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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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Uma frase infeliz

A chanceler alemã, Angela Merkel, falou sobre Portugal no Bundestag e fez uma afirmação que está a entusiasmar os propagandistas pró-governamentais.

Segundo disse a chanceler, "Portugal apresentou um programa muito corajoso para os anos 2011, 2012, 2013. Era apropriado. Lamento profundamente que não tenha sido aprovado pelo parlamento [português]".

 

Acho que os propagandistas deviam meditar nesta frase e conter o seu entusiasmo. Na realidade, a senhora Merkel ultrapassou uma linha muito delicada e criticou um parlamento de outro país.

Compreendo a frustração da chanceler, sei que tem eleições muito complicadas dentro de dias e que a declaração era para consumo interno, mas a Alemanha tem horror a parecer o elefante dentro da loja de cristais e foi isso mesmo que pareceu. A frase é extremamente infeliz.

 

O Conselho Europeu, onde a senhora Merkel tem uma opinião decisiva, é um órgão intergovernamental e não consta que ali se critiquem decisões de parlamentos. Estas aceitam-se. Se a chefe de governo da Alemanha criticasse uma decisão do parlamento britânico, por exemplo, imagine-se a comoção nas ilhas britânicas. Se o primeiro-ministro português criticasse uma decisão do Bundestag, que diria a senhora Merkel? O óbvio: é uma decisão da nossa democracia e não lhe diz respeito.

 

A senhora Merkel tem todo o direito de criticar o governo português por não poder concretizar um plano muito apropriado que apresentou no Conselho Europeu. Tem o direito de criticar Portugal pelo estado das suas finanças, que os contribuintes alemães terão provavelmente de financiar. Tem o direito de defender os interesses da Alemanha e de o dizer no seu parlamento.

Mas a União Europeia ainda não permite a crítica a decisões democráticas de parlamentos. O governo Sócrates era minoritário e dependia de outros partidos, que não consultou. A senhora Merkel de certeza que sabia disso. Criticar decisões de parlamentos nacionais não vem nos tratados e não pertence à tradição das declarações dos chefes de Governo europeus, pelo menos em público.

 

Os blogues têm destas coisas: o meu post foi escrito ao mesmo tempo do de Luís Menezes Leitão, mais abaixo, onde se explica muito melhor o que está aqui em causa.      

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