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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Emoções básicas (9)

A colecção de cromos
Lembro com nostalgia a paciência necessária para concluir uma colecção de cromos. Quando era criança, fiz a História de Portugal, com bonecos lindíssimos (não recordo qual era o mais difícil). Na redacção do jornal onde trabalho, há um enorme entusiasmo juvenil pela colecção de cromos dos jogadores do mundial. Parece que um dos mais difíceis é o de João Moutinho, que nem sequer jogou na África do Sul.
No albergue e em blogues amigos há também um entusiasmo febril para completar uma colecção de cromos do universo socrático, em forma de cartas de jogar.
Não vou discutir o mérito da iniciativa, mas julgo que a crítica explícita vai um bocado ao lado, pois o problema do País não tem a ver com pessoas, mas com o regime. Tal como João Moutinho não joga no mundial, o baralho socrático podia ter sido feito com indivíduos totalmente diferentes. Estes serão os que tiveram oportunidade ou que foram levados pelas circunstâncias.

 

A actual organização política tem pouco a ver com democracia e com capitalismo. Acho que os socialistas estão a tentar criar um regime mexicano ou, se quiserem, uma Madeira em larga escala. Os empregos resultam das amizades, da lealdade ao movimento, da filiação partidária. A progressão nos empregos ainda mais depende destes critérios. Os negócios sujeitam-se à proximidade de interesses e favores. Quem joga na equipa é compensado, mesmo que seja bronco, e de preferência se realizar algum trabalho útil para a causa. Vimos com espanto que há gestores nomeados para empresas cuja missão é apenas a de servir o partido, não a empresa onde trabalham.
A oposição tem maior fatia do bolo quanto maior for a sua inépcia e incapacidade de alterar a situação. A ligação entre grupos empresariais e Estado é tão íntima que quase nada os distingue. Em troca de favores de Estado são garantidos empregos. As empresas que atraem a hostilidade têm fiscalizações inesperadas e enfrentam concorrentes cujo privilégio é o de não terem de cumprir a lei. E não há cultura do mérito, pelo contrário, a incompetência parece ser o critério fundamental para a ascensão nas hierarquias. É fácil perceber a razão: nenhum incompetente pensa pela sua cabeça.

As privatizações foram uma ficção, como se comprova com a golden share da PT, e o controlo da informação é apertado, não através de coronéis censores, mas de forma mais subtil, sobretudo através de opiniões com aspecto de diversidade mas que são todas idênticas. Cada um sabe o seu lugar. Quem jogar na equipa é compensado. Quem não está connosco é contra nós. Isto vale para todos, do simples funcionário público ao presidente do conselho de administração. No fundo, trata-se de um sofisticado sistema feudal de pequenos territórios, de vassalagens e dependências, de alianças indestrutíveis e corruptas, com mecanismos brutais de retaliação. O Estado determina os incentivos e a clientela é monstruosa, dispensável e facilmente substituível. Nem pensem que isto depende das pessoas, porque se não forem estes, serão outros.

A retaliação maior é ficar sem emprego, ficar sem amigos. A famosa secretária sem telefone e com vista para a parede. Os sindicatos desapareceram, devidamente domesticados. O jornalismo está calmo, sobretudo onde conta, nas televisões. Os jornais estão quase falidos, evoluíram para tablóides, em busca de leitores, e já não lideram. A oposição de esquerda continua num mundo de fantasia retórica, incapaz de travar a perda de direitos sociais dos trabalhadores. E a direita tribalizou-se. As pessoas têm medo: medo de perderem o seu emprego, de não poderem pagar os empréstimos da casa; medo de criticar, medo de quem possa estar a ouvir o desabafo. Os locais de trabalho estão balcanizados (porque é que aquele sobe e eu fico na mesma?). Há quem tenha medo de falar ao telefone ou passar numa auto-estrada, mas isso deve ser paranóia.

