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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

O Tempo...

No passado, em artigos de jornal e mais tarde na blogosfera, critiquei de forma dura e severa não apenas a PAC como, por vezes de forma pouco educada (reconheço), o antigo ministro da Agricultura, Arlindo Cunha. Ainda hoje continuo a considerar que a PAC foi um erro trágico.

 

Como seria de esperar, não foram precisos muitos anos para todos perceberem aquilo que alguns, uma minoria (da qual destaco, é preciso ter memória, Manuel Monteiro, Jorge Ferreira e Paulo Portas, além do PCP) avisaram. Bastava alguma racionalidade no discurso político para perceber que o caminho de pagar para não cultivar, indemnizar para não pescar e subsidiar a não produção seria calamitoso a médio prazo. Assim foi.

 

Ao ouvir o actual Presidente da República, Cavaco Silva, reconhecer (de forma implícita no entender de uns ou explícita segundo outros) o erro trágico do Primeiro-ministro Cavaco Silva fiquei espantado. Verdadeiramente espantado. Não é comum ver um político reconhecer os seus erros.

 

Ninguém, no seu perfeito juízo, gosta de ter razão antes do tempo preferindo, obviamente, que o ouçam na altura devida. Infelizmente, na época, ninguém, a começar pelos portugueses e pela maioria dos agricultores e pescadores embriagados que estavam em subsídios, quis ouvir os avisos do PCP e do Partido Popular.

 

Por isso, lá onde estiver, Jorge Ferreira deve estar a rir. O tempo, essa coisa tão preciosa, acaba sempre por fazer justiça.

Um abraço, Jorge.

 

 

 

 

Nota: Graças ao leitor JPP aqui fica um acrescento ao post, recordado pelo leitor:

 

Que se faça justiça aos políticos que estiveram contra a PAC e contra as politicas nacionais ainda mais nefastas, mas nunca se esqueça também que os agricultores, as associações, a CAP, foram sempre os primeiros a denunciar e protestar contra isto...

As razões que a razão desconhece:

"Como sempre tenho afirmado, só um diagnóstico correcto e um discurso de verdade sobre a natureza e a dimensão dos problemas económicos e sociais que Portugal enfrenta permitirão uma resposta adequada, quer pelos poderes públicos quer pelos agentes económicos e sociais e pelos cidadãos em geral. A informação objectiva sobre a situação económica e social do País é um bem público que beneficia a sociedade no seu conjunto, porque estimula comportamentos favoráveis à resolução das dificuldades.

 

Os indicadores conhecidos são claros. Portugal vive uma situação de emergência económica e financeira, que é já, também, uma situação de emergência social, como tem sido amplamente reconhecido.

 

Nos últimos dez anos, a economia portuguesa cresceu a uma taxa média anual de apenas 0,7%, afastando-se dos nossos parceiros da União Europeia. Esta divergência foi ainda mais evidente no caso do Rendimento Nacional Bruto, que constitui uma medida aproximada do rendimento efectivamente retido pelos Portugueses. O Rendimento Nacional Bruto per capita, em termos reais, cresceu apenas 0,1% ao ano, reflectindo na prática uma década perdida em termos de ganhos de nível de vida.

De acordo com as últimas estimativas do Banco de Portugal, “o crescimento potencial da economia portuguesa, o qual determina a capacidade futura de reembolso do endividamento presente”, é actualmente inferior a 1% e, em 2010, o valor real do investimento ficou cerca de 25% abaixo do nível atingido em 2001.

 

O défice externo de Portugal tem permanecido em valores perto de 9% do produto, contribuindo, por força do pagamento de juros ao exterior, para a deterioração do saldo da balança de rendimentos, cujo défice anual, de acordo com o Banco de Portugal, se aproxima rapidamente dos 10 mil milhões de euros, privando a nossa economia de recursos fundamentais para o seu desenvolvimento.

Simultaneamente, a taxa de poupança nacional tem vindo a decair, passando de cerca de 20% do produto em 1999 para menos de 10% nos últimos dois anos.

 

Em 2010, o desemprego atingiu mais de 600 mil pessoas, o que contrasta com cerca de 215 mil em 2001. Nestes dez anos, a taxa de desemprego subiu de 4% para um valor de 11%.

Os dados publicados pela Comissão Europeia indicam que, em 2008, o número de residentes em Portugal que se encontravam em “risco de pobreza ou exclusão social” superava os 2 milhões e 750 mil, o que equivale a cerca de 26% da nossa população. De acordo com as informações qualitativas disponibilizadas pelas instituições que operam no terreno, esta situação ter se á agravado nos últimos dois anos" - Discurso de tomada de posse do Presidente da República (Março 2011).

