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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Tirinhos no pé e coisas importantes

É inegável que tem havido muitos tirinhos no pé dados pelo PSD, como aqui escreve Pedro Marques Lopes, mas penso que os eleitores vão ignorar esta espuma e concentrar-se no essencial, sobretudo os que ainda hesitam na direita e na esquerda, talvez mais de um milhão que decidirão em frente ao boletim de voto.

Não sei se as Novas Oportunidades têm assim tantos méritos e se os portugueses apreciam cursos tirados na farinha amparo. Sei que esta nunca foi uma sociedade que ligasse muito ao mérito e que sempre deu excessivo valor ao canudo e ao certificado. Mas reconheço que do ponto de vista da comunicação mediática, a introdução de mais este tema foi inoportuna, por muito estatístico que ele seja.

 

No entanto, os portugueses não vão votar a 5 de Junho em função de casos secundários, como este ou outros nos quais a campanha se tem centrado, apesar dos esforços socialistas para banalizar os temas.

Os portugueses vão votar porque estão desempregados e fartos de mentiras ou de meias verdades. Vão votar porque o País está à beira da falência e necessita de ajuda externa urgente para pagar as dívidas. Vão votar por causa da ansiedade económica e laboral, sobretudo devido à situação das pequenas empresas, onde empregam ou são empregados, porque deixou de haver negócio ou perspectivas de futuro. Os portugueses vão votar por estarem fartos de promessas vãs e discursos balofos, cansados de serem enganados sobre a verdadeira situação do País. Vão votar porque, se continuar tudo da mesma forma, não terão futuro.

Sobem o desemprego e a inflação, a crise é paga pela classe média, em impostos e redução de salários reais. Os próximos cinco ou seis anos serão dramáticos. É preciso mudar e muitos eleitores têm consciência disso.

 

Não sei se existe maioria de eleitores a atribuir ao PS e a José Sócrates a responsabilidade por seis anos de declínio económico amparado pela retórica da ilusão. As sondagens apontam para um empate entre as duas maiores forças, PS e PSD. Espero que no debate de sexta-feira, entre José Sócrates e Pedro Passos Coelho, o líder da oposição deixe bem claro que votar em Sócrates não é apenas votar em seis anos para esquecer, mas é também votar em mais quatro de instabilidade governativa.

Sócrates será incapaz de fazer uma coligação com o PSD ou com o CDS; incapaz de se coligar com Francisco Louçã ou Jerónimo de Sousa. Se ganhar, resta-lhe governar sozinho. Penso que Passos Coelho tentará sublinhar esta circunstância peculiar e crucial, que pode determinar o voto de muitos portugueses ainda indecisos.

A única solução estável de governo passa por uma vitória da direita e, para que esta tenha força, o PSD terá de vencer o PS. Ou seja, o voto no CDS não garante a estabilidade se o PSD for menor do que o PS. E não pode haver ambiguidades sobre a derrota que Sócrates merece: se o PS tiver mais votos e menos deputados, espera-nos a guerrilha institucional e a paralisia política.

Tem de ser uma vitória que permita mesmo a mudança: maioria de direita e o PSD com mais votos e mais deputados.

 

Desculpem o tom panfletário, mas já não controlamos o nosso destino. Portugal perdeu soberania, a ponto de uma chefe de governo estrangeira, Angela Merkel, se permitir criticar num comício as férias e as reformas dos portugueses, que ela acha excessivas (embora em tudo sejam semelhantes às alemãs).

É inaceitável. Sinto vergonha pelo estado a que chegou o meu País.

Há no entanto um problema político que os eleitores controlam: podem livrar-se a 5 de Junho do principal culpado por este descalabro.

Passos Coelho responde a perguntas de bloggers

"Tenho talvez o defeito, eu julgo que é uma qualidade, de ser sempre o mais genuíno possível. E acho que nunca ninguém está preparado para tudo". Foi desta forma cautelosa que Pedro Passos Coelho respondeu a uma pergunta que lhe fizera João Gonçalves, e que era aliás a última questão da blogconf (uma espécie de conferência de imprensa para bloggers) que decorreu esta tarde em Sintra. Uma pergunta para cada convidado e o staff do candidato já a olhar para o relógio, pois ainda havia duas acções políticas previstas.