 

É por isso que não gosto das cartas. O baralho socrático estará sempre incompleto e fará a injustiça de incluir pessoas genuinamente idealistas. Foi o PS que teve a oportunidade de criar este sistema, mas o PSD fez o mesmo na Madeira. Este não é um problema de pessoas, mas de mentalidade errada e crise de valores; um problema da nossa democracia, que o endividamento e o colapso financeiro vieram exacerbar. O bolo está a diminuir e, por isso, a divisão ficou mais restritiva. A elite já inclui descontentes e o ciclo termina de forma catastrófica, com o País a afundar-se e os cidadãos comuns, as vítimas do costume, a terem de pagar o sacrifício. E era bom que o próximo ciclo pudesse romper com o mecanismo infernal, evitando as dependências que nos levaram ao declínio e ao desastre, como se fossem um vício.

Emoções básicas (8)

A direita portuguesa

Muito interessante verificar o silêncio incomodado, em relação a isto, nos blogues ditos próximos do PSD. Chuta-se para canto, em vez de tentar explicar as razões do descontentamento.

Já aqui manifestei a minha incompreensão pelo fenómeno do verdadeiro ódio a Passos Coelho que se encontra na blogosfera. Estou a referir-me concretamente aos principais blogues políticos da direita, onde muitos textos revelam uma estúpida sobranceria e superioridade social.

Na direita portuguesa estamos a assistir a uma mudança de geração e ao fim do chamado cavaquismo (embora Cavaco Silva, a meu ver, tenha vantagem na sua eventual reeleição). Falo obviamente da geração política associada a Cavaco, aos barões que levaram aquele partido a várias derrotas. Na blogosfera, a direita ligada ao CDS acolheu mal a subida do PSD, sobretudo a forma como Passos Coelho conseguiu em semanas unir o seu partido e transformá-lo no verdadeiro motor da oposição. Mas a maioria dos autores da blogosfera (e na imprensa) supostamente ligados ao PSD continua a destilar uma hostilidade a Passos Coelho que não corresponde minimamente aos dois terços de votos que este político conseguiu no seu partido. Em resumo, a blogosfera não reflecte a realidade. Há blogues de protesto, o bloco de esquerda é gigantesco, os monárquicos são super-influentes, há ainda alguns apoiantes de Sócrates (agora todos entrincheirados nas barricadas) e a oposição interna do PSD domina o centro-direita. O eleitorado real é muito diferente da blogosfera. 

 

Há autores que nunca acertaram numa análise e que continuam a insistir na tecla "não gosto daquele gajo" sem um único argumento. Dou um exemplo: pessoas inteligentes repetem a tese de que Passos e Sócrates são uma espécie de Dupond e Dupont da política portuguesa. A ideia, digna de um bom barbeiro, não resiste a cinco segundos de reflexão. Não podia haver dois políticos mais diferentes, no estilo, no discurso, na actuação. Um é arrogante, impulsivo, agressivo e autoritário; o outro tenta estabelecer alianças alargadas, é paciente, controlado e com um estilo de liderança consensual.

Este fim-de-semana havia uma notícia de que o PSD estava a preparar uma aliança pós-eleitoral com o CDS. Mas a parte interessante da notícia era a informação de que os social-democratas se poderiam aliar aos conservadores mesmo se conseguissem maioria absoluta (um cenário que pelos vistos admitem na sua estratégia).

Julgo ser uma novidade na política portuguesa.

 

A conjuntura económica é muito mais grave do que nos andam a dizer, veja-se a polémica em torno das declarações do Presidente sobre a insustentabilidade da situação. A resposta do PS foi uma barragem de propaganda, fuga para a frente e autismo; vimos destas coisas durante vários anos e já ninguém acredita, sobretudo os mercados.

As pessoas sensatas afirmam até que já devia existir um governo de bloco central para fazer o que tem de ser feito, governo esse que parece impossível de concretizar, pois exigiria uma mudança de líder no PS, o que não se vislumbra.