 

 

Este discurso do Prof. Cavaco Silva espelha a realidade e é absolutamente certeiro. Daí a minha pergunta: perante este cenário, ou seja, perante esta realidade, qual a razão objectiva, sublinho, objectiva, para ter mantido este governo em funções? Mais, não sendo nenhum destes dados uma novidade, qual a razão para o anterior Presidente da República ter defendido a aprovação do actual Orçamento de Estado?

 

O discurso de Cavaco Silva.

Não deixa de ser irónico que Cavaco Silva tenha tomado posse numa quarta-feira de cinzas. Porque de facto é em cinzas que se encontra presentemente o nosso país. E não temos por hábito delas renascer, como no mito da Fénix.

 

Cavaco Silva tem inteira razão quando diz que "os indicadores conhecidos são claros. Portugal vive uma situação de emergência económica e financeira, que é já, também, uma situação de emergência social, como tem sido amplamente reconhecido". Mas, perante este diagnóstico, há uma pergunta que se põe. Essa situação não implica que esteja em causa o regular funcionamento das instituições democráticas, o que constitui fundamento para o Presidente da República demitir o Governo, nos termos do art. 195º, nº2, da Constituição? Perante um diagnóstico destes, como é possível que o Governo continue em funções, como se nada se passasse?

 

Esta semana vai ser terrível para o Governo. Depois do discurso de hoje de Cavaco, temos amanhã a moção de censura do Bloco e no sábado a manifestação da "geração à rasca". Naturalmente que o Governo procurará continuar no seu percurso habitual, mas é manifesto que a crise política foi hoje anunciada. Resta saber se a oposição de centro-direita responde à chamada ou vai continuar a aguentar por mais tempo esta situação. 

Notas avulsas da noite eleitoral

 

 

1. Registou-se, como previ, a maior taxa de abstenção de sempre numa eleição presidencial: 53%. Houve menos um milhão de portugueses a votar nestas presidenciais, em comparação com as de 2006. Um sinal inequívoco do divórcio dos cidadãos em relação ao sistema político.

2. Houve 270 mil portugueses a votar branco ou nulo, o equivalente a 6,3% dos eleitores. Isto apesar de os votos brancos ou nulos serem irrelevantes para a contabilidade final em eleições presidenciais. Outro sintoma inequívoco de distanciamento.

3. Muitos portugueses não puderam hoje votar por motivos de ordem burocrática totalmente inadmissíveis. A culpa não pode morrer solteira. Espera-se, pois, a demissão do ministro da Administração Interna e do presidente da Comissão Nacional de Eleições ainda hoje.

4. Manuel Alegre, sem o apoio oficial do PS nem do Bloco de Esquerda, obteve há cinco anos maior percentagem (20,7%) e mais 300 mil votos do que agora (19,8%). José Sócrates e Francisco Louçã, em vez de somar, subtraíram.

5. O eleitorado do centro é decisivo. Por isso a radicalização à esquerda da candidatura de Alegre foi totalmente incompreensível. O desastre eleitoral estava à vista: eu bem avisei.

6. Fernando Nobre, sem aparelho partidário, foi o candidato genuinamente apartidário com maior sucesso nas urnas nestes últimos 30 anos. Com 14%, duplicou a percentagem obtida em 1986 por Maria de Lurdes Pintasilgo. Revelou-se, de facto, a maior surpresa desta noite eleitoral.

7. Numa altura em que os partidos muitas vezes são parte do problema e não da solução há hoje cada vez mais espaço para candidaturas de cidadania, emergentes da sociedade civil.

8. No duelo muito particular que mantém com o BE, o PCP não se saiu mal: aguentou o essencial do seu território. Mas o candidato comunista, Francisco Lopes, obteve metade da percentagem de Nobre, recolhendo menos 130 mil votos do que o seu camarada Jerónimo de Sousa em 2006. Com a máquina comunista a apoiá-lo enquanto Nobre não tinha máquina alguma.

9. Também sem máquina de espécie alguma, José Manuel Coelho obteve 4,5%. Mais que isso: conquistou maioria em três concelhos da Madeira, incluindo o Funchal, em ano de eleições regionais. E superou Lopes em Vila Real. Vale a pena analisar este fenómeno, que na região autónoma ultrapassa o mero voto de protesto.

10. Durante semanas, escutámos comentadores televisivos falar apenas em dois candidatos. Cavaco e Alegre. Como se mais nenhum existisse. Estes comentadores - muitos dos quais já tinham ignorado Alegre nas presidenciais de 2006 - também saem derrotados. E de que maneira.