A questão era incómoda e pode resumir-se da seguinte forma: os seus adversários acusam-no de impreparação e baseiam nisso toda a campanha. Qual é a sua resposta?

Pedro Passos Coelho explicou que o seu adversário, José Sócrates, se preparara desde muito cedo para ser primeiro-ministro. E, apesar da preparação, "não há desculpa para tanto disparate". O mais importante é aplicar as políticas correctas. "Qualquer coisa que eu possa fazer, não custará ao país 78 mil milhões de euros".

A pergunta incluía uma parte sobre as críticas internas do PSD e os seus efeitos na campanha. Neste ponto, Passos Coelho defendeu o pluralismo interno, lamentou que houvesse críticas tão perto de eleições, mas rematou com uma frase que visava Sócrates: "Pessoas que falam grosso e dão murros na mesa em regra não têm razão".

 

O PSD organizou em Sintra esta conferência; seria fastidioso enumerar todos os blogues presentes, mas além do Albergue estavam, entre outros, Miss Pearls, Cachimbo de Magritte, o Diplomata, Corta-Fitas, Portugal dos Pequeninos. Infelizmente, poucos blogues da esquerda (que foram convidados) e que podiam ter colocado questões. Coube-me uma das primeiras perguntas, semelhante à de João Gonçalves, embora não tão ao osso. No fundo, quis saber por que razão as sondagens sugerem um resultado decepcionante para o PSD. A causa está nas divisões internas do partido, na hostilidade da comunicação social, na deriva populista da campanha?

Pedro Passos Coelho não quis falar nas sondagens, reconheceu as dificuldades e sublinhou que a dinâmica eleitoral poderia favorecer o seu partido na recta final, após ter deixado claro que não fará uma coligação com o PS. Isso teria prejudicado a esperança de Paulo Portas de haver um governo de unidade com socialistas, social-democratas e centristas. "Não gosto de saladas russas eleitorais", disse Passos Coelho.

Mas acima de tudo, acrescentou o líder do PSD, as dificuldades das sondagens deviam-se "à eficácia da estratégia de medo que o engenheiro Sócrates tem seguido". Trata-se de criar mitos sobre as propostas do PSD, explicou, criando receio e falseando as verdadeiras posições do partido.

 

Tirando este momento, o essencial das questões levantadas na conferência diziam respeito às intenções do PSD. E houve algumas informações interessantes. O líder social-democrata disse que, se formar governo, a cultura será autonomizada e ficará dependente do primeiro-ministro. Passos Coelho repetiu a ideia de criar um executivo pequeno, só com 10 ministros e explicou que não haverá ministério da agricultura, já que muitos projectos desta área não avançam devido a conflitos com outros ministérios (ambiente, ordenamento, etc.). Assim, a melhor estratégia será a de englobar todas estas áreas.

No âmbito da reforma do Estado, Passos Coelho também mencionou a necessidade de racionalizar os serviços partilhados por diferentes organismos estatais, a informática, por exemplo, ou o pagamento de salários. Quando falou de justiça, referiu um número importante: há 15 anos, havia 600 mil pendências na justiça portuguesa; agora, há 2 milhões. "O sistema judicial tem de ser reformado", disse.

O líder do PSD também falou das desigualdades regionais, que na sua óptica cresceram, e da necessidade de repovoar o interior de Portugal. "Se começamos a acabar com freguesias no interior, vamos tornar o país ainda mais injusto".

 

Já na recta final, a conferência com blogues teve um momento potencialmente polémico, quando Passos Coelho foi questionado sobre o papel da comunicação social nesta campanha. "Nos últimos dias, o tratamento que as televisões têm dado ao primeiro-ministro e ao governo é desproporcionado em relação ao PSD", disse Passos Coelho, referindo-se a intervenções de ministros que comentam propostas do maior partido da oposição. "Penso que o governo, que se demitiu, devia abster-se de participar na campanha eleitoral", rematou. 

 

Foto indecentemente furtada a O Diplomata

O fumo que esconde os factos

Não gosto da palavra, mas concordo com o que escreve Henrique Raposo. Nesta pré-campanha, os media estão a ser cúmplices na tentativa de centrar as discussões em pormenores da espuma política. Mas a culpa não é só do "jornalismo" ou de qualquer impreparação dos "jornalistas".

Há algo de errado na sociedade portuguesa, um elemento difícil de definir, mas que me parece ser a incapacidade doentia de encarar a realidade.

