Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Leitura de bolso (7)

Ideologia e literatura
Mais do que os pintores ou músicos, os escritores são intelectuais com o gosto da intervenção cívica. Muitos tiveram posições políticas marcantes ou biografias dominadas por fortes doses de ideologia. O século XX beneficiou os escritores de esquerda e só agora são consensuais as obras de alguns autores que durante a vida foram associados à direita, por exemplo, Albert Camus, John Dos Passos, George Orwell ou Alexander Solzhenitsyn, que sofreram duros ataques (por exemplo, há quem diga que o americano perdeu o Nobel por ter caído em desgraça junto da poderosa crítica esquerdista de Nova Iorque).

Mas o caso mais brutal de anátema atingiu um escritor norueguês, Knut Hamsun, que sem a política seria hoje um dos maiores génios da literatura. Nascido em 1859, Hamsun recebeu o Prémio Nobel em 1920, numa altura em que já era famoso, sobretudo por um livro disponível em português, A Fome. Ele foi o primeiro grande modernista, influenciou Kafka, Joyce e Thomas Mann, entre muitos outros. De origens modestas, era polémico e rebelde, um homem intratável, que odiava o capitalismo e o colonialismo, que não suportava ideias comunistas e que acreditava em predestinados. Era também pró-germânico e tornou-se um admirador de Adolf Hitler e do nazismo.
Há um episódio patético, em que o escritor, meio surdo e com mais de 80 anos, é recebido pelo ditador nazi. Durante a entrevista, Hamsun (que não era colaboracionista) critica os excessos da ocupação do seu país e interrompe Hitler, para grande irritação deste. Como se não bastasse, em 1945, Hamsun publica um pequeno elogio fúnebre do ditador, dias antes da queda do regime colaboracionista norueguês. Até à sua morte, aos 93 anos, o grande escritor foi humilhado, julgado, internado num asilo. Morreu na pobreza, esquecido pelos compatriotas durante meio século.
Mas, literariamente, Hamsun é um gigante. Num dos seus livros, Os sonhadores, de 1904, descreve os conflitos de uma pequena comunidade piscatória do norte da Noruega e a perda da inocência das suas personagens. A história atravessa um ano e modifica-se de acordo com as estações. A figura central é um individualista rebelde e manipulador, que numa passagem do texto, ao conversar com a mulher do pastor (estará ela amorosamente iludida?) diz isto sobre Deus: “Sim, é o Deus de todas a criaturas. Mas não tem nada de extraordinário ser o Deus dos animais e das montanhas. Somos verdadeiramente nós, os seres humanos, quem fazemos dele aquilo que ele é”.
A frase é todo um programa político e é dita pela personagem em que Hamsun se revê. Como é que um escritor com esta intuição se pode ter iludido sobre Adolf Hitler, que trinta anos mais tarde levaria milhões de pessoas à loucura e à destruição? Hamsun tinha profundo conhecimento da sua matéria-prima, os seres humanos, e apesar de tudo uma ingenuidade camponesa que o arrastou para crenças injustas. Talvez o desconhecimento da verdade explique o enigma; ou, quem sabe, em certas circunstâncias a lucidez não possa resistir ao fascínio do mal.

Leitura de bolso (6)

Comparações ao acaso
Há numerosas opiniões sobre o que é um bom livro, mas são sempre vagas. Lembram conversas de homens sobre o que é uma mulher bonita: em parte da análise todos concordam, mas há aspectos que cada um interpreta à sua maneira. A beleza é uma ideia difícil de sistematizar e talvez os livros sejam parecidos com o carácter das pessoas. Eles têm personalidades. Alguns são elaborados e densos, exigindo horas de leitura, até ser visível a sua profundidade; outros parecem charmosos, conquistam às primeiras linhas e depois tornam-se previsíveis; há ainda os que crescem, os que se transformam, os que borbulham. Há aqueles com mais defeitos do que qualidades e existe o inverso; há os que têm falta de estilo e os elegantes, os sem classe e os aristocratas, os simples e terra-e-terra, mas também os complexos; os mais ingénuos e os dominadores; os calmos e os intranquilos.
De certa forma, os livros são também semelhantes aos vinhos: todos envelhecem, uns bem e outros mal. O sabor que desagrada a um leitor pode fazer as delícias de muitos, depende da cultura, do gosto. E quem beba em excesso pode perder a capacidade de apreciar; é por isso que estranho aqueles que afirmam ler tudo o que lhes cai nas mãos. Gostam mesmo da complexidade dos sabores ou são atraídos pela intoxicação alcoólica da leitura?
Em matérias que ignoro, deixo-me guiar pelo rótulo. Geralmente, escolho os rótulos que me parecem bonitos e, por vezes, sou influenciado pelo marketing. Uma marca impõe respeito, mas o mais importante para o consumidor é a declaração subtil na compra: quero acompanhar os tempos, o bom gosto da moda, quero conhecer o que é relevante. Claro que por outro lado é difícil ter uma ideia concreta sobre a relevância.
 

