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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Resposta à carta da Irlanda

Querida Irlanda:

Os cavalheiros respondem às cartas e li com apreço a tua missiva "Bit of Friendly advice, Portugal", já aqui publicada. Serve a presente de resposta. Se não te importas, vou usar a forma "tu", que não existe na tua língua. Mas, enfim, já és uma rapariga crescida e conhecemo-nos há mais de seis séculos.

 

Estava aqui a ponderar que nos une o clima húmido, o coração largo, a ocasional nostalgia, o espírito independente. Mas somos os dois azarados. Eu tive um império e larguei pelo mundo fora como uma barata tonta e nunca é fácil regressar à mesquinhez de um rectângulo. No teu caso, foi a fome que alargou os horizontes. Somos ambos provincianos e os europeus acham-nos saloios, mas eles não sabem que aprendemos muito com as dificuldades e temos os dois uma sabedoria antiga. Enfim, nenhum de nós nasceu para servir.

Não me quero meter na tua vida, Irlanda, mas vi uns filmes de John Ford e imagino que sejas rebelde, que não gostas de injustiças, nem de receber ordens. Um vizinho grande deu-te grandes cotoveladas e ao fim dos séculos a gente habitua-se, mas tivemos o mesmo problema, tu com a Inglaterra, eu com a Espanha. Ah, e falas um inglês esquisito que me encanta, por parecer cantado.

 

Obrigado pelo teu conselho de que os meus políticos não querem o resgate financeiro, mas vão ter de o aceitar, provavelmente a um domingo. Já tinha suspeitas de que isso vai mesmo acontecer assim.

Agradeço também os comentários sobre as eleições, embora esta não seja uma "diversão agradável pelas próximas semanas", como dizes, mas falamos mais em meses, pois aqui os prazos constitucionais são terríveis, todos tirados de calhamaços do século passado e desactualizados em relação ao mundo moderno.

Mas as eleições até podem ser úteis, pois aqui a situação é um pouco diferente da tua: eu não tinha um governo de maioria que meteu água e afundou o país; tinha um governo de minoria que meteu água e afundou o país. Agora, preciso de um governo de maioria que possa melhorar um bocadinho a flutuabilidade geral. Assim, o meu é um problema de liquidez, so to speak.

 

Minha querida amiga Irlanda. Tal como acontece comigo, tu não gostas muito da realidade e assim o confessas, embora a realidade possa ter as suas vantagens, sobretudo quando se engole em doses muito pequeninas.

E agradeço quando me aconselhas a gozar as ilusões de que a ajuda externa é mesmo ajuda e de que um salvamento é mesmo salvamento. Será bom iludir-me, por uma vez. Ao fim de 900 anos de existência, já deixei de ter grandes ilusões sobre a bondade dos grandes poderes. Sei que os erros se pagam caro e sei que esta conta é difícil de pagar. Terei de trabalhar como um irlandês (perdão, bad joke) para cavar ainda mais o buraco onde já estou. Vou também pintar a minha economia (como aconselhas) com uma nova camada de tinta fresca e respirar, por breves e satisfatórios momentos, o cheiro da tinta fresca.

Enfim, vemo-nos no Conselho Europeu, e combinamos os dois chatear os alemães e rir à brava, eu a emborcar um tinto e tu uma pint.

E temos também encontro marcado para a final do Euro 2012, depois de eu ter eliminado a Espanha e tu a Inglaterra. Na final, que ganhe o melhor e depois rimos à brava.

Do teu

Portugal

 

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