A crise económica é, de facto, profunda, e será prolongada como nenhuma antes foi. Não há memória de dez anos de estagnação, seguidos de (vão ser três?) anos de empobrecimento acentuado. A inflação está nos 4% e os salários baixam, o desemprego atingirá em breve 800 mil pessoas. O sistema judicial é um pesadelo, a dívida pública duplicou em seis anos, o fosso entre ricos e pobres aumentou de forma brutal (basta ver a evolução das diferenças salariais dentro das mesmas empresas). Nos bairros mais miseráveis a vida começa a ser insustentável.

Portugal é hoje um país exangue, transformado num protectorado da União Europeia; um país sem expressão, que um anónimo comissário pode tratar com sobranceria; um país de espinha quebrada, que respira de alívio porque o parlamento finlandês decidiu deitar uma moedinha na sua mão estendida. 

 

Podemos perguntar: mas na comunicação social não se fala destas coisas? Sim, claro que se mencionam estes temas. E as pessoas mudam para a novela. Há uma anestesia geral na opinião pública e o jornalismo não é apenas uma causa do alheamento, mas também um sintoma.

O que não desculpa a complacência. E um exemplo desta têm sido os debates sobre os debates, que duram mais tempo de antena do que os debates. Os analistas discorrem sobre a gestualidade dos candidatos, a sua capacidade de comunicar, depois criticam as posições políticas dos candidatos (ele não pensa como eu), explicam a doutrina correcta e, no final, concluem que Sócrates esteve muito bem, convincente, firme, e que os seus adversários estiveram péssimos. A ideia é retirar impacto, dificultar a escolha, diluir a impressão real que o eleitor possa ter tido no jogo a sério. As análises não têm sido jornalísticas e desinteressadas. Um debate pode ser dissecado de forma objectiva, tentando perceber a estratégia e se os objectivos foram atingidos (como o Pedro Correia tem feito neste blogue), mas o que tenho visto nas televisões roça o incrível, havendo até comentadores que colocam na boca dos candidatos opiniões que estes não têm. Há uma assustadora falta de rigor.

 

Esta pré-campanha está a ser particularmente mistificadora. Os propagandistas têm feito enorme esforço para prolongar as conversas da treta. Não convém falar da realidade. O caso da taxa social única ilustra bem os equívocos e a tentativa geral de enganar os eleitores: quem for para o poder terá de baixar essa taxa paga pelos empregadores, pois a isso obriga um compromisso assinado pelos três partidos que podem governar o país. E, no entanto, só um partido, o PSD, assume o compromisso assinado. Apesar de o primeiro-ministro ter sido confrontado com uma óbvia mentira sobre a taxa social única, no debate com Francisco Louçã, durante um dia a comunicação social chutou para canto e discutiu se Louçã citara no debate uma carta ou um memorando (o que não alterava em nada a mentira). Num país a sério, José Sócrates teria perdido ali as eleições.

 

O próximo governo terá de tomar muitas decisões semelhantes à da taxa social única, todas elas impopulares. Mas, por outro lado, é difícil falar verdade; por exemplo, admitir que se vai mexer na lei das rendas, impôr regras aos juízes e aos professores; que haverá menos direitos sociais e que o despedimento será mais fácil. Que acabou a festa (duas equipas na final de uma taça europeia) e muitas empresas acabarão por ser vendidas a capitais estrangeiros.

Cada vez que um político contar a verdade, o seu adversário fará uma berrata para lhe ganhar votos, sabendo que se for ele o eleito terá de fazer exactamente o mesmo. E o excesso de sinceridade sai penalizado pela simples razão de muitos eleitores ainda não estarem a perceber exactamente o que lhes caiu em cima.

Os comentadores servem para acentuar as nuvens de fumo em torno dos factos. Isto é tudo um bocadinho como o Feiticeiro de Oz, uma manipulação sofisticada que cria um mundo de fantasia a cores, pelo menos durante mais um tempo, até ao dia em que poderemos regressar ao preto e branco da nossa pequena depressão.   

 

Rejeitar a hipocrisia

Concordo com o que escreveram alguns autores neste blogue, nomeadamente Francisco Almeida Leite e Luís Osório, sobre as mais recentes posições do PSD.

