Não percebo a surpresa com que tantos têm encarado as comoções e peripécias no Bloco de Esquerda. O Bloco de Esquerda é comunista e isso diz tudo; o ser mais ou menos desta ou daquela freguesia ideológica releva para pouco ou nada.
São comunistas e basta. Não há surpresas nenhumas.
Devia haver limites para o cinismo político e a duplicidade moral na forma como os partidos portugueses analisam os acontecimentos internacionais. Mas na perspectiva do PCP, pelos vistos, não há. Na Soeiro Pereira Gomes continua a prevalecer a regra maquiavélica: há que pôr de lado qualquer escrúpulo de consciência no apoio aberto aos tiranos de estimação. Sabendo do que a casa gasta, mesmo assim foi com espanto que li na edição do Avante desta semana a defesa despudorada da ditadura líbia em duas páginas dedicadas ao noticiário internacional. Enumerando as revoltas que se registam no mundo árabe, o jornal oficial dos comunistas portugueses assinala as «movimentações de massas» que «alastram» por todo o Magrebe e Médio Oriente, «de Marrocos a Omã, contra os regimes políticos vigentes e por melhores condições de vida».Mencionam-se estes países: Argélia, Bahrein, Marrocos, Iémen, Omã, Koweit, Arábia Saudita, Iraque e Egipto.
E a Líbia? Pois aqui é ao contrário. Títulos desta mesma edição do Avante: «Não à agressão imperialista na Líbia»; «Líbia cercada pelo imperialismo»; «Ingerência comprovada»; «Comissário demarca-se de posição sobre Líbia». O semanário do PCP vibra com as revoltas árabes em toda a parte menos no país do coronel Kadhafi, à revelia de quase toda a comunidade internacional. Garante que a oposição ao ditador líbio é instrumentalizada pela CIA, indigna-se por ver «as afirmações de Kadhafi continuamente deturpadas» nos órgãos de informação ocidentais e alerta na primeira página: «A NATO procedeu a exercícios militares no Mediterrâneo».
Ponho de parte esta prosa repugnante, que por algum resquício de pudor surge sem assinatura no jornal do PCP, e abro a edição internacional do Independent. A manchete, assinada por Kim Sengupta, enviado especial do jornal britânico a Ras Lanuf, submetida a raides da aviação de Kadhafi, diz quase tudo: «Why won't the world help us?'». E releio a análise de Lluis Bassets publicada quarta-feira no El País, significativamente intitulada «Contra Kadhafi, guerra justa». Destaco isto:
Poderia recomendar este texto excepcional ao jornal dos comunistas portugueses, assumidamente pró-líbio. Mas não vale a pena: vigora ali a mentalidade da Guerra Fria e a veneração ilimitada aos ditadores de esquerda. Cometa Kadhafi as atrocidades que cometer, será sempre ali enaltecido. Que outra coisa seria de esperar de um partido e de um jornal capazes de elogiar o carcereiro da Coreia do Norte, Kim Jong-il?
Na perspectiva do PSD, é ainda muito cedo para ir para o Governo. E é fácil votar contra a moção de censura que o Bloco de Esquerda diz que apresentará a 10 de Março. Quem deixou passar o Orçamento do PS ainda há tão pouco tempo não pode vir de repente derrubar o Governo. E o primeiro relatório de execução orçamental só chega no fim de Março, depois da apresentação da moção de censura.
Ao PSD basta pois afirmar o seguinte: a avaliação do Governo só pode ser feita depois daquele relatório; até lá, o Governo mantém-se. O PSD ganha assim em credibilidade - respeitando o compromisso implícito na passagem do Orçamento - sem que com isso deixe que seja colado ao PS - a reprovação da moção de censura é apenas um "benefício da dúvida" concedido ao PS, não é nenhum voto de confiança.
A moção de censura bloquista é, nas certeiras palavras de Ferreira Fernandes, apenas mais um caso da "luta privada entre o BE e o PCP" que não passa de um "dos grandes e inúteis dados da política nacional". E, claro está, entre troskistas e estalinistas, inúteis ambos, ninguém tem nada a ganhar metendo por lá a colher.