas vejam bem a declaração de Angela Merkel, perdoem a má tradução: "É importante que a troika (UE, FMI, BCE) não deixe perder a sua capacidade de decidir". Em resumo: a chanceler alemã reconhece que as agências de rating podem mandar mais do que o conjunto formado por UE, FMI e BCE. Quem são as agências de rating? Ninguém sabe ao certo, mas parece que representam uns tais mercados financeiros que, pelos vistos, estão num pânico desenfreado. Elas associam Portugal e Grécia, aparentemente ignorando que o plano de austeridade da troika, em Portugal, tem o apoio de quatro quintos do país, estando resolvido o problema da estabilidade política, ao contrário do que acontece na Grécia.

Reparem na outra frase, de uma fonte da comissão, segundo a qual as notações das agências de rating são "self-fulfilling prophecy" ou pescadinhas de rabo-na-boca. Se eu profetizar que isto vai acontecer, a minha profecia produz o acontecimento.

Não há fuga possível: eles decidiram que vamos à falência, logo dão-nos uma nota que nos leva à falência. Fazem isso para defender os interesses dos investidores, prejudicando os investidores.

 

Mas a análise das decisões das agências de rating (e esquecendo as direitas e as esquerdas que andam todas contentes com os problemas crescentes do país) leva-nos mais longe. O plano da UE de permitir aos seus bancos que facilitem o pagamento da dívida grega, aliviando a situação do governo de Atenas (que não consegue pagar a dívida), foi recebido pelas agências de notação com ameaças de ser considerado default encapotado. A Grécia não pode pagar e não pode ter nenhum alívio no pagamento. A ajuda externa não serve, uma decisão da zona euro não serve. Do ponto de vista dos investidores, a única saída para a Grécia é sair do euro, catástrofe para a Grécia que será também catástrofe para muitos investidores. Isto é racional?

Não consigo lembrar-me de nenhum outro exemplo de humilhação colectiva dos europeus nestas proporções. É preciso, na realidade, recuar a 1956 e ao fiasco do Suez para assistir a um episódio semelhante. Só que agora não são os Estados Unidos a tirarem o tapete aos neo-colonialistas europeus, mas umas agências de notação com poder inacreditável que pretendem fazer uma gigantesca transferência de riqueza, depenar países inteiros e deixar algumas potências nucleares com as mãos atadas.

Escrevi recentemente um post que inclui uma reflexão sobre as possibilidades do futuro e que julgo valer releitura. Estes episódios da crise do capitalismo estão inseridos nessa reflexão. Em 1929, a crise foi dura e prolongou-se por uma década, mas havia sistemas alternativos, o comunismo e o fascismo, cujo desafio forçou os poderes financeiros a agirem de forma racional (arriscavam-se a perder tudo). Desta vez, a crise está a arrastar-se furtivamente, em espasmos de pânico, não havendo desafios ideológicos no horizonte. E este é um problema, pois à falta de alternativa, o capitalismo ainda parece invencível, sem o ser de todo. 

 

 

legenda da imagem: agências de rating recusam-se a apoiar plano europeu (forças da UE não conseguem sair da praia)

O artigo 22

A Grécia está a viver um pesadelo que lembra o famoso paradoxo de Catch-22, do romance homónimo de Joseph Heller. Se não cumprir a austeridade, não paga a dívida, mas não pode pagar a dívida cumprindo a austeridade.

O romance, muito divertido (comemoram-se os 50 anos da sua publicação), decorre num ambiente de Segunda Guerra Mundial, colocando o problema de um Artigo 22 do regulamento militar, segundo o qual um piloto é dado como louco se continuar a voar em missões de bombardeamento perigosas, mas se apresentar um pedido de dispensa, então é porque se encontra são e perfeitamente capaz de voar. Não existe fuga possível ao enunciado.

A cimeira europeia de hoje, com os seus resultados magros e desanimadores, mostrou que a Europa está a cair numa lógica de artigo 22: não pode resolver os problemas do euro sem federalizar mais a moeda única, mas não pode de forma nenhuma federalizar a moeda única sem provocar a desagregação da União Europeia.