Sabendo que o país está à beira do abismo e que continuará endividado nos próximos cinco ou seis anos, os políticos tentam um equilíbrio difícil. Se derrubasse o governo sem estar preparado para governar, como desejam alguns mais impacientes, Passos Coelho arriscava-se a ser o responsável pelo agravamento da crise. E o PS poderia mais facilmente sacudir a água do seu capote, como fez no passado.

O Governo que nos colocou nesta situação será forçado pelas circunstâncias a tomar decisões que são contrárias às suas convicções socialistas. No fundo, trata-se de tirar regalias sociais que o PS introduziu e sempre defendeu. Os cortes na despesa são inevitáveis e o eleitorado socialista vai resistir.

 

A sondagem citada acima mostra o início de uma erosão do PS, que se irá agravar ao longo dos próximos meses. A situação económica não vai melhorar e, após anos de empobrecimento, os portugueses enfrentam um futuro sombrio da continuação do declínio talvez por mais uma década. Não há perspectivas de crescimento económico e o desemprego só poderá ser minorado pela imigração para países que entretanto recomecem a crescer.

A breve prazo, o centro-direita (PSD e CDS) deverá voltar ao poder. Mas julgo que o próximo governo vai actuar num contexto de grandes limitações, a ter de impor reformas dolorosas e politicamente difíceis, algumas delas por exigência externa. A tal nova geração de políticos será testada num cenário de crescente descontentamento social. 

Sempre achei que a direita intelectual portuguesa pensa pouco e pensa mal. Neste caso, a que se manifesta na blogosfera e em certa imprensa, está a ver o filme completamente desfocado. Para estes autores, a ideia de ver esta nova geração de políticos no poder é um horror pior do que a crise. E é curioso verificar que Cavaco produziu a mesma reacção de aversão: enfim, o filho do gasolineiro e self-made man também não era da classe social certa. 

 

 

 

 

Emoções básicas (7)

O fim da revolução
Muitos comentadores não esconderam a sua tristeza em relação aos resultados das presidenciais ucranianas, que deram a vitória ao pró-russo Viktor Ianukovitch. O presidente eleito é o mesmo que vencera em 2004, em eleições irregulares que originaram um movimento político conhecido por “revolução laranja”.  Na altura, houve uma terceira volta e Ianukovitch perdeu. Desta vez, a sua rival reformista, Iulia Timochenko, ainda ensaiou um protesto, mas entretanto já admitiu a derrota. O veredicto popular foi assim confirmado em eleições democráticas, o que não impediu a contraditória tese “do fim da revolução”. Por exemplo, o conhecido autor americano Francis Fukuyama escrevia em The Spectator que este era um sinal do recuo das democracias. É um artigo que vale a pena ler.

 

Oligarquias
Tenho dúvidas sobre a interpretação de Fukuyama, que mistura países diferentes e, acima de tudo, parece não ver que esta “democracia” ucraniana nunca existiu fora do papel. Um sistema minado pela corrupção dificilmente se pode considerar democrático; e as diferenças sociais de que fala o autor não foram consequência da introdução da economia de mercado, mas pelo contrário, da ascensão de uma classe empresarial (incluindo Timochenko) com extensas ligações ao antigo regime. Estas pessoas apropriaram-se de bens públicos, em privatizações fictícias, comandadas por grupos de poder, oligarquias. A Ucrânia tem duas complicações adicionais: um vasto número de emigrantes na Europa Ocidental e divisões étnico-linguísticas que deram neste resultado: vejam o mapa assustador, que se repete em cada nova eleição; basicamente, o país está dividido em dois. A amarelo, as regiões onde ganhou a reformista Timochenko; a azul, as vitórias de Ianukovitch.
 A Ucrânia é hoje mais democrática do que seria sem a revolução laranja, sendo provável que haja redução dessas liberdades no futuro próximo, por exemplo, mais controlo na imprensa. Mas muitos comentadores, ao meterem tudo no mesmo saco, perdem a noção de que a transição dos países socialistas do leste seria sempre mais lenta do que Fukuyama admitiu em 1989, com a sua famosa tese do fim da história.
A região da antiga Cortina de Ferro atravessa ainda um período a que podemos chamar de pós-comunismo, caracterizada pela reciclagem dos antigos partidos comunistas (que geralmente mudaram de nome), pela introdução do capitalismo e rápida adesão europeia. Os antigos membros do aparelho viraram a casaca e adaptaram-se aos novos tempos. Não era possível afastar toda a gente dos seus cargos; havia milhares de pessoas que tinham colaborado com o regime comunista ou que, no mínimo, tinham fechado os olhos e vivido a sua vida. Estes regimes não eram uma ditadura de uma pequena minoria, mas sistemas políticos complexos, cujas instituições não podiam desaparecer de um dia para o outro.

