Sem mudança o futuro é incerto
Os mais sensatos sintetizam a crise portuguesa dizendo que houve uma década sem crescimento económico e que os últimos anos foram de endividamento galopante.
Os mercados já não acreditavam que Portugal pudesse pagar as suas dívidas. Xeque ao rei. Só havia uma saída, a ajuda externa, que tem custos terríveis para a sociedade portuguesa.
O actual governo de José Sócrates foi eleito em 2009 após uma campanha em que vendeu ilusões. No mandato anterior, apesar da maioria absoluta, o primeiro-ministro aumentou a despesa e subiu os impostos; não quis, ou não conseguiu, concretizar as reformas que podiam ter evitado o colapso.
O desemprego cresceu (é o maior de que há memória) e o Estado namorou durante um ano com a insolvência, arrastando toda a economia.
Os portugueses que até agora pagaram a crise concluem que os seus sacrifícios foram inúteis. Vem aí a austeridade a sério e pagam os suspeitos do costume: os mais pobres, os trabalhadores, as classes médias.
Apesar de ser o maior responsável pela situação em que se encontra o País, Sócrates é exímio em sacudir a água do capote. A culpa é da crise internacional; dos especuladores, que são uns vampiros; das oposições, sobretudo do PSD; do Presidente Cavaco Silva; dos líderes europeus, que entretanto já não são culpados, especialmente a senhora Merkel; enfim, a culpa é dos banqueiros sem patriotismo. A culpa é de toda a gente, menos do PS, menos do primeiro-ministro. O colapso ocorreu na semana passada, como se as taxas de juro tivessem começado a subir mal o PEC IV foi chumbado. Esquece-se convenientemente que este era já o quarto PEC, e que houve o terceiro, o segundo e o primeiro, tudo no espaço de um ano.
Sócrates acredita que os portugueses não têm memória, que esqueceram as suas promessas vãs, a propaganda tola, os anúncios falsos, as mudanças de opinião em 24 horas.
Nos próximos anos, o País será em parte governado por burocratas ligados a duas instituições internacionais, a Comissão Europeia e o Fundo Monetário Internacional. O Conselho Europeu terá extensos poderes sobre as nossas decisões, em matérias orçamentais ou em legislação que afecte a competitividade.
Assim, as próximas eleições serão um julgamento sobre a situação de cada um e a responsabilidade dos políticos. Os eleitores terão de responder em primeiro lugar a estas perguntas: Estou melhor do que em 2009? E qual é o partido mais envolvido neste descalabro?
O facto de haver burocratas estrangeiros a influenciar as nossas decisões exige um governo forte, com mais do que um partido e com independentes.
Por isso, a terceira questão é sobre o primeiro-ministro. Em 2009, a oposição cometeu o erro de tentar referendar o carácter do chefe do Governo. Foi penalizada nas urnas. Mas, desta vez, o estilo político não é indiferente. Os próximos quatro anos serão difíceis e exigem um Governo capaz de dialogar, que se mostre negociador e abrangente.
Sócrates provou que não tem estas qualidades. Ao tentar impor o PEC IV sem o negociar previamente, precipitou a queda final. Ao insistir teimosamente em adiar a ajuda externa, tornou-a ainda mais dispendiosa. Por outro lado, Passos Coelho, o outro candidato credível a primeiro-ministro, já demonstrou que possui a capacidade para unir facções e criar consensos.
Estas são as eleições mais importantes em década e meia e alguns querem transformar a campanha numa berraria insensata, visando impedir uma discussão séria. O que está em causa não é apenas julgar o passado, mas sobretudo saber se Portugal tem flexibilidade suficiente para conseguir mudar o ciclo político.
As recriminações não interessam tanto como o olhar em frente. O regime democrático consegue criar uma solução viável? Podem os partidos renovar-se e fazer reformas no País e dar esperança à população?
Acho que as qualidades dos povos são visíveis sobretudo nos momentos de maior perigo. É nas crises que se mostra a fibra e, sem mudança, o nosso futuro é incerto.