Enfim, os livros são sempre como os melões: temos de os ler para percebermos o que está dentro, sem nos deixarmos enganar por capas bonitas, nomes grandiosos, grafismo, colorido exterior, fama internacional.
Lembram-se do tempo em que havia vendas de melões ao longo das estradas? Um tio meu dizia ser especialista na escolha e parava em cada venda; observava os melões, media-os, avaliava o peso, o conteúdo de água, pressionava a casca para avaliar a consistência; depois, escolhia, com ar convicto do sumo-sacerdote: “É este mesmo, uma doçura”.
Saíam pepinos na mesma proporção de uma escolha aleatória, mas o que contava era o ritual. Isso parecia diverti-lo e garantia o nosso respeito de crianças pela sabedoria que todos aqueles gestos revelavam.
Também é assim a leitura: a busca incessante pela perfeição, que nos ilude. E algumas escolhas ao acaso que nunca mais se esquecem.

Leitura de bolso (5)

Os contos de Anton Tchékhov (1860-1904) mostram toda a riqueza e complexidade da experiência humana. Para cada pessoa parece existir um conto que evoca episódios da existência real desse mesmo leitor (não falo de cor, também encontrei o meu).
O genial escritor (na imagem) está editado em português traduzido directamente do russo, numa edição em sete volumes da Relógio d’Água. No primeiro desses volumes, inclui-se um texto de Vladimir Nabokov, outro grande contista russo. Afirma Nabokov, dando com ironia o próprio exemplo, que em cada autor existe um determinado fôlego, resultando num número certo de páginas. O excerto é longo, mas deixo esta passagem: “Tchékhov tem sido comparado ao escritor francês de segunda Maupassant (chamado, sabe-se lá porquê, de Maupassant) e, embora no sentido artístico esta comparação seja insultuosa para Tchékhov, os dois têm um traço em comum: ambos têm respiração curta”.
 

A avaliação de Nabokov é dura para o francês, mas basta ler os dois contemporâneos em paralelo para descobrirmos diferenças na respectiva força. Tchékhov é mais poético e os seus retratos são mais humanos. Na comparação, Maupassant é claramente superficial.
Leia-se por exemplo, escolhido ao acaso, O Mendigo, do escritor francês, uma história sombria sobre um aleijado que todos recusam ajudar e que acaba por morrer de fome; o texto é um pouco previsível, porventura, tem personagens lineares, maus ou bons. Depois, em A Boa Estrela, do russo; três personagens com ligação indefinida entre si, um rebanho, a Via Láctea; e Tchékhov elabora toda uma complexa reflexão sobre as ambições humanas: “porque razão só quem está com os pés para a cova tem a mania da sorte na terra?”, pergunta-se o mais ingénuo, tocando no ponto crucial, ao ver o velho pastor a sonhar com tesouros enterrados. E quase nem damos conta da presença do “pensativo” rebanho de ovelhas que por ali pasta, primeiro preguiçosamente, depois numa agitação que reflecte o movimento interno das personagens, cuja motivação fica sempre por referir.

 

(Escrevo isto e lembro-me que um dos meus filmes favoritos, Le Plaisir, de Max Ophuls, é baseado em três contos de Guy de Maupassant. O episódio intermédio é de uma beleza comovente, tão perfeito que torna mais difícil aceitar a avaliação de Nabokov).

 

Termino regressando à questão do formato ideal. Se os russos levaram a tradição do conto a grande altitude, na literatura portuguesa existe a ideia (penso que errada) de que o conto é uma arte menor. Em Portugal não há leitores para pequenos textos e os escritores não os praticam. Os autores que têm mais inclinação para a história curta e menos para o romance parecem condenados a escrever romances menores, ao não tentarem a arte no seu fôlego próprio. Apesar disso, a nossa literatura teve bons contistas no último século (José Cardoso Pires, Miguel Torga, Branquinho da Fonseca, José Rodrigues Miguéis, Jorge de Sena, Joaquim Paço d’Arcos, Urbano Tavares Rodrigues, entre outros) e acho que não é exagero dizer que as melhores prosas de cada um destes autores têm a respiração curta da grande tradição do conto ocidental.
É assim em outras artes: muitos musicólogos dizem que o melhor Beethoven não está nas sinfonias, com a sua complexa gestão de tantos instrumentos, mas nos quatro últimos quartetos, onde só há dois violinos, uma viola e um violoncelo.

