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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Crónicas do Demo X

Estes são dias propícios a “dar sarrabulho” do grosso. Entre Mira e Deus, entre Deus e eu. E o Mira que foi de vacaciones sem cuidar das questões da euroregião. Foram cinco dias num verdadeiro 31 armado num albergue galaico-duriense. No meio, que não a virtude, uma maravilhosa visita a Ponte da Barca seguida de um almoço supimpa onde não faltaram as vitelas (versão costeleta e naco) regadas a verde branco por via da apresentação do Folk Celta 2011.

 

Agora imaginem o que aconteceu a esta alma caridosa. Entalado, salvo seja, entre o meu cliente e o cliente do meu cliente tão perto estava da galicia e eis que o meu companheiro da destra decide dizer mal dos portuenses. Uma coisa sinistra.

 

- Eu não gosto da malta do Porto. A terra até é agradável, o Porto é bonito. Já o seu povo, não gosto; afirmou o homem entre duas garfadas e um gole de verde.

 

Fiquei sem pinga de sangue. Ao meu lado esquerdo, o meu cliente entupiu esboçando um sorriso de ocasião (a seu lado, a sua colaboradora ria enquanto olhava a minha cara, se bem percebi). Eu estava no ponto. Tal e qual o açúcar a transformar-se em caramelo.

 

- Não gosto. Reparem, eles compram casas velhas em Vilar de Mouros e depois de as recuperarem, viram costas à nossa terra. Fechados entre muros nem na mercearia fazem compras, trazem tudo do Porto. Do Norte shopping; rematou.

 

Eu, portuense de nascimento, fiquei possuído. Olha-me este bacano a generalizar com a mesma facilidade com que engole o muralhas! Eu, filho adoptivo das terras do demo, aqui sentado nesta mesa mirando os novos pinheiros da serra da aldeia de Sendim, vulgo eólicas, que faço compras no el corte inglês de Paredes da Beira, onde a D. Laura nos vende uns queijos frescos que são a inveja da loja gourmet do outro corte do inglês e aqui perdido de amores por estes figos xxl do Toninho de Vale de Penela, sim, eu, que mal fiz a Deus para merecer semelhante afronta? Bem sei, meu caro Deus, que essa coisa dos Galegos do sul foi uma maldade e que o Mira não fez a coisa por menos. Porém…

 

Passei-me. Confesso. Olhei nos olhos do comensal vizinho de circunstância e expliquei-lhe, com subida educação, que as generalizações resultam sempre mal. Que os portuenses, tal como os lisboetas e sem esquecer os nascidos em Ponte da Barca são todos parecidos, a diferença está entre aqueles que beberam chá em pequeninos e aqueles outros cuja chá é parente distante, assim uma espécie de primo afastado, muito afastado.

 

Sem esquecer que o famoso queijo fresco da D. Laura existe e recomendo. Esperando, sinceramente, que lá para os lados de Vilar de Mouros, terra de enorme graciosidade, exista uma qualquer D. Laura com o mesmo saber e esmero.

 

 

Vale de Penela, 17 de Julho de 2011

Crónicas do Demo IX:

 

Um grupo de apaixonados do Douro acompanhados de jornalistas (Lusa, JN, Porto Canal e Escape) percorreram o Douro entre o Pocinho e Barca d´Alva, terminando a viagem com uma visita ao magnífico Museu do Côa.

A convite do Manuel Vaz e na companhia de Ricardo Magalhães (Missão Douro), António Martinho (Turismo Do Douro) e Gustavo Duarte (Presidente da Câmara Municipal de Foz Côa) tive o grato privilégio de passar um dia de Sábado absolutamente maravilhoso. O Douro merece uma visita prolongada e equipamentos como o Museu do Côa são fundamentais para a região. Um território maravilhoso, com paisagens de cortar a respiração e senhor de uma gastronomia excepcional.