11. Defensor Moura, esmagado nas urnas, fez um discurso de puro ódio pessoal contra Cavaco. Não cumpriu as regras mínimas do fair play democrático.

12. Destaque para o bom senso revelado por Pedro Passos Coelho. Os sociais-democratas "não vão à boleia desta eleição presidencial", acentuou o presidente do PSD, apresentado como "presidente da Assembleia Municipal de Vila Real" num comício de Cavaco. Fica-lhe bem esta prudência.

13. O melhor discurso da noite foi o de Alegre. Felicitou o vencedor e assumiu a derrota com humildade democrática. Nem uma palavra a mais, nem uma palavra a menos.

14. José Sócrates igual a si próprio com esta frase notável: "Todo o Partido Socialista esteve ao lado de Manuel Alegre."

15. Cavaco Silva, com menos meio milhão de votos que em 2006, pareceu totalmente fora de tom no seu amargo e crispado discurso da vitória: "Nunca vendi ilusões aos portugueses nem prometi o que não podia cumprir." Ninguém tenha dúvidas: esta é uma declaração de guerra contra Sócrates. Começou um novo ciclo na política portuguesa.

Presidenciais (29)

  

  

Três vencedores

  

CAVACO SILVA

Vitória clara - em todos os distritos, incluindo Beja, onde fora segundo em 2006 - numa campanha em que não houve verdadeiro debate sobre o seu mandato presidencial. Ao contrário do que alguns vaticinavam, não foi penalizado pela forte abstenção registada neste escrutínio. Beneficiando da notória incompetência de alguns adversários, ganhou nova legitimidade para reforçar o protagonismo no quadro político português. Disse com clareza ao que vinha: esperem dele, a partir de agora, uma "magistratura activa".

 

FERNANDO NOBRE

Coube-lhe nesta eleição o papel desempenhado por Manuel Alegre no escrutínio de 2006, reclamando-se dos valores da cidadania. Sem apoios partidários, sem aparato de propaganda, ignorado pela maioria dos comentadores, escandalosamente marginalizado por um certo "jornalismo de referência", congregou sectores importantes do eleitorado cansados de guerrilhas partidárias e dos jogos políticos de sempre. Uma lição para muitas vozes arrogantes, sobretudo à esquerda. 

 

JOSÉ MANUEL COELHO

O candidato anti-sistema que veio da Madeira para fazer política a nível nacional, sem nunca se levar demasiado a sério. Um papel em que ganhou a simpatia declarada de milhares de portugueses, que têm razões de sobra para se rever em boa parte do que disse este herdeiro da nossa melhor sátira vicentina, apontando o dedo a várias feridas. Caiu em graça por ser genuinamente engraçado, ao contrário do que sucedeu com Defensor Moura.

Presidenciais (27)

Cavaco Silva – Uma sombra do que foi noutros tempos. Começou de forma titubeante a campanha, que só pareceu ganhar gás com o tema BPN: um Cavaco momentaneamente vigoroso veio à tona nesses dias. O assunto funcionou também como agregador das hostes, que pareciam adormecidas. Mas o homem que desta vez nem contou com um blogue especial de apoiantes foi incapaz de qualquer golpe de asa. Termina a campanha a pedir uma vitória à primeira volta pelo pior dos motivos: para poupar dinheiro. E com um temor indisfarçável da abstenção.

 

Defensor Moura – O deputado socialista que mal ousou sair do perímetro de Viana do Castelo e chegou a ser notícia nas televisões por "dar um passeio improvisado na rua onde mora" esgotou-se nesta campanha a fazer o papel de lebre para dar alento à de Manuel Alegre, seu camarada de partido e seu colega de Parlamento. A estratégia saiu-lhe às avessas: o BPN funcionou como toque a rebate dos desmobilizados eleitores de Cavaco. A partir daí Moura praticamente desapareceu.

 

Fernando Nobre – O médico independente que muitos socialistas irritados com Alegre apoiam teve boas prestações nos debates televisivos e conduziu no terreno uma campanha que foi ganhando projecção, apesar das tentativas de muitos comentadores de o considerarem irrelevante. Tal como Alegre em 2006, o fundador da AMI utilizou o apelo da cidadania como trunfo eleitoral num país cansado de jogos partidários. Pode vir a protagonizar a maior surpresa da noite do escrutínio.

