Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Uma casa na pradaria

Apesar de ter perfeita consciência de ser parte de uma geração absolutamente fabulosa e pioneira em muitas das coisas que hoje fazem já parte da memória coletiva do país, espanto-me de todas as vezes que descubro que partilho algumas dessas memórias com pessoas que não conheço.

 

Diariamente oiço nem que seja uma das edições da Caderneta de Cromos, portanto, é natural que aconteça isto com alguma frequência.

 

Há, contudo, memórias que julgamos serem exclusivamente nossas - um cartaz na rua, uma cena de um filme, uma frase que nos dirigem – e que temos a certezinha absoluta que passou completamente ao lado de qualquer outro ser vivo à face do planeta.

 

O caso deu-se hoje de manhã. Um dos cromos de hoje era sobre a série “Uma casa na pradaria”. Até aqui, tudo bem, quem não se lembra do genérico em que elas vinham a correr pela pradaria fora, de toucas e saias e botas e sorrisos? Quem não se lembra da cabana de madeira onde a família era tão feliz, mesmo apesar de não terem televisão, nem telefone, nem sequer torneiras?

 

 

 

Como nós também somos três raparigas a analogia era direta: a L. era a Mary, a mais velha e responsável. Para mais, eram ambas muito parecidas com os cabelos loiros e fartos, os olhos azuis muito claros e a atitude de mãezinha um bocado irritante. A B. era a Carrie, a mais pequenina. Também estas duas se pareciam bastante, com os cabelos castanhos escorridos, uma franja muito lisa a cobrir metade dos olhos azuis e as birras típicas de irmã mais nova. Finalmente, e por mera exclusão de partes, eu era a Laura. Mas só mesmo por sermos ambas a irmã do meio e nunca me ter ocorrido perguntar ao meu irmão mais velho se não queria trocar comigo – ele passava a ser a Laura e eu o cavalo (estou a gozar, ele não era o cavalo – nunca nos ocorreu). Laura e eu não tínhamos nada, mas nada mesmo, em comum. Talvez os dentes, assim meio saídos, vá. De resto, ela tinha cabelo comprido e eu curto, ela era ruiva e eu castanha, ela era agitada e rebelde e eu uma alforreca catatónica. Enquanto a Laura corria alegremente pradaria fora com as longas tranças a brilhar como riachos ao sol, a única coisa em mim que corria eram os pensamentos e a única que brilhava era o aparelho nos dentes, já que o meu cabelo era tão sedoso como as cerdas de uma vassoura de galhos, e tão fácil de entrançar como estes. Mas isso não me entristecia, pois não era a Laura quem eu queria ser. Ela era demasiadamente ruiva, arrapazada e sardenta, demasiadamente Pipi das Meias Altas, para meu gosto. Quem eu secretamente desejava mais do que tudo ser, era a Mary. Linda, linda, perfeita, suave, crescida, determinada, feminina e até um bocadinho irritante. A Mary.

 

É aqui que entra a minha memória secreta partilhada com o Markl. Tal como ele, apesar de guardar boas memórias da série, não guardei detalhes. Não me lembro sequer da história de um episódio. Mas uma coisa ficou gravada para sempre na minha memória e fez com que essas recordações deixassem um travo amargo definitivo nas papilas gustativas da minha infância – a cena em que a minha adorada Mary, a minha irmã mais velha tanto na série como na vida real, a minha heroína forte, responsável e autoconfiante, acorda completamente cega.

 

O monumental glaciar da nossa fragilidade assim despejado sobre a lava incandescente do Eyjafjallajokull criativo da criança Marta, teve exatamente o efeito esperado – transformou-a em rocha sólida. Bem, talvez não em rocha, mas pelo menos numa pedra pomes grandinha, assim pelo tamanho de uma carcaça ou até maiorzinha, tipo pão saloio.

 

E eu nunca mais vi a série com os mesmos olhos.

 

 

E tantos anos depois descubro que, no mesmo dia, há mesma hora, algures em Benfica, outra criança era vergastada pelo cavalo marinho da Vida e transformada num pequeno seixo redondo, de óculos graduados e collants  por baixo das calças. Para não mais se esquecer.

E achei piada.

 

 

.

5 comentários

Comentar post