 

 

O Douro não é só “Vinho do Porto”. É paisagem natural, é gastronomia, é património e é, cada vez mais, destino turístico de excelência. Apenas precisa, o que não é pouco, de mais e melhores infraestruturas rodoviárias e de apoio ao turismo (hotelaria, restauração, comunicação, cultura e lazer). O trabalho desenvolvido nos últimos anos merece o nosso aplauso e incentivo. A Missão Douro, o Turismo do Douro, algumas autarquias e inúmeros empresários e investidores privados estão a fazer um esforço digno de registo. Não posso deixar de salientar os empresários portugueses e estrangeiros que investem na vinha e no turismo e quero aqui sublinhar homens como o Rui Paula (DOC) e o Mário Ferreira (Douro Azul) cuja paixão pelo Douro os fez investir quando poucos se atreviam a arriscar.

A mesma paixão que vi nas palavras de Ricardo Magalhães, António Martinho e Gustavo Duarte, este último Presidente da CM de Foz Côa e um dos novos  autarcas visionários do Douro que sabem a importância do turismo para o desenvolvimento económico e social da região.

O vinho predomina no Douro mas o olival terá, necessariamente, de ser a aposta dos próximos anos permitindo reduzir a dependência da região de um só produto. Acresce o Turismo e a Cultura (Manuel Vaz e o seu Douro Film Harvest são disso exemplo). O Museu do Douro, o Museu do Côa e os inúmeros eventos culturais das diferentes autarquias da região devem funcionar em rede e a aposta na comunicação, em especial na Comunicação 2.0, permitirá uma rápida afirmação da região como um dos melhores destinos turísticos da Europa.

É necessário e fundamental que as diferentes autarquias da região do Douro se unam, a exemplo da sua região demarcada, e deixem de remar cada uma para o seu lado. Só dessa forma, com o apoio da CCDRN, conseguirão afirmar o Douro.

 

 

Por último, um apontamento gastronómico: Umas soberbas migas de peixe, seguidas de umas memoráveis migas de espargos e um estufado de javali tudo devidamente regado a maduro branco e tinto do Douro e um remate final a cargo de um pudim de amêndoa. O paraíso!

Crónicas do Demo VIII:

 

 

 

 

O telefone tocou.

Era a minha sogra. Ela falou com a filha. A filha falou comigo. A coisa resumidamente era assim: uma amiga recebeu de prenda de anos dos netos um gato. O bichano não se adaptou por causa do cão do vizinho. A senhora estava desesperada. Alguém teria de ser o Cristo e adoptar o animal. Enfim, venha.

 

E veio. Eu que sempre tivera gatos e que me orgulhava de os conhecer como a palma das minhas mãos estranhei a personalidade deste. O tipo não miava. Por tudo e por nada saltava como se fosse uma cabra. Juro! O tipo saltava na vertical e caia na vertical com as quatro patas esticadas e hirtas. Uma coisa de outro mundo. Além disso, não gostava de sair de casa. Estranho. Ao fim de alguns meses aprendeu a miar (não me perguntem como). Mais tarde começou a ganhar coragem para sair de casa. As refeições eram um martírio – os gatos são uns lordes na hora de comer mas este ultrapassava todas as regras conhecidas. Só comia ração e não era uma qualquer.

 

Um gato que tinha medo de tudo era corajoso com os cães. Desconfio que se vir um rato ele foge a sete pés mas quando vê um cão faz-lhe frente como se fosse um leão. Um misto de coragem e parvoíce. O certo é que as minhas cadelas respeitam-no. Simpatia minha, é medo, essa é que é essa.

 

Ao fim destes anos, o gato já leva quase oito anos aqui em casa, continua a surpreender-me. Fiquei a saber que o tipo não gosta de peixe. Um gato que não gosta de peixe! Onde já se viu semelhante. A minha mulher já me tinha dito mas não acreditei. Carinhosamente, hoje, fiz-lhe um prato com pequenos bocaditos de peixe fresco e coloquei-lhe na frente. O tipo olhou para o prato, cheirou-o e a seguir olhou para mim com aquele ar como quem diz: “Ó pá, és parvo? Não sabes que eu não gosto de peixe?”.