 

Pós-comunismo
Há eleições livres e descontentamento, mas existe outro padrão: o pós-comunismo está a acabar na Polónia e na Hungria, em breve na República Checa. Estes três são os países mais avançados na transição, pois eram também os mais ocidentalizados em 1989. Todos eles tinham anteriores experiências democráticas, forte identidade nacional, elites muito ocidentalizadas. Na Polónia, o partido reciclado esteve no poder e acabou cilindrado nas urnas e o mesmo deverá suceder aos socialistas húngaros dentro de dois meses: há mais de um ano que as sondagens dão dois terços do eleitorado aos conservadores e a grande incógnita será o comportamento de um partido da extrema-direita, que apareceu do nada e de forma estranha.
A ascensão de gerações políticas que nada têm a ver com o passado será um processo lento e difícil; um verdadeiro conflito de gerações. A democratização também avançará na Rússia ou na Ucrânia, mas o processo será mais lento. A Rússia foi humilhada durante a experiência de capitalismo selvagem que fragmentou o seu império; a Ucrânia procura ainda construir a sua identidade.
 

Emoções básicas (6)

A crise do capitalismo
Nos Estados Unidos alastra um movimento populista chamado Tea Party. Trata-se de uma rebelião anti-grande-capital e anti-governo, que à primeira vista parece liberal (no sentido europeu do termo), mas que na realidade é ultra-conservadora. Ela assenta numa visão religiosa e anti-científica. Por exemplo, os seus adeptos são criacionistas e contestam a tese das mudanças climáticas. O movimento é também isolacionista, reanimando uma longa tradição adormecida da política americana.
Convém ler este artigo da New Yorker para entender o movimento do Tea Party. O nome é referência a um famoso episódio que precedeu a Revolução Americana, mas também a sigla de “Taxed Enough Already”, que significa “Já pagamos suficientes impostos”.
Do ponto de vista político, este movimento de bases sociais (cujos heróis são Sarah Palin, apresentadores de rádio ultra-direitistas e vedetas da Fox News) constitui uma enorme ameaça para Barack Obama, pois são usados os mesmos métodos de pequeno activismo em rede e em larga escala que o levaram à Casa Branca.

 

As mentiras
É preciso compreender que em muitas pequenas comunidades dos EUA as pessoas acreditam que as iniciativas de Obama são “socialistas”; a protecção constitucional da livre expressão, garantida a todos os americanos, torna fácil propagar mitos e tecnologias como a internet colocam as mentiras em todo o mundo: Obama nasceu no Quénia, John Mc Cain é um comunista, o supervulcão de Yellowstone vai rebentar, a evolução é uma fábula, existem mil conspirações contra a América.
O crescimento do Tea Party (que tem milhões de adeptos) só pode ser explicado pela extrema ansiedade em que vivem os americanos. Esse nervosismo é provavelmente uma marca inevitável das sociedades pós-industralizadas que vivem sob o choque do iminente fracasso do capitalismo. A crise financeira de 2008 foi vista como uma traição dos poderosos de Wall Street, cuja ganância provocou o colapso económico de quem trabalha. Enfim, minando a base da prosperidade.