Leitura de bolso (4)

J. D. Salinger (1919-2010), na imagem, foi um dos grandes escritores americanos do século XX e acho que este seu romance capturou também os medos da América à beira de ser superpotência, com esta ideia de um corpo adolescente demasiado desajeitado, dos problemas de crescimento que impedem a personagem central de permanecer no seu silêncio.

Este texto tem uns anos. Foi publicado no DN, quando saiu uma nova edição de "Uma Agulha no Palheiro", agora com título "À Espera no Centeio".

 

 

Uma tradução pode envelhecer depressa e isso é mais evidente quando o livro em causa assume, na sua língua original, uma dignidade de obra-prima. Sem dúvida que isto justifica À Espera no Centeio, de J. D. Salinger, anteriormente conhecido em Portugal por Uma Agulha no Palheiro. Confuso? Então, vamos por partes. À Espera no Centeio é a mais recente tradução de the Catcher in the Rye. E a importância da nova tradução é a de revelar o romance em todo o seu esplendor, recusando o pudor da anterior tradução, que envelheceu demasiado, pois evitava a força de algumas expressões e o choque de palavras radicais.
Na riquíssima literatura americana do Século XX há um livro singular, The Catcher in the Rye, que se destaca de todos os outros pela originalidade e, sobretudo, pelo impacto que teve em muitos dos seus leitores. Mark Chapman, o assassino de John Lennon, tentou que o ex-Beatle autografasse uma cópia, poucas horas antes de o matar a sangue-frio. O autor, J. D. Salinger, vive em reclusão e não dá entrevistas. Por vezes, surgem rumores de que morreu, sempre impossíveis de confirmar. Diz-se que tem um baú cheio de livros por publicar e o tesouro, a existir, pode ser o negócio do século no mercado editorial. Estes elementos parecem pertencer a um folclore exterior ao livro, mas é como se The Catcher in the Rye fosse uma espécie de rebelde sem causa, revolução literária e mito. O fascínio que exerce não deixa de ser estranho.
O livro conta a história de três dias na vida de um adolescente de 16 anos, Holden Caulfield, que acabou de ser expulso do seu colégio, Pencey, e decide fazer uma gazeta a duas semanas do Natal, em Nova Iorque, não longe da zona onde mora. O romance é negro e cheio de surpresas e jargão, com uma narrativa simples, na primeira pessoa, com diálogo rápido, linguagem forte, cheia de ritmos interiores e oralidade muito inovadora na época em que foi publicado, 1951.
A personagem principal é um jovem na idade do “armário”, caricatura do mito americano da liberdade individual. Holden tem grande autenticidade, adolescente chocado com aquilo que o rodeia, por exemplo a indiferença, mas também dolorosamente deprimido pela sua incompreensão do mundo. The Catcher in the Rye é sobre a alienação e a imaturidade, uma tragédia com humor, sobre o que se passa na alma de um rapaz em mudança, incapaz de enfrentar o fim da inocência. Há vários momentos-chave e frases que ficaram famosas. Também algumas ideias que nos revelam a inquietação de Holden Caulfield, como nos momentos em que ele se interroga sobre o que acontece aos patos e aos peixes do pequeno lago de Central Park, quando a água congela. Talvez esta seja também uma metáfora involuntária da América, daí a fama instantânea do livro, a sua expulsão de bibliotecas, as críticas politicamente correctas, a devoção dos inadaptados.
Num livro onde reina a linguagem, a força de uma boa tradução faz a diferença. Na nova versão, À Espera no Centeio, o espírito perturbado da personagem torna-se mais nítido, assim como a sua perplexidade e raiva. Apenas dois exemplos:
As dificuldades de tradução começam no título, intraduzível e obscuro. A única referência surge a dois terços do livro, num pequeno episódio aparentemente sem importância, um miúdo que canta uma canção. A ideia está relacionada com crianças que brincam à “apanhada” ou que se escondem no mesmo jogo, “no centeio”. É a ideia central do romance: o ser humano que prolonga a “escondida”, que se protege dos outros, que rejeita um mundo deprimente, que não compreende a morte e tenta adiar o abandono da liberdade concedida pela infância. Uma ideia quase invisível, como se o próprio J. D. Salinger quisesse brincar às escondidas com o leitor.

