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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Fragmentação

Esta interpretação burguesa de Hugo Mendes é curiosa. Portanto, se os clubes de jovens recebessem subsídios, desapareciam os conflitos. É a visão paternalista da sociedade, que aposta numa espécie de esmola para os pobres de espírito se manterem calmos. Toma lá e fica quietinho no teu canto. O quê? Tiraram o subsídio ao meu clube de jovens e não tenho nada para fazer? Então, vou ali partir umas montras.

Tiago Mota Saraiva tem um instinto mais religioso. Emite luz, está em cima de uma azinheira, então só pode ser nossa senhora. No caso, tem violência e o poder é capitalista, então só pode ser a revolução. Sim, escondido pelo capuz, em cada salteador há um Che Guevara em potência.

A interpretação adiantada por Eduardo Pitta também não bate certo, mas é mais interessante do que a anterior. Há muitos negros nos bandos de jovens? Sim, mas também aparecem brancos nas imagens. E numerosas lojas saqueadas são de paquistaneses. Vi na televisão um proprietário que escapou por um triz de morrer no saque da sua loja, ameaçado pelos vândalos. O homem era negro, teve de fugir por uma janela. E os apartamentos incendiados pertencem a negros, brancos, pouco importa. Os jovens atacantes só parecem preocupados em saquear e provocar o máximo de anarquia. O padrão racial parece ausente.

Há uns anos, houve motins semelhantes a estes nos subúrbios das grandes cidades francesas. Na altura, circularam as interpretações étnicas e multiculturais, mas durante semanas os bairros ficaram por conta de gangs bem organizados, onde era bem mais relevante o aspecto de fragmentação social que parece imparável nas sociedades desenvolvidas. Lembro-me que Nicolas Sarkozy foi o bombo da festa, pelo menos entre os comentadores portugueses, que agora estão mais benevolentes em relação às autoridades britânicas (os motins estão a ser tratados com pinças).

 

O facto é que muitos jovens não têm perspectivas de futuro, e isto também é comum em subúrbios de Lisboa, onde não é fácil viver. Os empregos são para quem termina estudos e o subtil terceiro-mundismo que alastra nos bairros pobres das grandes cidades europeias não permite a estas pessoas saírem da lógica do mergulho em crescente pobreza. O afogamento é inevitável, devido às famílias estilhaçadas e à violência urbana. A degradação alimenta e acelera o declínio e, quando se ultrapassam os limites, então o Estado investe na renovação urbana, cria infra-estruturas e empregos, tentando impedir nova irrupção de violência. Com a austeridade, o problema recomeça noutro sítio.

A crise do modelo social-democrata de sociedade está a agravar o fosso entre classes privilegiadas e lumpen, a ponto dos privilegiados já nem perceberem bem o que se passa naquelas cidades separadas do resto.

Refira-se que a situação na América é bem pior do que a europeia; os surtos de violência extrema podem ser raros, mas as comunidades dos bairros pobres vivem em estado de sítio. Um negro do Harlem (mas pode ser branco ou hispânico de outro bairro miserável) tem escassas hipóteses de singrar na vida. Com a execução de hipotecas em larga escala, a degradação urbana só pode estar a agravar-se.

O fenómeno tem um fractal na ordem entre nações: há países desenvolvidos e em desenvolvimento, depois um grupo de estados falhados, equivalente a 10% do total. Os bairros violentos das cidades industriais avançadas ainda não são Somálias, mas para lá caminham.

A pobreza, evidentemente, não é nova, mas o mundo contemporâneo perdeu valores que no passado permitiram um mínimo de coesão social (patriotismo, religião). A erosão destes valores e o niilismo triunfante alteraram o cenário. 

Isto leva a outra conversa, a ideias sobre a crise civilizacional e o fracasso de vários modelos de capitalismo, mas fica para posts futuros.