 

Já não há lugar para velhos
Na óptica do homem comum, o capitalismo parece de facto um mundo a encolher. Trabalhamos cada vez mais horas, com máquinas mais sofisticadas, mas a nossa produtividade não acompanha as necessidades da economia. Depois, vem o downsizing: empresas poderosas, que outrora dominaram mercados globais, despedem fatias importantes das suas forças de trabalho.
As indústrias fecham e os novos empregos vão para os serviços, onde parece que não se produz nada. Para mais, a imbatível economia financeira também entrou em colapso e ainda mais depressa do que indústrias que outrora marcaram as paisagens da Europa e EUA.
Além disso, pagamos cada vez mais impostos, que parecem perder-se numa espécie de buraco negro, de dívida crescente, de défice galopante. E o que melhorou nos serviços públicos? Pois bem, tudo piorou. Em todos os serviços.
E as pensões, que julgávamos gordas e confortáveis para todo o sempre, virão mais tarde e serão menores, por isso é preciso poupar para a velhice, para a saúde e para a hipoteca. Aos 50 anos, um trabalhador já não serve para nada, a sua memória e experiências são inúteis para os patrões. E aos 35, passa-se a velho. E, por absurdo que pareça, chegar empregado à idade da pensão começa a ser um desafio.
Este fracasso do capitalismo está a gerar um imenso medo e a criar terreno fértil para soluções populistas. Fenómenos como o Tea Party vão proliferar. São baseados em mentiras mil vezes repetidas, nos delírios mais desenfreados, mas são o futuro.
 

Emoções básicas (5)

História trágico-marítima
Faz agora cinco anos, um governo estável foi demitido após uma campanha de notícias negativas cuja gravidade, à época, parecia imensa. O Presidente da República de então, Jorge Sampaio, foi muito elogiado pela coragem demonstrada: esperou seis meses até o maior partido da oposição estar pronto para tomar conta do País e invocou o descalabro das contas públicas, nomeadamente o défice orçamental superior a 6%. O governo de Santana Lopes também caiu devido ao que pareceu ser interferência sistemática na comunicação social. Tudo isso nos parece agora irrelevante. 
Cinco anos depois, estamos todos mais pobres. O défice é de 9,3%, a dívida atingiu níveis recorde e o desemprego anda acima dos 10%. A situação financeira é tão complexa que ninguém sabe ao certo o que pode suceder nas próximas semanas. Um país da zona euro, a Grécia, vai testar em breve um dos aspectos mais controversos da união monetária: é ou não possível ajudar um membro em dificuldades?

O tratado europeu não prevê salvamentos pelo BCE; uma intervenção do FMI é improvável, pois isso seria uma humilhação para outros países do euro; e os mecanismos de ajuda existentes não incluem medidas de intervenção na economia do prevaricador, pelo que são politicamente difíceis. A Alemanha não pode decidir a austeridade grega e a União Europeia tem mecanismos muito fracos para o fazer; o FMI pode, mas isso é complicado para os outros, pelo que a bancarrota é uma possibilidade. Portugal ainda não está na situação da Grécia, mas é o seguinte na lista de vítimas.