Leitura de bolso (3)

As personagens
No prefácio à edição portuguesa de Destino de um Homem (Livros do Brasil) o escritor britânico Somerset Maugham (na imagem) escrevia uma reflexão notável sobre o processo criativo na literatura. Deixo um excerto particularmente impressionante: “Uma personagem não escrita, uma vez na cabeça de um escritor, torna-se sua propriedade. Pensa nela constantemente e, à medida que a sua imaginação a vai enriquecendo, goza o singular prazer de sentir  que ali, dentro do seu cérebro, alguém vive uma vida palpitante  e variada, obediente à sua fantasia, mas dotada de uma curiosa vontade própria e independente dele. Uma vez transposta para o papel, porém, essa personagem já não pertence ao escritor. Esquece-a. É curioso que uma pessoa que durante muitos anos ocupou os seus devaneios possa deixar tão repentinamente de existir”.
No fundo, o texto explica como as personagens exercem um poder feiticeiro sobre o autor, preenchendo a sua existência cinzenta. Mas Maugham sublinha outro aspecto talvez crucial no impulso que leva à escrita: refiro-me à vivência imaginária. O escritor vive anos a pensar a vida de alguém alheio, que se move como sendo pessoa real, mas com uma existência, no mínimo, mais interessante do que a sua.

Lembro-me de um amigo um dia me perguntar se lia biografias de escritores. Respondi que não e ele escandalizou-se, afirmando que era impossível compreender literatura sem ler biografias de autores. Talvez seja. Esta objecção pareceu-me ser lógica na altura, mas hoje tenho dúvidas. Reparem que (isto é válido para qualquer escritor), a biografia é sempre bem mais sensaborona do que a obra. Vale para quase todos os escritores, bons e maus. Maugham, aliás, é exemplo de uma vida literária bem mais rica do que a longa biografia sem grande história.
As excepções à regra são raras. Há autores que viveram situações extremas e muitas vezes não lhes sobreviveram. Nas biografias surgem esses episódios, mas o facto é que as vivências (guerras, genocídios, perseguições) nunca foram integradas nas obras. Vários casos extremos dizem respeito a trabalhos que se confundem com a biografia.
Há outro ponto importante na citação em cima: apesar da obediência, a personagem ganhar vida própria. Esta é a marca de um livro que funciona, quando a personagem se liberta do autor e parece caminhar pelo seu pé, como fazem as pessoas reais que são, afinal, a matéria-prima da literatura.
Depois, naturalmente, vem a parte cruel do excerto, o assassínio da personagem. O seu abandono, o seu esquecimento. O livro fica escrito e não há mais nada a fazer. O que nele é fracasso será definitivo, o que nele funcionar será dos leitores, que se apropriam das palavras e das personagens como se elas fossem sua própria criação.

Leitura de bolso (2)

O fim da Humanidade

A literatura tem extensa tradição de histórias pós-apocalípticas, sobretudo no género da ficção científica, mas há exemplos clássicos de relatos sobre a deambulação desesperada de personagens por mundos em colapso e paisagens desoladas. A crueldade das guerras deve ter produzido as primeiras referências, mas a destruição da humanidade é um mote mais recente. Nos cinemas está ainda em exibição um óptimo filme sobre o tema, A Estrada (na imagem), baseado no romance homónimo de Cormac McCarthy. [Ficamos na dúvida sobre a causa do apocalipse, mas os incêndios florestais a posteriori fizeram-me pensar na hipótese de asteróide].
O cinema adora este assunto (Mad Max, Waterworld) e já existe a tecnologia para o explorar. Na literatura, o tema terá aparecido com os românticos, mas foi usado por autores difíceis de classificar (Jack London, por exemplo).
Jules Verne e H. G. Wells exploraram o filão, que se tornou típico da literatura de imaginação científica. Mas a grande explosão de histórias surgiu no tempo da Guerra Fria, quando a destruição do planeta era uma possibilidade que não levaria mais do que alguns minutos de decisões erradas.
Há apocalipses de vários tipos, das invasões à doença. Dois livros famosos exploraram a destruição civilizacional criada pela cegueira súbita da humanidade: O Dia das Trífides, um sci-fi do britânico John Windham; e outro mais recente, Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago, onde se imagina um mundo pós-apocalíptico parecido com um campo de concentração.
Quando eu era miúdo e devorava livros da colecção Argonauta, gostei especialmente de um romance muito imaginativo, Um Cântico para Leibowitz, de Walter M. Miller Jr. É também uma notável reflexão sobre a religião, a força dos dogmas e a teimosia humana. Miller era sobretudo um autor de contos e surge exactamente neste formato um dos textos mais devastadores que já li sobre distopias pós-apocalípticas. Chama-se Lot, é da autoria de um obscuro jornalista e escritor americano, Ward Moore, que para a posteridade deixou esta história de uma dezena de páginas. Há um conto semelhante, de Júlio Cortazar, A Autoestrada do Sul que deu origem a um filme de Godard, Weekend; mas Lot também inspirou filmes (parece que nem pagaram direitos ao autor, limitando-se a roubar a ideia).
E que ideia é essa? Moore imagina uma ameaça (talvez uma guerra nuclear) e um homem menos que banal, que tem um plano de fuga da sua família. Esta corrida para a segurança prevê passos intermédios, incluindo chegar a determinada autoestrada em certa quantidade de minutos, levar apenas o essencial no carro, sacrificar o cão, escapar aos engarrafamentos de tráfego, por aí fora.
Seguimos o protagonista e os seus cálculos cada vez mais mesquinhos; a acção acelera, à medida que a condução fica mais brutal; a família discute; o mundo torna-se alucinante, enquanto a fuga avança e o tempo escasseia. Mas o leitor não está preparado para o final da história, que me parece ser um monumento literário sobre a natureza humana, no que ela tem de primitivo e, apesar de tudo, de complexo e impiedoso. Em Lot, o golpe de asa está no desenlace tão lógico que só podia ser aquele. Pelo contrário, em A Estrada é um final mole que desilude e enfraquece uma ideia que tem dado pano para mangas.