Pedro Passos Coelho, pela primeira vez, escolheu a ruptura e disse com clareza que não fará nenhuma coligação com José Sócrates, saia vencedor ou perdedor das eleições. Considerando as sondagens, trata-se de uma afirmação corajosa, pois o bloco central é a segunda coligação preferida pelo eleitorado. Durante semanas, os portugueses foram bombardeados com a ideia de que era necessária uma união nacional dos partidos, a panaceia dos nossos problemas. Pura ilusão: uma coligação PSD-PS seria demasiado frágil; uma coligação PS-PSD seria impossível. No primeiro caso, Sócrates tornaria improvável a estabilidade, pois ficaria a manobrar na sombra; no segundo caso, os socialistas tudo fariam para anular os social-democratas. Não há confiança entre as duas lideranças e o bloco central simplesmente não é credível.

Como é que alguém pode acreditar num casamentos destes?

 

Infelizmente, a verdade tem custos eleitorais e isso até pode acabar por ser visível no caso do programa do PSD. Mas não há alternativa: o partido reformista tem obrigação de tentar dizer a verdade aos portugueses e de apresentar um programa que inclua todas as medidas necessárias, independentemente destas medidas serem impopulares ou de ser fácil construir mitos à sua volta.

Passos Coelho apostou na clareza e recusou as ambiguidades. Rejeitou a hipocrisia e escolheu dizer a verdade aos portugueses. Acho que o eleitorado compensará esse tipo de coragem. Ficou mais nítido que Portugal precisa de uma vitória da direita.

Os socialistas, pelo contrário, têm um discurso extremamente agressivo, que não reconhece os erros próprios e culpa todos os partidos adversários pelos males que os próprios criaram. Acho que merecem ser punidos e, de forma muito severa, pelos eleitores.

Estas legislativas serão decididas por eleitores que ainda hesitam e está na altura dos líderes partidários se deixarem de tácticas e de começarem a dizer o que tem de ser dito: o primeiro-ministro José Sócrates é o grande culpado da crise e não será com frases ocas que vamos sair dela; quanto mais pequena for a votação no PSD, mais instável será o sistema que sair de 5 de Junho e mais provável a manutenção de José Sócrates no poder.

 

Isto é um documento sério, que merece ser discutido; Aqui, abundam as desculpas de mau pagador e as medidas que nunca foram aplicadas. Leiam, comparem.

Imperdoável

Um governo que engana o país que governa é imperdoável.

Os membros da troika foram muito claros. O PEC IV era insuficiente para evitar o colapso financeiro e o adiamento do pedido de ajuda pelo Governo de José Sócrates implicou medidas mais duras do que teria sido necessário aplicar se o pedido tivesse sido feito mais cedo. Sócrates não respeitou as receitas que Bruxelas propunha, a sua teimosia foi péssima e o resultado está à vista: os próximos dois anos serão de empobrecimento muito duro, com recessão e aumento do desemprego.

 

Os portugueses foram enganados e agora vão pagar a crise. A realidade bate à nossa porta.

O eleitorado deve rejeitar sem ambiguidades a mentira, a demagogia e a "habilidade comunicacional" de Sócrates. É preciso recusar o seu discurso vazio. O primeiro-ministro viveu durante os últimos seis anos num mundo de fantasia, apesar dos avisos de muita gente, incluindo do PSD, cujas críticas foram sempre recebidas com sarcasmo pelos socialistas.

O PS perdeu a credibilidade e não tem condições para continuar a governar o País. O PSD, que foi atacado por todos os lados, teve razão no essencial. A 5 de Junho, os portugueses não podem compensar um primeiro-ministro que nos levou ao desastre, que nunca negociou com ninguém, que ocultou a verdade, que tentou transferir as suas responsabilidades para os adversários, que transformou em propaganda irreal todos os problemas que Portugal enfrentava.

É muito simples, está na altura de mudar.

Uma analogia futebolística

O PSD tem obrigação de vencer as próximas eleições, não por causa do PSD, mas por causa do País.