 

O controlo

Após cinco anos de maioria absoluta dos socialistas, estamos mais pobres e mais tristes. Os salários ficaram na mesma e as pensões de reforma estão ameaçadas. Muitos portugueses temem pelos seus empregos. O Estado engordou, mas a situação social piorou muito: há uma educação para ricos e outra para pobres; uma justiça para ricos e outra para pobres; saúde para ricos e saúde para pobres. As desigualdades aumentam e vê-se por todo o lado o compadrio e o peso do cartão partidário.
Em 35 anos de democracia, nenhum governo controlou, como este fez, as magistraturas, os jornalistas, os empresários, as polícias, a administração. Nunca houve tantos jobs for the boys e é inédita esta obsessão pelo controlo da informação. O PS tentou criar um regime mexicano (ou à semelhança do da Madeira), servindo uma clientela que o perpetuaria no poder. A oposição deixou de existir. Como é possível que um partido como o PSD esteja tanto tempo a discutir a substituição da sua líder, enfraquecida por duas derrotas eleitorais consecutivas? E agora, no meio de uma crise, o PSD esteja sem liderança à altura dos problemas?

 O facto é que nenhum dos dois partidos de poder parece ter resposta para a situação em que o País mergulhou.
Para mais, este governo está a ensaiar a estratégia de fuga, de encontrar um pretexto para abandonar o barco, como se não fosse nada com eles.
No clássico da literatura portuguesa (e mundial) História Trágico-Marítima existe um episódio idêntico a este, embora mais terrível e triste: um naufrágio na costa da actual África do Sul; culpa do piloto; o comandante e alguns nobres “safam-se”, usando uma embarcação improvisada; só as pessoas importantes se salvam dessa forma; na praia ficam todos os outros desgraçados, mais de 600, para morrerem devagar à fome. Dos que ficam, apenas quatro náufragos chegam a Goa para contar a história e pedir ajuda, após improvisarem uma pequena embarcação. O que se conclui disto? As nossas elites não mudaram muito.

Emoções básicas (4)

Ocidente, Oriente
O suplemento literário do ABC deste sábado incluía uma notável entrevista a Claudio Magris. A certo ponto, quando mencionava Italo Svevo, Magris identificou uma intuição “formidável” na obra deste escritor seu compatriota. Cito: “Enquanto que no passado o homem corria o risco de não ser feliz, para o homem moderno o problema agrava-se. Agora, corre o risco de não ser capaz de desejar a felicidade. Quer dizer, já não se trata de não ser amado, mas de algo mais trágico: não ser capaz de amar”.

 

A frase parece dizer muito sobre o mundo contemporâneo e a sua frieza e falta de bondade. A civilização ocidental foi capaz de grandes realizações. Não apenas na engenharia ou medicina, em vidas salvas, longevidade, o conforto de um rei medieval ao alcance de qualquer pobre. Há magníficas obras de arte na China e na Índia, mas a complexidade e profundidade da música ocidental, da sua pintura ou literatura são insuperáveis. Existe agora a moda de relativizar e dizer mal; em certas universidades americanas o ensino da história da Europa tem de ser contrabalançado com igual número de horas para cursos sobre a história de culturas que nos parecem menos influentes. Mas não devíamos esquecer que certas ideias, por exemplo a democracia, foram aperfeiçoadas e exportadas pelo ocidente. Também os direitos humanos, o feminismo, a ajuda humanitária.

 

E, apesar de todas estas realizações, a frase de Magris deve fazer-nos reflectir. Onde falhámos? O homem que corria o risco de não conseguir ser feliz é agora aquele que revela a trágica incapacidade de dar amor aos outros.
Isto aplica-se a quem habita um mundo que parece mover-se com a força motriz do egoísmo e do medo. Um mundo arrogante e cheio de ganância, estúpido na sua vaidade, obcecado pelo poder e pelo sexo. Aplica-se ao microcosmos das relações humanas, a vidas esvaziadas de valores, onde já não cabem os sentimentos. Aos solitários, aos abandonados. Nas outras pessoas, parece que procuramos sobretudo os defeitos ou que nos confirmem as nossas virtudes. A arte transformou-se na glórias das nações, a religião em catedrais magnificentes, a ciência imagina poder controlar o destino. O orgulho é o nosso pecado. Deixámos de olhar para dentro de nós e o nosso deus passou a ser o dinheiro. Esse é o eixo das nossas vidas, a obsessão íntima. E tornámo-nos escravos da ambição.