 

Olha-me este! Se calhar queria uma picanha suculenta e uma caipirinha. Francamente, a tradição já não é o que era. Até os gatos estão diferentes. Vou perguntar ao Al Gore pois cheira-me que este meu gato está apanhado pelas transformações climatéricas. É ele e o nosso Primeiro…

 

 

 

 

a 144 quilómetros de Vale Penela, Janeiro 2011

Crónicas do Demo VII:

 

O Estranho

 

O estranho adoro este frio. Gosta de ver a fogueira a arder com as castanhas que eles vão comer. Quando lhe falam em castanhas, blasfémia, ele passa. Pode comer uma ou outra mas não é coisa que o entusiasme. Aqui nesta terra do demo não é só o maduro tinto da Quinta do Soque que faz as delícias dos forasteiros, a castanha é pitéu muito apreciado. São grandes e carnudas. As castanhas.

 

Eles estão ali em redor da fogueira e ele ali virado ao teclado com as mãos a gelar e um arrepio de frio a subir a espinha. (Que saudades deste frio). Eles conversam uns com os outros e a garrafa de tinto circula. O estranho está de auscultadores nos ouvidos (“Dust Lane” – Yann Tiersen) e Balvenie no copo. Eles não percebem. O estranho também não.

 

O estranho ama esta terra mesmo que os locais não acreditem: “ele não gosta do nosso vinho da pipa e prefere o engarrafado, recua perante um frango caseiro e passa a vida a tirar fotografias e a escrever no computador”. Eles respeitam o estranho e este admira-os. Só a mulher sabe o quanto ele ama esta terra que a viu nascer e, ela, embora orgulhosa, estranha ou não fosse ele um puro citadino para quem as aranhas e os imensos rastejantes autóctones são monstros mais assustadores que o Freddy Krueger.

 

Eles comentam a qualidade das castanhas e os males do tabaco apontando para o estranho sempre de cigarro na mão a rivalizar com o fumo da chaminé da casa da Felisbela. O estranho verifica que as garrafas de tinto da pipa correm velozes que nem gazelas e dá por si a pensar se não será essa a razão para a longevidade desta gente boa.

 

O estranho está a ficar gelado. É hora de levantar e caminhar para junto da fogueira. Sempre aquece um pouco e faz feliz a mulher.

 

Sou um estranho numa terra maravilhosamente estranha…

 

 

 

Vale de Penela, Novembro de 2010

Crónicas do Demo VI:

 

A Velha Senhora dos Prazeres

 

Dei por mim espantado perante aquele súbito quadro pitoresco saído de um qualquer filme italiano: “Prazeres” escrito na testa do eléctrico enquanto um jovem casal trocava um beijo apaixonado e meia dúzia de outros se divertiam a publicitar uma conhecida marca de gelados internacional.

 

Não fora o cansaço e porventura acharia a coisa um pouco pirosa ou, mais certo, nem me teria apercebido. Era o final de tarde de um dia cheio: Expo, Alcântara, Lapa, Santos e por fim Chiado. Sempre a correr depois de 300 quilómetros percorridos num abrir e fechar de olhos. Uma reunião aqui, outra acolá e uma estafa daquelas.

 

Naquele momento estava ali, em pleno Chiado, sozinho enquanto o companheiro de viagem se ausentara para mais uma “sessão de trabalhos” e eu esperava pela nossa última reunião do dia. Um pouco antes levara-o a pecar na nova Santini onde me perdi por três belas razões: Melão, Nata, Meloa. O Olimpo.

 

A esplanada da Brasileira parecia saber como estava estafado e a precisar de uma pausa na companhia de um Cimbalino – este meu vício de pedir cimbalino só para baralhar…

Olho em volta e dou de caras com aquele momento cinematográfico enquanto ao meu redor sinto o pulsar desta cidade, desta velha senhora com quem ando a fazer as pazes. Não sei se foi culpa daquele livro ou se mero acaso da vida mas aos poucos vamos conversando cada vez mais.