 

Francisco Lopes – Foi sólido, consistente e esforçado na tarefa de mobilizar os eleitores comunistas. Para esse efeito insistiu sobretudo em percorrer o tradicional circuito do partido, centrado no triângulo Lisboa-Setúbal-Alentejo. A candidatura deu projecção a nível nacional ao mais que provável sucessor de Jerónimo de Sousa no cargo de secretário-geral do PCP. Tenha o resultado que tiver no domingo, este desafio já foi vencido. E para ele, no fundo, era isso que contava.

 

José Manuel Coelho – A maior surpresa desta campanha. Trouxe irreverência à corrida presidencial recorrendo apenas aos seus naturais dotes oratórios e à sua vocação para a "sátira de rua", mordendo à esquerda e à direita com a saudável irreverência de uma personagem vicentina. Deixou de estar confinado ao estatuto de estraga-festas no reduto madeirense, ganhando projecção nacional. Foi o único candidato excluído dos debates. Vai receber bastantes votos de simpatia.

 

Manuel Alegre – Encarnou o papel que menos lhe convinha: o de Mário Soares na campanha anterior. Tal como Soares então, radicalizou excessivamente o discurso, procurando transformar a corrida a Belém numa espécie de ajuste de contas com Cavaco Silva. Esqueceu-se da sábia conduta que ele próprio revelou há cinco anos, quando evitou ataques pessoais e sublinhou que uma vitória de Cavaco não poria em risco a democracia. O discurso radical de esquerda, em sintonia com o BE, distanciou-o de muitos socialistas. Termina esta campanha talvez mais só do que estava em 2006.

Portugal Pré Cavaco

Sempre que saio de casa sou forçado a uma viagem ao Portugal Pré Cavaco Silva. A cidade de Florença é como Portugal era nos finais da década de setenta e início dos anos oitenta. Há escola aos Sábados: o fim-de-semana dos giovani e bambini só começa à uma da tarde de Sábado. Durante toda a semana, tudo o que é loja fecha para almoço, da uma às três e meia ou mesmo até às quatro. Até as pizzerie que só vendem para fora fecham para almoço! (Mas no Portugal Pré Cavaco não havia ainda pizzerie). Ao Domingo não há negócio algum que abra portas; a mesma coisa Sábado à tarde. Não há centros comerciais nem gigamercados (se os há ficam longe). E os estabelecimentos, mesmo os mais sofisticados, têm sempre pouca coisa: encontra-se computadores Toshiba mas só há um único modelo disponível. Por outro lado, existem retrosarias e sapateiros (fui ontem a um comprar atacadores: senti-me no milénio anterior!).

 

É o reino do comércio local, das lojas em que os empregados também são donos e em que os donos-empregados não prestam serviços aos clientes mas sim favores. É o comércio em que os clientes são avaliados pelos lojistas e não o contrário. "This is a local shop for local people" lê-se nos rostos dos empregados-donos, que mudam automaticamente quando percebem que o cliente não é dali: nem daquela cidade, nem daquele país.

 

Não falo da cidade lindíssima e hiper-turística. Falo da Florença de quem de facto vive aqui, de Segunda a Domingo, trabalhando ou estudando. E falo também de Portugal, que mudou muitíssimo a partir de Cavaco. O nosso país ganhou em comodidade (e comodismo, diga-se) e também na tecnologia aplicada ao quotidiano (também se diga que o país ainda não é nenhuma Estónia...). Sobretudo, o sector privado e as relações empresa-cliente melhoraram ostensivamente.

 

 

 

 

Ok, ok: Portugal recente nunca foi tão arcaico como o meu termo de comparação...

Presidenciais (20)

 

 

"A situação é séria, mas o Governo disse de uma forma muito clara que está a fazer tudo quanto está ao seu alcance para evitar o recurso ao fundo de estabilização europeu."

 

"Eu acredito que o Governo está a fazer tudo [para evitar a ajuda externa]."

 

"O primeiro-ministro comunicou-me - e eu não posso deixar de acreditar - que haverá uma execução orçamental muito rigorosa. (...) Isso seria um indicador muito positivo."

 

"Se for aprovada uma moção de censura na Assembleia da República, o Presidente da República terá de convocar rapidamente o Conselho de Estado e ouvir os partidos políticos representados na Assembleia da República para tomar uma decisão ponderada. (...) Gostaria que não ocorresse uma crise política no País. O País, para resolver os seus problemas, não devia ter crises políticas."

 

"Juntar a uma crise económica uma crise política é da maior gravidade."

 

"Eu apelo sempre à responsabilidade de todos. O País está numa situação bastante séria e exige a responsabilidade de todos os intervenientes."

