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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

A campanha mais longa.

A entrevista de ontem à RTP confirmou claramente a estratégia de Sócrates e o seu guião de campanha: responsabilizar a todo o momento os partidos da oposição e em primeiro lugar o PSD pelo tsunami de desconfiança dos mercados que se abateu sobre o país, aproveitando as notícias negativas que todos os dias surgem. Acessoriamente surge ainda a tentativa de responsabilização do Presidente pela crise política, que ontem começou por ser um innuendo, mas que é claro que vai ser desenvolvido durante a campanha. Pelo contrário, o Primeiro-Ministro apresenta-se a si próprio como possuindo sentido de responsabilidade e tendo procurado evitar a todo o custo a crise, atirando para os outros as culpas do agravamento da situação do país.

 

Este tipo de discurso não engana quem esteja minimamente informado, mas tem que se reconhecer que é um discurso eficaz, especialmente porque os jornalistas não conseguem evitar o constante monólogo em que Sócrates transforma as suas entrevistas. O Governo passa unicamente uma mensagem simples de responsabilização dos outros e reitera que a receita que tinha proposto conseguiria evitar o descrédito dos mercados. O PSD deveria responder a esta estratégia ignorando os ataques e apresentando propostas concretas de solução dos problemas, que têm que ser mantidas até ao fim. Dizer num dia que se vai aumentar o IVA para depois desmentir a notícia uns dias depois e logo a seguir falar que o PSD irá ajudar as famílias a pagar as casas ao Banco é precisamente o que não deve ser feito nesta altura. Há que, pelo contrário, denunciar a todo o tempo a situação catrastófica em que o país se encontra, apresentar propostas de solução, e explicar que não há condições para se fazer promessas, quaisquer que elas sejam.

 

Enganam-se aqueles que já dão Sócrates como acabado. O meu caro José Adelino Maltez até lhe chama "o homem que passou", em artigo hoje publicado no DN e aqui no Albergue. A situação tem paralelo com um artigo que Manuel Rodrigues escreveu sobre Salazar em 1938, ao qual deu precisamente esse título, por considerar que Salazar já não tinha futuro como Presidente do Conselho e que era altura das despedidas. Conforme se sabe, Salazar ficou mais trinta anos no cargo. É por isso que acho que Sócrates está muito longe de ser "o homem que passou". É um adversário difícil e vai lutar sem tréguas pela manutenção do poder no quadro de uma estratégia que delineou e que está a seguir à risca. Se ganhar, mesmo com maioria relativa, ninguém se atreverá a derrubá-lo antes de  2015, altura em que se posicionará para substituir Cavaco Silva. Se perder, lançará uma oposição constante ao Governo que o substituir, em ordem a voltar ao Governo em curto prazo ou, se não conseguir, candidatar-se a Presidente em 2015. É por isso que não haverá qualquer pedido de ajuda externa enquanto Sócrates estiver em funções, por muito que os banqueiros esperem e desesperem por essa ajuda.

 

Com notícias como esta e esta a surgir todos os dias, está-se a tornar evidente que vamos ter a campanha eleitoral mais longa da história da democracia. É curioso que as eleições tenham sido marcadas para 5 de Junho, pois estão muito próximas do aniversário do célebre dia D, 6 de Junho de 1944, que representou a viragem na II Guerra Mundial. Simbolicamente o dia 5 de Junho pode implicar igualmente uma viragem na situação do país, mas para isso é preciso apresentar uma mensagem consistente sobre soluções concretas para a crise. Não se promete o céu a quem anda à deriva num mar tempestuoso. Demonstra-se antes que se pode levar o barco a bom porto.

 

 

 

 

 

 

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