 

O meu velho burgo espera-me, ele que agora renasceu com as noites a transformarem-se em dias e a obrigar as suas filhas e filhos vizinhos a ganharem juizinho e perceberem quem é o Patriarca. O sempre meu. Nem mesmo, caro João, aquele arroz de entremeada com feijoca em Alcântara com o qual continuo a suspirar um “repeat” me fará afastar deste velho e invicto burgo. Mas na verdade, lentamente, vou-me conciliando com a velha senhora fruto dos prazeres com que me presenteia sempre que a visito. A matrona sabe-a toda. Só lhe falta a bruma que me recebe na madrugada do regresso.

 

No fundo, no fundo, são os prazeres que levamos desta vida.

 

 

a 144 quilómetros de Vale de Penela, Outubro 2010

 

 

Crónicas do Demo V:

Foi assim, tal e qual:

 

- Olha, a Mimi morreu.

 

- Quem? A Mimi? Qual Mimi? – Perguntei completamente a leste.

 

- A cadela da minha tia Inocência, a Mimi.

 

- A sério? Não me digas que telefonaram da aldeia por causa da Mimi.

 

Confesso que fiz a pergunta com um certo sarcasmo. Imaginar telefonarem das profundas do inferno por causa da morte da cadela, por muita estima que nós tivéssemos por ela, e tínhamos, não lembra ao careca.

 

- Não, não, soube através do teu Facebook.

 

- Cum catano! No meu Facebook? A morte da Mimi está no meu Facebook? Dass, por esta não esperava – aqui já estava a meio de um verdadeiro episódio do Twilight Zone!

 

- Foi a minha prima Elisabete que colocou a foto e um texto sobre a morte da Mimi. Foi atropelada, tu já viste? Atropelada! Já pareces a minha mãe, a cadela da prima Inocência morre atropelada e vocês espantados por causa do Facebook. Que falta de sensibilidade.

 

Meus caros imaginem vocês uma aldeia onde acaba a estrada, nos confins do Douro Sul, que recebeu água canalizada há pouco mais de uma década e onde só passa um carro quando o Rei faz anos (exceptuando no mês de Agosto). Mais, a Elisabete vive na Suíça e a tia da minha mulher chama-se Inocência.

 

Depois de tudo isto, não querem que eu fique espantado com a notícia da morte da Mimi, via Facebook, num post escrito na Suíça? Realmente, qual o espanto? O mundo está a ficar perigoso…

 

a 144 quilómetros de Vale Penela, Setembro de 2010

Crónicas do Demo IV:

Quem pensa que festas e romarias de “rebimbomalho” é só nas aldeias do interior está muito enganado.

 

Em pleno concelho da Maia, na sua freguesia coladinha ao Porto, de seu nome Pedrouços (local de excelência onde vive este vosso escriba) vão começar, já no dia 8 de Setembro, as “Grandiosas Festas em Honra de Nossa Senhora da Natividade”. Uma coisa de outro mundo! Só concertos são sete e num deles, dia 12, com nada mais nada menos que três ranchos. A minha filha fica maravilhada com os carrinhos de choque mesmo ao pé da porta, já para não falar das roulottes de farturas e algodão doce. O restante agregado familiar perde-se com o vinho novo e a chouriça assada.

 

O ponto alto das festividades é no Domingo, dia 12, com a “Majestosa Procissão em Honra da Padroeira” com, continuo a citar, “17 lindos Andores e Figurantes”. Ora, recordar é viver e eu lembro-me, como se fosse hoje, de um grande figurão amigo meu que uma vez fez parte dos “lindos figurantes”. O facínora, cujo nome não posso revelar, seguiu na procissão vestido de anjinho. A lata. Ele que fazia trinta por uma linha e nunca dizia não a uma boa partida, na qual se incluíam o toque a rebate das campainhas de todas as casas da Rua Gonçalo Mendes da Maia a altas horas ou a alteração dos diferentes sentidos de trânsito por tudo quanto era quelho de Pedrouços ou que dizer das suas aventuras em inúmeros estádios de futebol qual hooligan, vestido de anjinho na procissão? Uma coisa fantástica.

