Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

"Ir Além da Tróica"

Se o governo se limita ao que acordou com a tróica e com o PS será completamente impossível não incorrer num "evento de crédito", i.e., incumprimento, default, etc. no curto prazo.

 

Por outro lado, só o que a tróica exige é pouco para prevenir um embaraço idêntico no futuro. O stock de dívida deve ser suficientemente baixo para que, em caso de crise, seja possível aumentar o endividamento sem que com isso se coloque em causa a sustentabilidade dinâmica das contas públicas. Esta é a lição que António Guterres, George W. Bush e outros não aceitaram.

 

Finalmente, ir para além do acordo da tróica significa alterar as estruturas económicas do país para que este possa finalmente crescer.

 

É assim tão difícil de compreender?

A Cor da Rosa e a Realidade

Se António Guterres não tivesse optado por uma política pró-cíclica e se tivesse colocado as contas públicas em ordem - teria havido margem de manobra financeira para que, qualquer que fosse o governo no poder no período 2007-2011, tivesse sido possível seguir uma política agressiva contra-ciclo sem perigar ou agravar as contas públicas.

 

Na ausência de margem de manobra financeira, Sócrates viu-se forçado a medidas pró-cíclicas em época de crise. A ausência de margem de manobra reporta-se aos tempos de Guterres mas também aos primeiros anos do governo de Sócrates. A responsabilidade de Sócrates pela recessão actual está ainda no mix da resposta à crise: cortar apoios sociais em vez de cortar nos projectos de rentabilidade negativa para o erário público mas de lucratividade garantida para os amigalhaços da contrução civil (a propósito, ler este excelente post de Gabriel Silva no Blasfémias).

 

Desde os inícios dos anos noventa (do século passado) que não faltaram economistas de quase todos os quadrantes políticos a avisar para os problemas futuros que acabariam por decorrer das política despesistas e irresponsáveis de António Guterres. Mas quem está interessado em ouvir os economistas? Não são os discursos dos Guterres, Sócrates, socialistas muito mais cor-de-rosa?

Dezasseis Anos de Prudência Ignorada

"Com o seu arzinho presunçoso e professoral, economistas, financeiros, banqueiros, filósofos e arraia-miúda vieram revelar ao indígena atónito que nada, ou quase nada, se fizera de lógico e sensato de 1990-95 para cá. (...) Infelizmente, esta constatação pede uma pergunta óbvia: em que se ocupavam os sábios que hoje com tanto gosto nos predicam, enquanto os partidos (o PS e o PSD) arruinavam o país?" escreve Vasco Pulido Valente no Público (citado aqui).

 

É muito injusto este parágrafo de VPV: desde os governos de António Guterres que vários economistas (e não só) alertaram para o despesismo e para a necessidade de corrigir os excessos das contas públicas em época de crescimento económico mundial, europeu e nacional. Guterres desaproveitou a última grande oportunidade de implementar as eternamente necessárias e nunca realizadas "reformas estruturais". Aliás, Guterres agravou em muito a situação das contas públicas portuguesas, aumentando despesa, número de funcionários e compromissos futuros do Estado numa época em que até os mais "keynesianos" recomendariam moderação orçamental. António Guterres forçou os governos seguintes - incluindo os de Sócrates - a seguirem políticas contracionistas em época de crise económica.
 
Os erros de Sócrates são sobretudo o resultado de desonestidade e populismo sem quaisquer limites, para além de um vazio absoluto de ideologia e de tino.
 
Já os erros de Guterres foram, pelo menos, a consequência de incompetência técnica pura e dura e de um olímpico desprezo por quem defendia as melhores e mais avisadas opiniões económicas.  (A enorme dose de eleitoralismo travestido do coraçãozinho de manteiga que os respectivos assessores de imagem lhe inventaram também contribuiu e muito para a prodigalização guterrista).
 
Ao contrário do que Vasco Pulido Valente afirma, já vai para dezasseis anos que uma série de economistas, mais ou menos politizados, mais à esquerda ou mais à direita, têm continuadamente alertado para o regabofe das contas públicas que veio a desembocar na presente desgraça nacional.