Generaliza-se entretanto em Portugal a ideia de que a Europa está a acabar, tese que acho algo estranha. A Europa suicidou-se em 1914 e o que resta dela tentou fazer uma aliança de nações que desse algum futuro a cada uma das componentes. Esta ideia ainda não perdeu o seu sentido. O que perde sentido é a visão mítica da União Europeia.

 

Mais federalismo como resposta à crise do euro é mergulhar no paradoxo. Nos Tratados (que envolveram longas negociações) não está prevista nenhuma das formulações referidas para tratar da crise, ministro das finanças europeu que não seja irrelevante como a senhora Ashton ou eurobonds que tenham por corolário um futuro imposto europeu. Estas ideias, para mais, não passam nos sistemas digestivos eleitorais. Para um eleitor alemão não faz sentido assumir as dívidas da Grécia, sobretudo se os gregos não quiserem pagar portagens ou não quiserem acabar com os seus privilégios mais jurássicos. Os pacotes de solidariedade também fazem cada vez menos sentido.

Por tudo isto, o conselho europeu chutou para canto o problema grego, sobretudo a questão central do novo pacote de ajuda depender de uma margem mínima do governo de Atenas na votação do parlamento prevista até 30 de Junho (julgo que o PASOK está com três deputados de vantagem). Se a Grécia recusar a austeridade, não receberá o novo pacote, entra em bancarrota e provavelmente terá de sair do euro, o que também não está previsto nos tratados. Há juristas que dizem que sair do euro equivale a sair da UE. Para Portugal, sobretudo devido à pressão dos mercados, este é um cenário de pesadelo. Outro artigo 22: os mercados acreditam que o país vai à falência, baixam a sua notação e levam-no à falência.

Ora, os europeus não têm tempo para mudar os Tratados (o que levaria três anos, ou mais) e estão entretidos há um ano e meio a discutir pequenas reformas intergovernamentais, tais como o semestre europeu, um conjunto de regras que permite ao Conselho Europeu, através da Comissão, vigiar as contas públicas de cada parceiro, leia-se dos pequenos parceiros. A parte difícil está nas decisões sobre formas de sanção para os prevaricadores e, claro, ninguém tem dúvidas de que isto não se aplicará aos grandes, pois não está nos tratados.

 

As consequências políticas desta crise, na Grécia, são quase imprevisíveis. Os dois maiores partidos serão duramente penalizados nas eleições seguintes. A nível europeu, o mesmo, a próxima vaga política poderá tender para o aumento dos grupos de franja, dos partidos de protesto e das formações populistas.

Neste contexto adverso, Portugal terá agora algum tempo para respirar, mas não deve manter ilusões: da Europa não virá nenhuma ajuda extraordinária.

Por exemplo: o euro devia desvalorizar para aliviar os endividados, mas isso não vai acontecer, por não ser do interesse da Alemanha. É espantoso que uma moeda à beira do colapso continue em alta face ao dólar.

Por outro lado, no último ano e meio da crise do euro, aumentou o poder dos grandes países da UE e reduziu-se o espaço de manobra dos mais pequenos. Essa tendência poderá agravar-se, assim como a tendência de certos Estados começarem a distanciar-se do núcleo central, mantendo órbitas cada vez mais afastadas em relação ao eixo Paris-Berlim. No Reino Unido, para citar um exemplo óbvio, as forças centrífugas intensificam-se.

É mais uma vez o artigo 22: para manter alguma coesão interna e evitar a catástrofe, a UE terá de parecer um sistema solar em expansão, com os planetas cada vez mais separados uns dos outros, mas a única verdadeira solução seria uma federação, com os planetas mais próximos, algo que parece cada vez mais uma miragem. 

 

Um movimento de protesto

Em Espanha, a dias das eleições regionais, estalou um movimento mobilizado pelas redes sociais (Democracia Real, Já, ou 15-M, para abreviar), que encheu as praças centrais de várias cidades com milhares de pessoas em protesto. Este movimento tem carácter populista e é no fundo muito semelhante ao seu homólogo americano, o Tea Party, embora aqui tudo esteja ao contrário na imagem do espelho, recebendo a compreensão da esquerda e a perplexidade da direita.