 

Obviamente, tudo se paga. A procissão é absolutamente solene e são milhares os crentes e curiosos que se juntam nas ruas de Pedrouços para ver os “lindos Andores e Figurantes” que durante mais de duas horas, a maioria das vezes sob um sol inclemente, circulam lenta e piedosamente pela freguesia. Impressiona ver boa parte do Povo a ajoelhar à passagem do andor principal e a fé que leva outros tantos a fazer um enorme sacrifício físico nesse dia. Mas, como dizia atrás, tudo se paga. Depois do infinito gozo que dei ao meu amigo, o figurão, calhou-me em sorte fazer a procissão em 2008. Por dever de ofício, todo engravatado e num dia de calor sufocante, tive de participar na procissão. Foram mais de duas horas, suando as estopinhas e com os meus ricos pés a gritar de dor enfiados nuns sapatos adequados à solenidade do momento. Os companheiros ao meu lado perguntavam: “Está tudo bem, Moreira de Sá” e eu respondia, com o meu melhor ar, “Tudo óptimo”. Pois sim. pior seria se estivesse vestido de "anjinho". Foi muito bem feito!

 

Mas voltemos às festividades em Honra da Padroeira. Imaginem, durante seis dias o ritual repete-se: “Alvorada com Salva de Morteiros”! E não, não vivo em Bagdad. Imaginem Vossas Excelências que às nove da madrugada de Sábado e, mais aterrador, pelas oito e meia da madrugada de Domingo são brindados com uma “Grande Salva de Morteiros”. Acreditem, quando eles anunciam “grande” não estão a brincar, a casa abana toda e juro que a minha cama se desloca uns bons milímetros – mesmo tendo presente que são sete arrobas, sem contar o peso da cama, que pulam a cada morteiro.

 

Estou certo que a Nossa Senhora da Natividade dispensava os morteiros mas quem sou eu para convencer a Comissão de Festas do contrário. Olhem, que siga a festa e apareçam por cá para beber um copo e comer qualquer coisa. É de 8 a 13 de Setembro.

 

 

a 144 quilómetros de Vale Penela, Setembro de 2010

Crónicas do Demo III:

Quando os encarnados marcaram o primeiro golo levantei-me do sofá e tomei uma decisão: vamos comer uma bifana à Conga.

 

A Conga é um pedaço de mau caminho. Um balcão corrido frio e nada acolhedor com vistas deslumbrantes para uma zona de churrasco e uma grande panela cinza a fugir para o preto onde borbulha um molho vermelho alaranjado no topo e acastanhado na alternativa piscina onde nadam os pedaços de carne de porco. Dentro do balcão circulam vários artífices munidos de pratos repletos de iguarias várias: pregos, codornizes – não sei o motivo mas nunca consegui comer uma codorniz – bifanas em pão ou em prato. O barulho produzido pelos clientes rivaliza com as vozes autoritárias vindas da sala de produção: “São cinco em pão, duas codornizes com molho e três doses de batata”. A partilha é de tal forma que não raras vezes o pedido é repetido para o chefe da panela pelos clientes ao balcão.

 

A Conga é um verdadeiro albergue espanhol onde cabem todos, sejam doutores ou lixeiros, jornalistas ou chulos. Uma vez entramos na Conga antes de uma ida ao Teatro S. João. Eu de fato e gravata e a minha parceira de vestido comprido. Um momento raro – para nós, não para a malta da Conga - detesto enfiar um fato e pior é ter de colocar uma gravata pois penso sempre “é desta que vou morrer asfixiado” ou que me vão confundir com o tipo do banco ou com algum deputado da Assembleia Municipal. Depois de três finos e quatro bifanas em “molete” sorvidas à mão eles perceberam que estranha era só a indumentária. A gula não escolhe hora.

 

Desta feita, a vestimenta era típica de verão e a peregrinação à Conga servia de desculpa para fugir à dieta imposta pelos excessos dos últimos meses – a continuar assim deixo de andar e passo a rebolar. Primeira contrariedade: estacionar perto. Uma surpresa e tanto: a baixa invadida de automóveis. Um Sábado? E início da noite? Que raio se passa? Avançamos pela cidade. Nos Aliados um palco servia de festa a uma conhecida rádio local. Um mar de gente. Na rua de Ceuta outro palco e mais um mar de gente. Nas imediações do Piolho o povo acotovelava-se por um espaço. Na Cordoaria outro palco e mais gente. Nos Clérigos já estava montada a tenda do costume: gente e gente e mais gente. Depois de várias voltas e inúmeras transgressões de trânsito (não digam nada, não digam nada) consegui enfiar a custo o carro num parque na rua de Ceuta. Pouco passava das 22h30!

