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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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Os Loucos de uma certa Lisboa

Foi no dia 14 de Outubro que Marco António em entrevista ao Público afirmou que o Governo não queria negociar nem tão pouco encontrar soluções de consenso para a crise. Hoje e ontem, nas redes sociais, alguns destacavam o facto de MAC ter adivinhado. Puro engano.

 

Marco António não adivinhou, limitou-se a dizer publicamente aquilo que em surdina muitos no próprio PS repetiam. Mais, bastava ler a blogosfera afecta ao Governo para perceber a escalada de insultos ao líder do PSD e ao representante do partido nas negociações quando estas foram anunciadas. Já para nem lembrar as declarações de elementos do Governo em estilo "guerrilha urbana".

 

Eles não queriam nem querem um acordo como MAC salientou. Eles preferem o pântano.

A Crise

 

Porto, 07h45, hoje.

 

A Circunvalação, junto ao Hospital de S. João, já está a ficar pelas bordas. Normalmente o caos instala-se por volta das oito mas hoje, provavelmente por causa do não acordo, as insónias tiraram o povo da cama mais cedo. Encontro um espaço vazio e estaciono para tomar um cimbalino e comprar um maço de tabaco. No balcão encontro o JN: “Governo e PSD abrem nova porta após ruptura”. Um espaço com tanta gente e o JN jaz quase morto e arrefece. Curiosamente, o Jogo está a uso numa mesa…

 

A Burla Tentada:

 

Aqueles que desde Maio andam a chamar a atenção da impossibilidade prática de negociar o que quer que seja com este Governo e ESTA gente não ficaram minimamente admirados com esta notícia.

 

Esta proposta de Orçamento de Estado para 2011 é semelhante a estranhezas como exames por fax e ao Domingo. Este governo não quer resolver os problemas do país mas sim os problemas da sua máquina tentacular espalhada pelo aparelho do Estado. Este governo não quer acabar com o verdadeiro regabofe das parcerias público-privadas preferindo, antes, castigar os contribuintes. Este governo confunde o Estado com o partido e confundo os negócios de estado com as negociatas privadas confundindo, igualmente, o Ministério das Obras Públicas com o Departamento de Obras Públicas de uma qualquer empresa privada com administrador do tipo “quem se mete com o PS leva”.

 

Ora, perante semelhante esbulho preparado para 2011, a actual direcção do PSD demonstrando, uma vez mais, estar de boa-fé escolheu um homem sério e muito ligado ao actual Presidente da República para uma missão, no meu entender e no entender de tantos outros, impossível. Nem com o Prof. Eduardo Catroga se conseguiu, perante uma verdadeira situação de emergência nacional, obrigar este governo a colocar em primeiro lugar o interesse nacional.

 

O Prof. Nogueira Leite fartou-se de avisar...

Do óbvio:

Foi Henrique Monteiro quem escreveu, na página 3 do Expresso deste Sábado (link ainda não disponível):

 

Passos insistiu (neste ponto com razão) que o Governe é que tem de fazer o OE, mas vai acabar a discutir minudências. Discutindo, associa-se ao monstro que aí vem, o qual sendo necessário, não deixa de ser monstruoso. Passos poderia, pelo menos, adiantar como seria com o seu governo – Menos ministérios? Menos prebendas e propaganda? Mas também não o faz.

O PSD deve ser claro sobre o que faria nas actuais circunstâncias e o que fará no poder, caso queira ganhar a credibilidade necessária para mobilizar o eleitorado. Passos não se pode limitar a ser como o deputado brasileiro Tiririca, cujo único programa foi a frase “pior que está não fica”.

Que pior não fica, os eleitores já perceberam (seria até difícil ficar pior). Mas precisam de saber o que melhoraria, o que tornaria o país diferente deste pantanal em que estamos. Se Passos não o fizer, não só desilude como contribui para o descrédito total do sistema democrático em que vivemos”.

 

Confesso que já li e reli estas palavras inúmeras vezes. Não apenas pela razão que assiste a quem as escreveu nem tão pouco pela clareza como as expôs. Não. Foi, sobretudo, pelo sublinhar do óbvio.

 

Não tenho qualquer dúvida que Passos Coelho as compreende. Mais, não hesito em afirmar que Passos Coelho sabe que é isso que o país espera dele: uma alternativa consubstanciada numa profunda mudança. A mesma que, com coragem, começou a desenhar nalgumas das propostas de alteração constitucional que lançou. Não basta mudar de protagonistas, é preciso mudar de políticas, de estratégia para desenvolver o país e conseguir, de uma vez por todas, colocar Portugal no trilho certo em termos económicos e sociais.

 

Uma comunidade não sobrevive, a longo prazo, através de expedientes medíocres como aqueles que, através de verdadeiro esbulho geracional, permitiram a sucessivos governos endividar as gerações futuras. Uma comunidade saudável não se constrói com parcerias público-privadas nas quais o privado fica com a carne e o público com os ossos. Uma comunidade não pode crescer quando a sua principal massa crítica, a classe média, é fustigada com impostos de tal grandeza que o seu futuro passa por juntar os trapinhos com a classe baixa e assim engordar as bolsas de pobreza.

 

De que vale a um país ter as melhores auto-estradas, os mais avançados centros de saúde e grandiosos centros escolares se quem os pode utilizar não consegue ter condições socioeconómicas para deles usufruir verdadeiramente? Um doente sem dinheiro para os medicamentos não se cura. Um aluno com o estômago vazio não aprende. Um empresário sem dinheiro para sustentar os seus camiões de certeza que não utilizará as estadas.

 

Afinal, para que serve e a quem serve este país?

 

Essa é a questão sobre a qual o PSD e Passos Coelho devem reflectir e apresentar uma verdadeira alternativa de mudança. Mesmo que seja dura ou passível de reprovada pelos portugueses. Pelo menos, terá feito aquilo que tinha de ser feito.

 

O Peixe de Águas Profundas:

Foi no início de Outubro, mais precisamente a 1 de Outubro, que o Prof. António Nogueira Leite surpreendeu o auditório do Tecmaia (Maia) com a seguinte afirmação: O melhor Ministro das Finanças dos últimos anos foi o Eduardo Catroga.

 

Na sala pairou a surpresa. A afirmação do Prof. Nogueira Leite provocou algum burburinho. Afinal, para muitos, o Prof. Eduardo Catroga era uma recordação distante. O Orador explicou a afirmação e lembro-me de um amigo meu presente na palestra me ter sussurado: "meu caro, ficamos a saber em primeira mão quem vai negociar o orçamento com o Sócrates". Repliquei afirmando que ele estava enganado e a partir de um pressuposto errado pois nem pela mão de Nogueira Leite tal seria possível dada a amizade profunda entre Catroga e o Presidente da República. O ar paternalista do meu interlocutor deixou-me pensativo. Será possível?

 

Acabo de saber que o PSD informou o Governo que será Eduardo Catroga a liderar a equipa negocial (ao qual se junta Orlando Caliço, Manuel Rodrigues, Miguel Frasquilho e Carlos Moedas). No fundo fiquei a saber três coisas muito simples:

 

O Presidente da República, finalmente, dá o corpo ao manifesto (pelo menos dois amigos e conselheiros nesta equipa); o Prof. Nogueira Leite não brinca em serviço; e, em terceiro, este meu amigo é mesmo um peixe de águas profundas...