 

Uma religião oriental, o taoísmo, mal compreendida no ocidente, tem certas ideias semelhantes a partes do cristianismo, sobretudo aquelas mais místicas, que os ocidentais rejeitaram. Não me parece que haja uma boa tradução do Tao Te Ching, um livro muito antigo, mas arrisco-me a citar o que diz sobre o desejo, pois talvez complete a reflexão acima e nos ajude a pensar. Diz Lao Tsé:
Não há maior crime do que ter muitos desejos. Dão maior infortúnio do que ser invejoso”.
E, à frente, uma verdade simples que, para um olhar moderno, quase parece ingénua: “Quando estamos contentes, possuímos todas as coisas do mundo”.
 

Imagem: Aurora, F. W. Murnau (1927)

Emoções básicas (3)

O oposto do amor
Qual é o oposto do amor? Podemos pensar que é o ódio, mas essa talvez não seja a melhor resposta. Um sábio diria que o oposto do amor pode bem ser o medo.
Ouvi esta meditação numa conferência da neta do Mahatma Gandhi, Tara Gandhi, na Fundação Gulbenkian, terça-feira, em Lisboa. O ensinamento flutuou quase anónimo, sem parecer importante. As ideias orientais são por vezes incompreensíveis para nós, materialistas do ocidente, e algumas opiniões da conferencista eram difíceis de aceitar. Ela usava um discurso de estranha humildade, tornando mais improvável a nossa aceitação.
Podemos dizer de outra maneira este pensamento iluminado: o que impede o amor não é o ódio, mas sim o medo. Isto aplica-se às nações, aos conflitos entre amantes, às discórdias civis das sociedades. Temos medo; em resposta, parecemos destilar ódio, mas apenas mostramos o temor do desconhecido. A vertigem assusta e quanto maior o receio, maior a rejeição do que se teme.

Esta realidade está mais próxima de nós do que parece. Ela rodeia-nos. O medo explica a inveja, a guerra preventiva, a hostilidade, o ciúme, a resistência; o medo explica a gritaria no debate, a indecisão ferida, o erro destrutivo, a dúvida, o desprezo. Veja-se com distanciamento: existe medo à nossa volta, uma tensão social feita de pequenas inseguranças, de apreensão pelo futuro, de sobressalto permanente. Deixámos de ter uma vida, deixámos de ter estabilidade. E o temor produz agressão: não queremos ouvir o outro, tudo o que ele nos diga soa a estranho ou maléfico e pode ser reduzido a minúsculos fragmentos negativos; repetiremos mil vezes a mentira, transformando a possibilidade em antipatia, o diálogo em discórdia, o amor em miséria.
Num mundo materialista, é difícil perceber a ideia da não-violência. Ela exige um penoso ponto de partida, tão inaceitável para a razão interesseira, de que o nosso inimigo nunca o é verdadeiramente; antes o que parece ódio não passa de pânico e susto, sendo por isso digno da compaixão, da lástima que se tem pelo próximo, daquele que no fundo é igual a nós.

 

Imagem: pintura de Frits van den Berghe, "O corredor", 1927.

Emoções básicas (2)

Quente e frio
Era um episódio de Twilight Zone, A Quinta Dimensão, a fantástica série de televisão dos anos 50 e 60, transcrito numa colectânea antiga. O conto enganava o leitor da forma clássica: um jovem (ou seria uma jovem) sofria horrores com o calor, num planeta abrasado e seco; deambulava em busca de água, numa alucinação produzida pela sede e o sol inpiedoso. (Prolongar a tensão, cena cada vez mais obsessiva e sem saída). De súbito, surpresa, voltávamos à realidade: aproximava-se um homem numa tempestade de neve; era médico e entrava numa casa. (Diálogo curto, só o mínimo). Víamos o protagonista na cama, febril e inconsciente, a sonhar com o aquecimento global. E, ironia, (aqui entrava um diálogo curto e incisivo) afinal o mundo estava a congelar.  