 

 

No palco de Ceuta tocavam quatro bacanos com um ar marialva e castiço. Não percebi bem o nome, qualquer coisa tipo “Country Doce”. Seria? Bem, a música Country era o mote para o ajuntamento de povo em volta. A cerveja, as caipirinhas (cada vez mais uma bebida universal, mais uma exportação brasileira do melhor!) e a sangria rodavam a bom ritmo, ao ritmo do country lusitano. Os tipos mandavam pinta e eram verdadeiros animais de palco. O povo alinhava na festa e que festa. Uma velhota fresca que nem uma alface dançava e tanto dançou que deu um enorme trambolhão mesmo em frente ao palco – o riso percorreu Ceuta – mas sem consequências de maior e pouco depois voltou à labuta de dançarina de circunstância. Eram novos e velhos, crianças com os pais e estrangeiros de várias paragens a divertir-se como miúdos no recreio da escola. Um grupo de adolescentes apoiados por duas “bifas rasta” transformou aquele pedaço de rua num improvisado concerto estilo festival de verão com direito a delírio, encore e saída em ombros. A minha alma continuava parva.

 

Terminado o concerto fomos até à rua Cândido dos Reis para beber uma caipirinha que também somos filhos de Deus. Mal entramos deparamos com uma surpreendente escuridão e um barulho estilo sala de cinema da lusomundo. Povo, nem vê-lo. Um pouco mais à frente e com os olhos já habituados ao escuro pareceu-nos ver as costas de um enorme écran e uma multidão sentada. Era uma sessão de cinema ao ar livre. Já munidos de duas caipirinhas (um pouco ranhosas por sinal) ficamos por ali entretidos com um olho na tela e outro no mar de povo concentrado por aquelas bandas. Olhamos um para o outro espantados com tal vitalidade da nossa cidade.

 

Pouco passava da uma quando resolvemos regressar a casa. A meio do caminho olhamos para um cartaz que dizia “Verão é no Porto” da autoria da Porto Lazer E.M. Está explicado. Quem diria, o nosso Porto está lentamente a renascer das cinzas.

 

 

a 144 quilómetros de Vale Penela, Agosto de 2010

Crónicas do Demo - II:

 

 

 

O palco estava montado no largo da Aldeia. Uma espécie de tela estilo LCD da moda piscando cores: azul, vermelho rosado, verde, outra vez azul. Um rapaz novo agarrado ao microfone imitava o Quim Barreiros e a problemática gastronómica do bacalhau da vizinha. Uma rapariga baixota dançava com alguma dificuldade fruto de uns tacões desafiadores da lei da gravidade e de um vestido cinza metalizado brilhante que teimava em subir, subir, subir para alegria da rapaziada presente. Ela cantou (?) numa das músicas e que bela voz para arrastar móveis.

 

Estando o palco de costas para a Igreja podemos concluir que a Santa da aldeia não conseguia ver o desenrolar do bailarico. Não foi por acaso. O bom povo, fino, entendeu por bem colocar a Santa a salvo dos olhares nada castos dos basbaques pendurados nas garrafas e babados que estavam pelos trejeitos de montanha russa do vestido da cantante (?), um sobe e desce destapando as coxas e mostrando um pouco mais. As francesas e as fransuguesas aperaltadas nos seus melhores vestidinhos e dotadas de generosos tacões e atrevidos decotes – nalgumas o umbigo espreitava e os seios gritavam como que a querer sair de semelhante aperto para deleite da rapaziada e espanto das senhoras prendadas da terra. Os machos emborcavam cerveja com os olhos a brilhar com semelhante festim. Em matilha, andavam de um lado para o outro, entre risos matreiros e piadas de gosto duvidoso que provocavam um ruborizar de face nas meninas da terra e um piscar de olho desafiador nas matronas circundantes estilo “o que tu queres sei eu”.