Leitura de bolso (1)

O regime comunista romeno de Nicolae Ceausescu, que terminou em 1989, não criou apenas um estado policial que tiranizava a vida do seu povo. Perante o silêncio da Europa ou o encolher de ombros dos intelectuais do ocidente, as minorias étnicas foram oprimidas, os indivíduos humilhados e uma geração inteira acabou desmoronada.
A tirania é o pano de fundo de um romance, A Terra das Ameixas Verdes, oportunamente reeditado pela Difel após a sua autora, a alemã Herta Müller, ter recebido o Prémio Nobel da Literatura. Trata-se de um livro político, testemunho individual escrito numa prosa densa.
O romance conta a história de um grupo de amigos de etnia alemã no norte da Roménia (um círculo de poetas) das suas vidas sem esperança, num contexto de profunda opressão. O leitor viaja para as planícies da região de Timisoara e pressente que Müller incorporou no texto elementos da sua própria experiência. Este é um mundo de mortes, violações, incomunicabilidade, denúncias, culpas, cinismos, prisões sem lei, violência pura, traição e excesso de passado, comunista e fascista.
“A má sorte atacara-nos de modos diversos, desde que nos tinham espalhado pelo país. Permanecemos dependentes uns dos outros. As cartas com os cabelos não serviam para nada, quando o medo que trazíamos na cabeça era legível na letra do outro” (pág. 185). Este é um resumo da tragédia individual, mas há excertos onde se fala do absurdo do regime: “Os operários roubam os restos de madeira e fazem com eles pavimentos de parqué (…) Quem não rouba não é levado a sério. Daí que eles não possam, mesmo quando já têm o andar inteiro forrado a parqué, parar de roubar e de colocar parqué. Por isso, colocam-no nas paredes até ao tecto”.
A estrutura é fragmentada e a leitura torna-se por vezes difícil, devido à crueza das situações, nas quais a autora introduz um sopro poético que faz levitar certas passagens. Existe um fio de histórias, talvez centenas, algumas arrepiantes, outras apenas sugeridas, muitas delas poderosamente visuais: a seita de velas acesas que viaja num comboio; os óbitos de um casal que tentara fugir (ataque cardíaco); a avó senil que não pode ir ao enterro do marido; a discussão caseira; as cartas com cabelos colados, para se descobrir se foram abertas; a infância soturna, a vigilância, o medo e a saída do suicídio (ou serão homicídios?).
O livro ganha poder página a página, tem um final lindíssimo (de tão pungente) e a sua tradução, por Maria Alexandra Lopes, deve ter sido uma tarefa bem difícil, pois adivinha-se grande complexidade linguística, com misturas de romeno e húngaro na base de um alemão repleto de imagens complexas: afinal, o mosaico étnico-cultural daquela região.
Herta Müller deixou a Roménia em 1986 e nem no exílio deixou de ser alvo de difamações e ameaças, vigiada pela sinistra Securitate. Recentemente, ao receber o Prémio Nobel, a escritora explicava que a tentação totalitária não desapareceu ainda. A Terra das Ameixas Verdes explica a razão da persistência do mal.

 

Versão de um texto publicado na revista NS do DN