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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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Da Estúpida Modernidade Socrática: um Exemplo

Apoio totalmente o post anterior. O cartão do cidadão foi mais uma das iniciativas integradas na "narrativa da modernização" de Sócrates e seus socialistas. Mas é bem o símbolo de uma burocracia cada vez mais estúpida. Para começar, dos quatro cartões que este deveria substituir, há um que ainda é preciso manter (o da saúde). Depois, o cartão que supostamente não deveria ter sido substituído (o de eleitor) parece que afinal acabou por sê-lo. Depois ainda, o que interessa essencialmente não é ter um ou vários cartões, é a quantidade de números diferentes que um cidadão tem de carregar nas suas relações com a administração pública. Um cartão que colecciona números é uma inutilidade e um paroxismo de estupidez burocrática. Os cartões do cidadão têm quatro números associados... Finalmente, o preço do cartão: para quem não pode esperar e precisa do cartão com urgência (como é o caso de alguém que tem um número de dias limitado para estar em Portugal), o preço é de trinta e cinco euros (sete contos).

 

E... e! E é preciso ter sorte: o senhor começou por me dizer de manhã que não garantia que o cartão estivesse pronto ao fim da tarde daquele dia mesmo pagando os trinta e cinco euros. Ditadorzinho do costume, perguntou-me porque era a obtenção do cartão tão urgente para mim. Como de costume também, o cidadão lá sentiu-se obrigado ao número do choradinho perante a administração pública. O ditadorzinho da administração do cartão então condescendeu, sentindo-se ainda orgulhoso com a sua magnanimidade. Afinal, para espanto meu, ainda a tarde ia a meio e já o cartão estava pronto. Mas numa administração eficiente, obter um cartão com urgência pagando 35 euros significa obtê-lo em menos de uma hora! O normal seria recebê-lo no próprio dia ou no dia seguinte a preço zero.

 

Agora, quem diz cartão do cidadão pode também dizer acordo ortográfico, computador magalhães e tê gê vê: tudo coisas que temos de tragar sob a ameaça de Portugal não se modernizar nunca...

 

Modernidade seria o país ter um cartão que permitisse votar através da internet! E modernidade seria não ter de aturar mais estes socialistas com a sua detestável narrativa da modernização.

A responsabilidade política pelo caos nas eleições.

Domingo passado calhou-me ser um dos afectados pela extraordinária confusão causada no recenseamento eleitoral. Deslocando-me juntamente com a minha mulher para votar na mesma secção onde voto há 16 anos, verifiquei que, apesar de os nossos números de eleitor serem seguidos, enquanto que ela conseguiu votar, o meu nome tinha sido apagado dos cadernos eleitorais. Lá tive que enfrentar uma enorme fila para saber o novo número e qual é o meu espanto quando me dizem que, em virtude de ter tirado o cartão de cidadão, o meu local de voto tinha sido transferido para outra escola a quilómetros de distância, cuja morada exacta ninguém sabia! Não deixei de perguntar perplexo que sentido fazia duas pessoas com a mesma residência votarem em lugares a quilómetros de distância um do outro. A resposta que me deram foi que, quando a minha mulher tirasse o cartão de cidadão, provavelmente também a mudariam para essa nova escola. Lá tive de andar em busca dessa misteriosa escola, onde encontrei alguns conhecidos, igualmente perplexos com a situação.

 

O problema, no entanto, é que, se isto me aconteceu no centro de Lisboa, imagino o que se terá passado no interior do país. Ora, suprimir o nome de um eleitor de um caderno eleitoral, sem sequer o notificar, é um acto muito grave. Fazê-lo a centenas de milhares de eleitores assume uma gravidade extrema. Pouco falta para termos que chamar a OSCE para averiguar se as nossas eleições decorrem em condições de regularidade e transparência.

 

Mas, perante esta enorme confusão, que faz o Ministro da Administração Interna? Primeiro pediu desculpa aos eleitores, como se as relações de um governante com os eleitores fossem relações pessoais e não assuntos de Estado. Depois anunciou um pedido de inquérito à Universidade do Minho, quando toda a gente já sabe o que se passou, sendo assim esse inquérito um gasto inútil de dinheiros públicos, numa altura em que o país vive em constrangimento orçamental permanente. Finalmente, é anunciada a demissão de dois directores-gerais do Ministério. Mas o cartão do cidadão não era um projecto emblemático do Governo? E a responsabilidade pela forma como foi lançado não é do Governo e principalmente do Ministro da Administração Interna? Temos agora que, depois de reduzir os salários aos funcionários públicos, o Governo pretende ainda transformá-los em bodes expiatórios das suas iniciativas.

 

A evidente responsabilidade política do Ministro neste caso deveria levá-lo a apresentar a sua demissão imediata. Já sabemos, no entanto, que neste âmbito a culpa morre sempre solteira.