 

Na improvisada pista de dança de paralelo granítico dançavam eles com elas e elas com elas. Os mais velhos de braço direito em riste, qual saudação nazi, arrastavam as esposas numa espécie de “paso-doble” misturado com maduro tinto. A proeminente barriga deles, pendurada em pernas magras e esguias, contrabalançava com o aspecto anafado e baixote delas. As raparigas novas dançavam umas com as outras sob o olhar atento das mães e um certo ar de desprezo do restante mulherio. Não é difícil perceber algo: estava oficialmente aberta a época de caça.

 

A rapaziada presente dividia-se em duas castas: a local, de aspecto macho rude com as mãos e as faces marcadas pelo trabalho duro e mal remunerado e a "deslocada", vinda das profundezas de França, Alemanha e Suíça, com umas camisolas estranhas e de cores berrantes e o cabelo pintado (de louro que nem nórdico ou com madeixas a exemplo da Maria das Dores, a filha mais velha dos Soares da aldeia). Estes faziam furor nas rapariguitas da terra e os outros jogavam ao gato e ao rato com as “meninas de fora” e aqui o “fora” com duplo significado, se me faço entender.

 

É Agosto e as nossas aldeias submergem de uma certa escuridão com uma população que triplica e um odor quase cosmopolita que lhe é estranho. É tempo dos saltimbancos da música popular, das festas e bailaricos, das mines e das febras de porco caseiro e do presunto guardado com dedicação e esmero. Do regresso esporádico a casa dos filhos e netos que lutam pela vida lá fora e arriscam, todos os anos por esta altura, a uma morte estúpida nas estradas pelos excessos: de cavalos, de quilómetros sem parar e de algum álcool à mistura quando andam por aqui a uma velocidade inacreditável.

 

Foi quase meia hora de novela, ao vivo e a cores. A minha filha queixava-se da não existência de um carrossel ou uma simples barraca de farturas. Mais uns anos e quer lá saber dos carrosséis, para angústia e saudade dos pais. Não há festa como esta…

 

 

Vale de Penela, 22 de Agosto 2010

Crónicas do Demo I

 

 

 

Escrevo estas linhas chicoteado por uma "brisa" vinda do Marão. O termómetro marca 10º graus. E pensar que ontem apanhei um escaldão neste mesmo alpendre. O tempo está como a bolsa, incerto. Ou como a crise, pela hora da morte.

 

Mesmo assim, um grilo consegue cantar enquanto ao longe os cães ladram, mesmo não passando nenhuma caravana. Depois de vários dias a contemplar as estrelas e a conseguir ver os contornos nocturnos  da Serra de Sendim hoje apenas consigo verificar que a aldeia de Sendim está a crescer. Quer dizer, pelo menos em número de luzinhas na escuridão. Sinais de um progresso que enriquece a empresa de Mexia.

 

Lá longe, o sino da Igreja de Riodades comunica-nos que são 22h ao som do 13 de Maio. Modernices. A invasão das eólicas continua em marcha, qual manif da CGTP, marcando a paisagem nocturna com piscadelas vermelhas. No alto de Sendim já se marcam novos quadrados de terra remexida, ameaçadores, em linha recta com estas bandas. Dizem-me que são os pontos das novas torres de alta tensão que serão pasto para eólicas a nascer na zona. Só espero que não me passem por cima da cabeça.

 

Sinto as costas geladas e rogo pragas ao maço de Marlboro que me obriga a semelhante desdita. Mas escrever sem nicotina não consigo. Uma rã ou um sapo – não, Jonas, não vou falar mal do teu – que citadino como eu não distingue, junta-se à cantoria da noite gélida. O grilo, o sapo ou rã, os cães e um conjunto de sinfonias animais que não sei nem quem são, nem quantos são (e nem quero imaginar se estão perto de mim) acompanham-me. Isso e o ressonar da minha cadela, o animal mais preguiçoso que conheço.

 

Mais duas passas no Marlboro e um gole de escocês e desisto. Já nem sinto os dedos com tanto frio.

 

 

Vale Penela, Junho 2010