Nunca foi tão urgente derrubar uma situação. O partido que nos levou à bancarrota e à condição de pedintes internacionais, o Partido Socialista de José Sócrates, quer agora escapar à sua responsabilidade. As frases de Eduardo Catroga são "caluniosas" e "inqualificáveis", diz um dirigente socialista. Mas se o país chegou a este ponto, não foi um fartar vilanagem? Desemprego histórico, dívida pública histórica, a duplicar em meia dúzia de anos, o descalabro financeiro nos ministérios, nas autarquias, nas empresas públicas; a incerteza total sobre quem vai pagar as contas, sobre se haverá salário e emprego, mais a humilhação de sermos forçados a engolir um plano de austeridade imposto de fora, sem margem de manobra para quem vencer as eleições. Só nos dão o dinheiro (e por favor) se concordarmos, antes da votação, com tudo o que a troika decidir.

A União Europeia estilhaça o espírito e a letra dos tratados europeus, mas essa é outra história, uma factura que Bruxelas pagará mais tarde.

 

Para já, o essencial é que o País precisa de mudar e é necessário que os cidadãos ignorem a batota mediática. A realidade é torcida para que se pareça com o mundo alternativo que José Sócrates criou nos últimos seis anos e que nos levou a este descalabro. Os comentadores repetem mil vezes meias verdades distorcidas, demonizando a oposição, pegando em detalhes insignificantes para ocultar o essencial, que é o estado calamitoso da economia e o nosso afundamento financeiro.

 

O eleitor deve fazer uma primeira pergunta: "Como é possível que o país esteja nesta situação e de quem é a responsabilidade?"

E a resposta parece-me simples: houve um fartar vilanagem que beneficiou uns quantos, venderam-nos ilusões e governaram-nos mal. No mínimo, o Governo foi incompetente.

A segunda pergunta do eleitor deve ser "quem nos pode tirar do buraco?"

E nessa resposta será necessário escolher entre dois: entre quem nos lançou para lá, os socialistas, ou quem tentou evitar o colapso, a direita. 

Muitos portugueses vão votar nos partidos de protesto, mas julgo que desta vez é melhor para o País que a direita vença as eleições. E, na direita, o partido que pode formar governo estável é o PSD. Será preciso credibilidade, sensatez, mas sobretudo verdade e mudança. Quanto mais fraco for o PSD, mais instável a situação a 6 de Junho.

Quando os media nos distraem com pequenos incidentes estão a tentar enganar-nos. Tentam criar uma ideia de que os políticos são todos iguais, o que é mentira. Tentam demonstrar que um governo de direita seria fraco e inútil, o que é outra mentira. Por vezes, caem em contradição, juntando o argumento da fraqueza ao da destruição do Estado social (eles seriam pouco eficazes e capazes ao mesmo tempo).

 

O que se passa na política portuguesa tem uma analogia futebolística: uma das equipas tenta enervar a outra, derrotando-a com truques de cabaret; os jogadores lançam-se para o chão e fingem-se vítimas de agressões; a força da gravidade é especialmente forte na grande área do adversário; há anti-jogo e falta de ética; no fundo, pouco futebol para mostrar e muito teatro. A certo ponto deixa de haver jogo, só há provocações e picardias, como se diz em futebolês, só há incidências.

Mas o público deve exigir aos jogadores que joguem segundo as regras e aos comentadores que não favoreçam sempre o mesmo, a equipa que faz mais batota e que tem os árbitros do seu lado.

Num jogo de futebol, o resultado é sempre mais ou menos irrelevante. Haverá outra taça, por isso a analogia não funciona totalmente. No confronto político, o que está em jogo é o nosso futuro, o que é bem mais sério. Desta vez, estaremos a votar entre a continuação da nossa ruína e uma pequena esperança de reconstrução.    

 

O pântano das ilusões

O País está a viver uma crise sem precedentes e prepara-se para aceitar condições que o vão transformar durante anos num protectorado europeu. O grupo que está em Lisboa a negociar um resgate imporá o programa do próximo governo. É disso que se trata: as condições do empréstimo implicam regras duríssimas, que começam a ser reveladas a pouco e pouco.

Ao mesmo tempo, os chamados "senadores" da república falam em concórdia, convergência, união entre partidos. E algumas das condições que nos serão impostas obrigam a revisões constitucionais.

Nunca houve em Portugal uma tal perda de direitos para a população e destruição tão radical do Estado social, que é uma conquista recente. E corremos risco sério de sermos obrigados a reestruturar a dívida.

As uniões partidárias para adiar a discussão são isso mesmo, um adiamento. Não devia ser este o momento para enfrentarmos os nossos problemas? Não quero concórdia, quero verdade. Não quero santa união, quero mudança.