Nos últimos dias, o PSOE tenta fazer um despudorado aproveitamento destas manifestações e o primeiro-ministro chegou a dizer que se tivesse 25 anos se juntaria ao protesto, como se não tivesse governado a Espanha durante quase oito anos.

Tudo indica que o movimento pacífico estará activo amanhã, dia de reflexão eleitoral, no que equivale a uma verdadeira rebelião.

 

As manifestações consistem num acampamento e têm uma espécie de RGA (lembram-se, na escola, como estas funcionavam?) onde alguns dirigentes improvisados falam, sem que ninguém perceba o que se passa, para aplauso de todos, acabando por serem aprovadas "decisões" onde a massa não teve qualquer participação. Estas reuniões de massas são totalmente controladas por uma minoria muito activa que, a prazo, se fará eleger como representante de todo o protesto.

E o que está a ser aprovado? É tudo muito difuso. Os manifestantes querem impôr uma lei de participação cidadã cujos contornos não se conhecem. Dizem que os votos brancos devem ser contabilizados e que não pode haver candidatos com processos nas listas eleitorais; finalmente, a defesa de mais referendos. Alguns dirigentes dizem que não são "apolíticos, mas apartidários", e o protesto visa claramente os dois maiores partidos, sobretudo o PP, mais à direita, e que deve (devia) vencer as eleições. O argumento principal dos manifestantes é o da "indiferença perante a política".

 

Apesar de ser necessário dar o desconto das tradições anarquistas espanholas, julgo que a natureza profunda do 15-M esconde uma perigosa tendência, cada vez mais visível nas democracias ocidentais: a fragmentação populista. Quando os eleitorados começam a mudar de partido em grandes oscilações, como aconteceu na Finlândia, é tempo para as elites se preocuparem; por outro lado, a minorias activas começam a tomar como refém as organizações; é o que se passa na América, onde a chantagem exercida pela minoria do Tea Party está a impedir o normal funcionamento do Congresso. Como se o Tea Party, que ajudou apenas a eleger seis senadores republicanos e uma dezena de representantes, tivesse ganho as eleições de Novembro. Mas podia dar outros exemplos (Dinamarca, Holanda, França, Itália). A demagogia e o populismo compensam no discurso político, assim como os argumentos anti-capitalistas e a recusa da solidariedade entre países ou entre regiões ou entre classes sociais ou entre gerações. O Tea Party demoniza os europeus; os demagogos europeus fazem o inverso e demonizam a América.

 

Tudo isto, suponho, terá a ver com o medo que domina as sociedades contemporâneas: receio do cataclismo ou premonição da decadência; temor do desemprego e da penúria; pavor da queda social e da exclusão; sobretudo o fantasma do envelhecimento. Num mundo onde se glorifica a juventude, um certo tipo de beleza, onde se combate a cultura e se despreza a inteligência, onde se procura a fama e a riqueza a qualquer preço, as pessoas parecem precisar de novas causas, que estimulem o orgulho de pertencer a algo distinto e vencedor.

É por isso que esta crise, lenta como o esboroar da pedra, é tão diferente da dos anos 30. Então, existiam ideologias rivais, o comunismo e o fascismo. Era um mundo mais nítido. Agora, após a morte das ideologias, num mundo onde os valores são egoístas, é difícil manter a lucidez.  

 

Para mais, a comunicação social (e agora as redes sociais) amplificam estes movimentos de protesto difuso. As redes sociais podem ser úteis para uma democracia, mas também facilitam o populismo. Elas tendem para o vazio de conteúdo e as televisões são hoje dominadas pela ditadura das audiências. Os próprios partidos democráticos já conduzem as suas estratégias levando em conta as sondagens. Não falar disto, não dizer a verdade toda, evitar o tema fracturante que nos faz perder votos. O marketing moderno é a busca daquele imenso território do mínimo denominador comum.