Tenho duas caixas de 72 episódios da Twilight Zone e tento fazer render o peixe; vejo três ou quatro de seguida e é sempre o serão perfeito. Ainda não encontrei este episódio que li algures, talvez ele não esteja na colecção e, se não estiver, terei pena, mas forte incentivo para adquirir a terceira caixa.

Lembro-me de outro pormenor: naquela época era cedo para mencionar a ideia do aquecimento global, por isso o mecanismo narrativo era o seguinte: a Terra saíra da sua órbita na direcção do sol (na alucinação); ou na direcção contrária (a realidade).

Recordei-me desta história em fragmentos, ao ler artigos e posts de vários blogues sobre o frio que parece desmentir o aquecimento global. Neste inverno, há um arrepio de satisfação nos comentadores, como se o dióxido de carbono não se acumulasse na atmosfera e isso não fizesse aumentar a energia total do sistema climático da Terra.

Um frio tão real, tão intenso, tem de poder desmentir a tese, não é assim?

Para mais, esta semana, surgiu a teoria segundo a qual a Oscilação do Atlântico Norte (corrente marítima que determina o clima da Europa e da América do Norte) nos condena a um arrefecimento brutal nos próximos 30 anos. Parece tudo contraditório, embora não o seja para quem fale em mudanças climáticas e não em aquecimento global. Mas, numa leitura à superfície, não estamos ainda na zona do crepúsculo. No fundo, é como se alguém estivesse a brincar com os espectadores, para os enganar com uma narrativa irónica: o calor extremo é apenas a febre, a alucinação doentia; na verdade, congela-se.

E se a realidade for quente e frio, um de cada vez, no seu esplendor? E se for mesmo como os cientistas dizem, que estamos à beira de passar os limiares e prestes a entrar naquele território desconhecido onde tudo pode acontecer? 
 
 

Emoções básicas (crónicas) 1

 

Há almas soturnas que o vendaval da história empurrou para destinos à deriva. Por vezes, alguns destes seres perturbados irrompem nas notícias, por um qualquer crime de raiva ou episódio triste. Todos têm egos excessivos, culpam sempre os outros pelas suas falhas, vivem desesperados por um pouco de amor ou de admiração, a ponto de soarem como alucinados cada vez que abrem a boca. Falharam as vidas, perderam a noção da realidade, são cruéis e tirânicos para quem os rodeia, e jamais admitem que aquilo que os move é a ignorância e o preconceito.
Em épocas normais, estas pessoas acabam sozinhas. Mas, nos tempos de crise, os histéricos prosperam. 
Não escrevo apenas sobre fracassados anónimos nem sobre predestinados para o mal. Esta foi a primeira reflexão que me surgiu da leitura do excelente livro de Ian Kershaw, Hitler. A biografia de Adolf Hitler, uma personalidade doentia, homem condenado ao fracasso, sem estudos nem talento, mas que em circunstâncias de crise levou a Europa ao suicídio, apenas armado de infinita demagogia, da megalomania egotista dos loucos e da rara habilidade de acreditar fanaticamente nas próprias fantasias.
Em cada nova página deste livro, a personagem torna-se mais opaca, mais incompreensível, mais demoníaca.
A história do ditador nacional-socialista contém, apesar de tudo, uma lição, relativa ao papel do acaso nas épocas de perturbação. A instabilidade que vem da derrota, os ódios acumulados e a pobreza súbita tornam-se mais perigosos em crises caóticas. O triunfo do mal é sempre possível nestes caldos enraivecidos. Em sociedades voláteis e doentes ganha quem gritar mais alto. As vozes sensatas serão silenciadas. A tirania resulta da febre do mundo.