Devemos fazer a mesma famosa pergunta que fez Ronald Reagan aos eleitores americanos: "Estão melhor do que há quatro anos?". Para nós, o exercício de memória ainda é mais fácil, ainda não passaram dois anos desde a última eleição.

 

A taxa de desemprego em Portugal atingiu o valor recorde e continuará a crescer. O endividamento do Estado não tem paralelo com o que aconteceu na nossa História, incluindo quando caímos em bancarrota, em 1892. Veja-se o gráfico neste post de Álvaro Santos Pereira, em Desmitos, como a curva subiu nos últimos seis anos.

A responsabilidade do descalabro é do actual governo e do primeiro-ministro José Sócrates, que não ouviu os avisos que lhe deram os seus próprios ministros, que levou o país para a ilusão do seu próprio mundo virtual. Era tudo uma ficção, uma narrativa retórica, demagógica e falsa.

 

Mas para Sócrates toda a responsabilidade continua a ser da oposição, do PSD, dos radicais, de todos os que não compreenderam a grandeza da sua visão. E continua a fazer afirmações sem uma dose de verdade, de que resiste ao que nos querem impôr, que sempre tentou negociar com toda a gente.

Em vez de se reconhecerem os erros, a estratégia de campanha socialista será mergulhar ainda mais na fantasia, fazer a fuga para a frente. Culpar sempre os outros e sacudir a água do capote. Este era o Portugal dos Magalhães, das novas oportunidades, dos TGV para lado nenhum. Agora, o país afunda-se e Sócrates gaba-se da obra que nos levou para o fundo. Onde já se viu algo assim? Quem nos atirou para o buraco tem condições para nos tirar dele?

 

Nesta conjuntura, quando o País precisa de mudança, o PS assusta os portugueses dizendo que a mudança urgente é "aventura". Talvez funcione e os socialistas vençam as eleições, mas esse desfecho seria alargar o pântano, através de uma mentira final, na sequência de uma longa dose de mentiras que nos fizeram viver a ilusão mais ruinosa de sempre.

Os dias do fim

Ia escrever apenas sobre a sondagem publicada aqui, no Diário Económico, mas depois li os comentários, alguns de pessoas estupefactas, outros quase infantis, tipo Benfica-Porto (toma, embrulha, levas 5).

Se este fosse o resultado eleitoral, o PS vencia, com 36%, contra 35% do PSD. A direita teria apenas 43%, pouco mais do que teve em 2009. A única solução de Governo seria um bloco central liderado por José Sócrates.

O resultado da sondagem (ou barómetro), e vamos admitir que as eleições daqui a 45 dias davam estes valores, tem um dado preocupante: 10% dos inquiridos garantem que vão votar em branco. Não há memória de tal irritação dos eleitores; seria um nível de brancos dez vezes superior ao normal. Aliás, se é como se diz no texto, então existe um pequeno problema: a soma das percentagens dá 103%, já que os brancos não se distribuem.

 

Mas demos os valores como certos. O PS sobe 11 pontos percentuais no mesmo mês em que Portugal sofre a pior perda de soberania de que há memória em 190 anos. Ao fim de seis anos de erros crassos, de descalabro económico e financeiro, o governo de José Sócrates sobe nas sondagens. Mas não por um ponto ou dois, sobe 11 pontos de uma vez. A tendência é clara.

Não há desemprego recorde nem falências em massa. Está tudo a correr bem.

O maior partido de oposição, que apresenta uma possibilidade mínima de mudança, desce 12 pontos percentuais em relação ao barómetro anterior, isto no mês em que entra o FMI/FEEF/BCE, em que o país não tem dinheiro para pagar salários, no mês da humilhação colectiva.

Se o eleitorado português votar desta maneira, teremos um bloco central liderado por José Sócrates, que tem péssimas relações com os líderes da oposição, com o Presidente da República, com os seus ministros mais importantes, com as vozes dissonantes do PS. Ou seja, o político que não negoceia com ninguém vai chefiar a grande coligação no momento da maior crise nacional desde 1975.

Acham que há condições para um bloco central liderado por Sócrates?

Esse governo terá de durar quatro anos, ao fim dos quais Portugal estará definitivamente lívido e derrotado, transformado num protectorado europeu e num paraíso do socialismo.