Por tudo isto, acho que os movimentos populistas ao estilo do 15-M estão condenados a crescer e multiplicar-se. A democracia que conhecemos será combatida sobretudo desta forma, a partir do incómodo geral que os povos sentem, uma espécie de comichão superficial que alimenta a sua ansiedade. É ao mesmo tempo contestação das elites e aceitação de uma ordem mais inflexível e menos liberal. As minorias vão impor as suas visões estreitas em referendos, cujas discussões favorecem os que gritam mais alto. Haverá mais proporcionalidade nos votos e, por isso, maior fragmentação de partidos, com instabilidade governativa, liberdade para os grupos de pressão ganharem influência, divisões mais óbvias e profundas entre as pessoas. Os sinais da radicalização do nosso tempo e da doença democrática estão em Madrid. 

A tirania transcarpática

Há um fenómeno muito interessante (e perigoso) na comunicação social, a propagação de mitos.

Num filme de John Ford, o Homem que Matou Liberty Valance, há uma frase lapidar que resume o problema: um senador cuja carreira política se iniciou após ter morto um rufião chamado Liberty Valance conta a um jornalista, muitos anos depois, a verdadeira história do episódio. No final, o jornalista lamenta não poder publicar uma linha: "Isto é o Oeste. Quando a lenda se transforma em facto, publique-se a lenda", diz.

 

Vem isto a propósito do post de Eduardo Pitta, O Ovo da Serpente, baseado numa notícia que não passa de um bom mito dos Cárpatos. Eduardo Pitta, fiel à melhor tradição, publica a lenda.

O eurodeputado József Szájer, representante do partido conservador húngaro Fidesz, apresentou de facto uma proposta para dar um voto adicional a mães de crianças. Isto surgiu no âmbito de uma discussão complicadíssima sobre a demografia e passou para a discussão (breve) sobre a nova Constituição húngara. No entanto, a proposta foi rejeitada e não consta do texto. A Constituição aprovada até clarificou a questão, tendo um artigo onde estipula que cada cidadão vale um voto. Ou seja, a ideia de Szájer passou a ser inconstitucional.

Este assunto inócuo é apresentado como uma perigosa iniciativa de um governo que pretende criar um regime totalitário no leste da Europa.

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Portugal e o futuro da Europa

Os resultados eleitorais na Finlândia são reveladores de uma tendência geral na Europa. Os partidos populistas vão continuar a crescer, pois os eleitores ainda não compreenderam que os países da UE já estão todos ligados uns aos outros e que o afundamento de um deles implica que os restantes sejam arrastados. A verdade é anti-intuitiva e por isso a tendência populista é tão perigosa.

Não se consegue descortinar uma coligação governamental em Helsínquia que não inclua os Verdadeiros Finlandeses, que elegeram 39 deputados (em 200). O partido vencedor, a Coligação Nacional, terá de incluir, no mínimo, os social-democratas, que também estão contra o resgate português. Em resumo, a decisão do eleitorado é claramente a de não pagar para o fundo de estabilização e qualquer Governo que não respeite este veredicto estará a a agir de forma estúpida. Na melhor das hipóteses, a Finlândia condicionará a sua participação no resgate português à imposição de condições draconianas, um plano de austeridade que poderá condenar muitos portugueses à fome.

 

É certo que o País cometeu erros catastróficos, que a dívida parece impossível de pagar, que outros Estados sobreviveram à austeridade. Mas o facto de o FMI propor condições mais generosas do que a troika (Comissão, BCE, FMI) parece ser não apenas absurdo como sinal de que os governos estão a tomar decisões para os seus eleitorados e não para os interesses futuros da UE. Como já escrevi atrás, estamos todos tão atados uns aos outros, que se um país vai ao fundo, os outros afundam também. No entanto, as pessoas ainda acreditam que o melhor é cortar a corda.

Legalmente, Portugal não pode ser expulso do euro; há juristas que afirmam que a saída do euro, que terá de ser voluntária, implica necessariamente a saída a UE. A posição finlandesa tem graves dificuldades: a Finlândia (ou mesmo um grupo alargado de membros do euro) não pode impor a nossa saída da zona monetária; e se Portugal saísse pelo seu pé teria provavelmente de abandonar a União Europeia.