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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Emoções básicas (4)

Ocidente, Oriente
O suplemento literário do ABC deste sábado incluía uma notável entrevista a Claudio Magris. A certo ponto, quando mencionava Italo Svevo, Magris identificou uma intuição “formidável” na obra deste escritor seu compatriota. Cito: “Enquanto que no passado o homem corria o risco de não ser feliz, para o homem moderno o problema agrava-se. Agora, corre o risco de não ser capaz de desejar a felicidade. Quer dizer, já não se trata de não ser amado, mas de algo mais trágico: não ser capaz de amar”.

 

A frase parece dizer muito sobre o mundo contemporâneo e a sua frieza e falta de bondade. A civilização ocidental foi capaz de grandes realizações. Não apenas na engenharia ou medicina, em vidas salvas, longevidade, o conforto de um rei medieval ao alcance de qualquer pobre. Há magníficas obras de arte na China e na Índia, mas a complexidade e profundidade da música ocidental, da sua pintura ou literatura são insuperáveis. Existe agora a moda de relativizar e dizer mal; em certas universidades americanas o ensino da história da Europa tem de ser contrabalançado com igual número de horas para cursos sobre a história de culturas que nos parecem menos influentes. Mas não devíamos esquecer que certas ideias, por exemplo a democracia, foram aperfeiçoadas e exportadas pelo ocidente. Também os direitos humanos, o feminismo, a ajuda humanitária.

 

E, apesar de todas estas realizações, a frase de Magris deve fazer-nos reflectir. Onde falhámos? O homem que corria o risco de não conseguir ser feliz é agora aquele que revela a trágica incapacidade de dar amor aos outros.
Isto aplica-se a quem habita um mundo que parece mover-se com a força motriz do egoísmo e do medo. Um mundo arrogante e cheio de ganância, estúpido na sua vaidade, obcecado pelo poder e pelo sexo. Aplica-se ao microcosmos das relações humanas, a vidas esvaziadas de valores, onde já não cabem os sentimentos. Aos solitários, aos abandonados. Nas outras pessoas, parece que procuramos sobretudo os defeitos ou que nos confirmem as nossas virtudes. A arte transformou-se na glórias das nações, a religião em catedrais magnificentes, a ciência imagina poder controlar o destino. O orgulho é o nosso pecado. Deixámos de olhar para dentro de nós e o nosso deus passou a ser o dinheiro. Esse é o eixo das nossas vidas, a obsessão íntima. E tornámo-nos escravos da ambição.

 

Uma religião oriental, o taoísmo, mal compreendida no ocidente, tem certas ideias semelhantes a partes do cristianismo, sobretudo aquelas mais místicas, que os ocidentais rejeitaram. Não me parece que haja uma boa tradução do Tao Te Ching, um livro muito antigo, mas arrisco-me a citar o que diz sobre o desejo, pois talvez complete a reflexão acima e nos ajude a pensar. Diz Lao Tsé:
Não há maior crime do que ter muitos desejos. Dão maior infortúnio do que ser invejoso”.
E, à frente, uma verdade simples que, para um olhar moderno, quase parece ingénua: “Quando estamos contentes, possuímos todas as coisas do mundo”.
 

Imagem: Aurora, F. W. Murnau (1927)

Emoções básicas (3)

O oposto do amor
Qual é o oposto do amor? Podemos pensar que é o ódio, mas essa talvez não seja a melhor resposta. Um sábio diria que o oposto do amor pode bem ser o medo.
Ouvi esta meditação numa conferência da neta do Mahatma Gandhi, Tara Gandhi, na Fundação Gulbenkian, terça-feira, em Lisboa. O ensinamento flutuou quase anónimo, sem parecer importante. As ideias orientais são por vezes incompreensíveis para nós, materialistas do ocidente, e algumas opiniões da conferencista eram difíceis de aceitar. Ela usava um discurso de estranha humildade, tornando mais improvável a nossa aceitação.
Podemos dizer de outra maneira este pensamento iluminado: o que impede o amor não é o ódio, mas sim o medo. Isto aplica-se às nações, aos conflitos entre amantes, às discórdias civis das sociedades. Temos medo; em resposta, parecemos destilar ódio, mas apenas mostramos o temor do desconhecido. A vertigem assusta e quanto maior o receio, maior a rejeição do que se teme.

Esta realidade está mais próxima de nós do que parece. Ela rodeia-nos. O medo explica a inveja, a guerra preventiva, a hostilidade, o ciúme, a resistência; o medo explica a gritaria no debate, a indecisão ferida, o erro destrutivo, a dúvida, o desprezo. Veja-se com distanciamento: existe medo à nossa volta, uma tensão social feita de pequenas inseguranças, de apreensão pelo futuro, de sobressalto permanente. Deixámos de ter uma vida, deixámos de ter estabilidade. E o temor produz agressão: não queremos ouvir o outro, tudo o que ele nos diga soa a estranho ou maléfico e pode ser reduzido a minúsculos fragmentos negativos; repetiremos mil vezes a mentira, transformando a possibilidade em antipatia, o diálogo em discórdia, o amor em miséria.
Num mundo materialista, é difícil perceber a ideia da não-violência. Ela exige um penoso ponto de partida, tão inaceitável para a razão interesseira, de que o nosso inimigo nunca o é verdadeiramente; antes o que parece ódio não passa de pânico e susto, sendo por isso digno da compaixão, da lástima que se tem pelo próximo, daquele que no fundo é igual a nós.

 

Imagem: pintura de Frits van den Berghe, "O corredor", 1927.