Nessa altura, aparece no PSD um Santana Lopes qualquer, um dos que ajudaram a eleger e reeleger Sócrates, a dizer que tinha imensa razão. 

Isto está muito perigoso.

Os resultados das eleições finlandesas são um verdadeiro balde de água fria para o projecto europeu. Na verdade, os nossos queridos amigos finlandeses votaram esmagadoramente num partido xenófobo, que fez do ataque a Portugal o seu programa principal. E os Verdadeiros Finlandeses subiram em consequência de 5 lugares para 39, quase multiplicando por 8 o seu grupo parlamentar. É verdade que ficaram em terceiro lugar, mas perante a proximidade dos quatro maiores partidos é manifesto que se tornaram decisivos na política finlandesa. 

 

Na França, Marine Le Pen, apresentando um discurso xenófobo, vai igualmente de vento em popa, sendo que todas as sondagens a dão na segunda volta das presidenciais. Por esse motivo, o Governo francês parece desnorteado, primeiro decidindo, em clara violação dos Tratados Europeus, encerrar a circulação ferroviária com a Itália, para depois a retomar logo que surge uma manifestação de protesto.

 

E perante isto as instituições europeias não se mostram capazes de defender os Tratados e muito menos de assegurar a coesão entre os cidadãos europeus. Como bem salienta abaixo o António Figueira, é absolutamente espantoso que a proposta do FMI seja melhor para Portugal do que a proposta da Comissão. A única conclusão a retirar disto é que as instituições comunitárias andam a reboque de alguns Estados-Membros, deixando assim de defender o interesse geral da União.

 

Não admira por isso que em Portugal se multipliquem declarações a apelar à "greve à democracia" e ao "retorno ao sonho do PREC". São declarações absolutamente irresponsáveis, mas podem causar enormes danos à credibilidade do sistema político. Os eleitores podem de facto começar a perguntar-se de que servem as eleições em Portugal se o facto de terem ou não ajuda externa está é dependente do voto dos eleitores finlandeses. Ou as instituições, tanto europeias como portuguesas, começam efectivamente a olhar para esta situação ou arriscamo-nos a entrar num terreno muito perigoso.

Sísifo, a arbitragem e o campo inclinado

Em eleições democráticas deve ser dada a todos a oportunidade de poderem dizer de sua justiça. Não estou a falar dos tempos de antena, em que existe igualdade ao segundo, mas dos critérios jornalísticos que fazem passar à opinião pública as verdadeiras posições dos partidos de poder, dos partidos de protestos, dos partidos que não vão entrar na Assembleia, cada um destes patamares tratado de acordo com a sua importância relativa, mas de forma justa para formações semelhantes.

Isto é a teoria, já que a nossa democracia é um pouco estranha e a direita do poder sempre teve um trabalho de Sísifo pela frente.

Apesar de tudo, nunca vi nada parecido com o que se está a passar nesta pré-campanha. Abro a televisão e todos os dias, a horas de grande audiência, vejo um ex-dirigente do PSD com meia hora ou 40 minutos de tempo de antena a fustigar a direcção do seu partido. É um por dia: Luís Marques Mendes, Marcelo Rebelo de Sousa, José Pacheco Pereira, Pedro Santana Lopes, Nuno Morais Sarmento.

Marcelo é um caso à parte, de invulgares qualidades mediáticas, e Marques Mendes critica muito mais os socialistas, mas existe aqui um padrão que convinha fazer reflectir os eleitores. E, a meu ver, esse padrão parece perigoso.

 

As pessoas citadas são todas militantes de um partido e ex-dirigentes insatisfeitos com a actual direcção; nenhum deles tem qualquer papel previsível no próximo ciclo, pelo que os seus comentários "desinteressados" fazem parte de agendas políticas próprias. Apesar disso, nunca são questionados pelos moderadores sobre essa agenda. Pacheco Pereira, para citar um exemplo, revelou um SMS interno do grupo parlamentar do seu partido (ainda por cima inócuo e em termos que falseavam o conteúdo) sem ser desafiado pelo jornalista de serviço a explicar por que o fazia.

O ponto é o seguinte: livres de dizerem o que quiserem sem terem de o explicar, passam por "comentadores" políticos, sendo na realidade políticos activos. Estes políticos activos nunca são verdadeiramente questionados pelos moderadores, como acontece (e bem) quando surge na antena um político ligado à direcção do partido.