 

Declarações de Cavaco Silva na entrevista de ontem à RTP. Declarações que chegam e sobram para se perceber quem é o candidato que mais convém a José Sócrates nesta corrida presidencial. O homem que raramente tem dúvidas foi categórico: quem espera vê-lo autorizar ou incentivar o fim prematuro da actual legislatura para a construção de um "bloco de direita" pode esperar sentado. Com ou sem FMI a vasculhar-nos as contas públicas.

Pelo menos nesta matéria Cavaco tem o mérito de falar claro. Passos Coelho certamente tomou boa nota do recado. Até porque o candidato que ele apoia para Belém fez também questão de salientar, nestas declarações a Judite Sousa, que anda sem tempo para ler as entrevistas do líder do PSD.

Presidenciais (19)

 

Sobre o caso BPN, que tem dominado a campanha presidencial, havia duas abordagens possíveis. A primeira, a abordagem política, confrontando Cavaco Silva com um núcleo nada recomendável do seu vasto clube de amigos – com destaque para o inefável ex-secretário de Estado Oliveira e Costa, financiador da campanha cavaquista de 2006. Esta foi a via seguida, com desassombro e eficácia, pelo candidato comunista Francisco Lopes no frente-a-frente com Cavaco. A segunda abordagem, a tentativa de assassínio de carácter, foi feita pelo candidato Manuel Alegre de série B nesta campanha, Defensor Moura. Aludindo ao BPN de mistura com a história requentada de um pavilhão qualquer em Viana do Castelo e outra acerca da fadista Kátia Guerreiro: tudo ao molho e fé em Maquiavel, que alguma coisa havia de se agarrar à parede. Agarrou-se o pior: um “escândalo” já noticiado pelo Expresso há dois anos em que à viva força se pretendeu recriar a biografia de Aníbal Cavaco Silva, político bem conhecido dos portugueses há três décadas, apresentando-o como um sujeito dado a negócios ilícitos e favorecimentos indevidos no exercício de funções públicas.

Manuel Alegre, que devia ter seguido o trilho de Francisco Lopes, preferiu adoptar o tom e o estilo chocarreiro de Moura – o Alegre de série B, que só se candidatou para isto. Um papel que lhe serve muito mal: o candidato a Belém apoiado pelo PS e pelo Bloco de Esquerda não é vocacionado para carregar baldes de lama destinados a adversários políticos. Conheço-o, sei do que falo: nunca até hoje o vi proceder assim.

Foi mal aconselhado por quem gosta de sentir o cheiro do napalm ao amanhecer. As companhias escolhem-se – e nesta campanha Alegre não tem nenhum motivo para se gabar das que escolheu.

Presidenciais (15)

 
Assistimos nesta campanha a uma insólita simetria à das legislativas de 2009, quando um Sócrates recém-derrotado nas eleições europeias foi questionado quase exclusivamente não pela sua política desastrosa nem pelo incumprimento das promessas de 2005 mas pelo seu carácter. O PSD, com Pacheco Pereira a dar a táctica, andou enredado nisto até lhe cair em cima uma estrondosa derrota eleitoral da qual ainda hoje não recuperou. Estou à vontade para escrever estas linhas pois insurgi-me com clareza contra essa estratégia numa altura em que muitos pensavam que podia ter êxito.
Desta vez os papéis invertem-se e é Cavaco Silva que vê agora o seu carácter posto em xeque por alguns dos rivais nesta campanha presidencial. Convenhamos: há muito que criticar no recandidato apoiado pelo PSD e pelo CDS. Mas, estranhamente, em vez de Cavaco estar a ser alvo de justificadas críticas políticas pelo seu mandato de cinco anos em Belém ei-lo a ser alvo de ataques de carácter, exactamente como sucedeu a Sócrates em 2009, pondo em causa um facto da sua vida privada numa fase em que não desempenhava qualquer cargo público.
Apetece-me fazer minhas as palavras proferidas ontem por António Vitorino na SIC Notícias: "este tema ocupa um peso desproporcionado" na campanha eleitoral em curso. E acrescento: não custa vaticinar que uma campanha deste género terá o mesmo sucesso do que teve a do PSD em 2009. Algo estranho é ver que alguns dos que então mais se destacaram na denúncia dos 'assassinatos de carácter' estejam hoje na primeira fila desta modalidade nada desportiva que só consegue afastar os portugueses ainda mais da política e os eleitores das urnas.
Entretanto lamento muito ver Manuel Alegre, em 2011, desempenhar o papel que Basílio Horta teve na campanha presidencial de 1991. A maioria das pessoas tem memória curta. Mas eu não: lembro-me bem como essa campanha terminou.