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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Gonçalo M. Tavares

 

"Uma Viagem à Índia" venceu o Grande Prémio de Novela e Romance da APE. Esta brilhante epopeia, já tinha ganho o Prémio de Melhor Narrativa Ficcional da SPA e o Prémio Especial de Imprensa "Melhor Livro 2010 Ler/Booktailors". O autor é Gonçalo M. Tavares, escritor de 40 anos, com livros publicados em todo o mundo e com prémios conquistados em muitos países, como o italiano "Prémio Internazionale Trieste" em 2010 e o francês "Prix du Meileur Livre Étranger", também no ano passado.

Desde que li o "Jerusalém" que percebi que a escrita de Gonçalo M. Tavares era algo de excepcional, acessível a poucos escritores. Infelizmente, desde 2004 até agora, este autor continua, no nosso país, menos conhecido do que merecia. Mais prémios virão certamente, esperemos que mais leitores também.

O segredo de Miguel Zuzarte

A RTP exibiu uma série muito interessante, “O Segredo de Miguel Zuzarte” (na imagem), baseada no romance homónimo de Mário Ventura (1936-2006). Não quero comentar os méritos da adaptação: pareceu-me tudo excelente, sobretudo o actor principal, Ivo Canelas, num papel complexo, que o forçou a uma contenção extrema, seguida de momentos de quase loucura. A ideia de Mário Ventura é fantástica. Trata-se da história de um telegrafista de uma aldeia remota, que ao saber da implantação da República, nega a informação a todos os outros habitantes. Durante alguns dias, ele esconde um terrível segredo, num absurdo adiamento do inevitável.

O autor não se limitou a contar uma boa história, mas neste livro expôs um pedaço da alma portuguesa. Miguel Zuzarte usa o seu poder para ocultar informação que interessa a todos, julgando assim iludir a realidade. Ele luta contra o tempo, engana toda a gente, acaba derrotado e só, perdendo tudo. Sobretudo, o seu gesto não altera nada. A realidade chega sempre; devagar ou com a força de uma enxurrada, caso a tentem impedir.


Miguel Zuzarte simboliza esta tendência nacional de não ter a coragem do confronto com a realidade. A monarquia constitucional caiu nesse pecado nos últimos vinte anos da sua existência. Enquanto cresciam os problemas, os dirigentes enterravam a cabeça na areia. O adiamento resultou, em 1910, numa perturbação que reformas corajosas poderiam talvez ter evitado. O mesmo se pode dizer da Primeira República e do regime autoritário que caiu em 1974. Perante uma guerra colonial que o país já não podia sustentar, os dirigentes optaram pela hesitação que os levou ao colapso. Afinal, era muito mais arriscado não agir.

O Portugal onde vivemos não é diferente. O Governo actua como Miguel Zuzarte, recusando informar o povo da verdadeira dimensão dos problemas. Não há dúvida de que é impossível impedir o inevitável choque com a realidade, mas tenta-se prolongar o conforto tépido da ignorância, nem que seja por mais uns dias. O pior aspecto desta ilusão, o mais patético, é o medo paralisante da verdade. Chega-se a tal ponto no delírio, a mentira instala-se de tal forma, que as pessoas ficam surdas a qualquer sugestão de uma realidade alternativa. Dizer a verdade torna-se perigoso.
 
As comédias clássicas do cinema português tinham este tema recorrente: um amor entre casais de classes diferentes; depois, uns que fingiam ser o que não eram; e o desenlace, acertando-se os amores, garantindo a harmonia social, após muitas peripécias em que se esclareciam e perdoavam os enganos. É um pouco a nossa história contemporânea, a ilusão do palacete emprestado e do falso mordomo, que é afinal um amigo com muita lábia (sempre António Silva) e que concebeu o esquema para enganar a tia rica, que mandava dinheiro da Europa para o curso que o menino nem começou.
De repente, a tia vem fiscalizar a despesa e os credores estão à porta. Isto não é uma metáfora. Após 30 anos a receber subsídios europeus a uma média de 3% do PIB em cada ano, acumulando desperdícios e problemas, chutando para canto e disfarçando as misérias para debaixo do tapete, Portugal encontra-se no momento da verdade, à beira da falência, moral e financeira. Endividado, com um modelo insustentável, incapaz de cumprir os seus compromissos. Mas, ao escutarmos os dirigentes e as elites, só ouvimos que este não é momento certo para dizer a verdade, pelo contrário, temos de prolongar a mentira, talvez por mais um dia ou um ano, talvez mais dois.

 

Agora ou mais daqui a bocado, acabará inevitavelmente a fase dos enganos e entraremos no desenlace. Só que como já não vivemos no Pátio das Cantigas, torna-se duvidoso que haja perdão fácil ou que tudo acabe em harmonia social.