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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Cuidado com os idos de Março

I

O João Villalobos descreve, num post mais abaixo, "Ou Sócrates ou o Homem do Saco", a extensão dos nossos problemas. Não percebo como é que, no cenário em que vivemos, se fala tanto de estabilidade. Pelo contrário, Portugal precisa de um abanão e a mudança é cada vez mais urgente.  Depois de uma semana fora e sem notícias, regresso com a sensação de voltar a um País não apenas em crise, mas em negação da realidade. Um País que terá de recorrer à ajuda externa após seis anos de erros sistemáticos feitos por um governo socialista que quer escapar à sua responsabilidade e, acima de tudo, que errou ao acreditar na própria propaganda, actuando sem pragmatismo ou lucidez, adiando de forma teimosa as decisões que a oposição, os peritos e os parceiros europeus recomendavam.

Este viver virtual não foi apenas de uma clientela que trata o Estado como coutada privada, que desbaratou a oportunidade única de subsídios europeus em larga escala, fazendo cínico uso de recursos públicos, governando para satisfazer interesses de grupos. Na realidade, o país viveu várias fantasias: poderíamos navegar à bolina no caos da justiça, no despesismo e na corrupção, na educação fracassada, na especulação urbanística, no carreirismo político, na mentira descarada. Os alemães pagariam sempre a factura.

E basta ler os comentadores para perceber que a ideia persiste, na antecipação da cimeira do fim do mês: a culpa é da senhora Merkel, que não compreende os nosso problemas, que não é "suficientemente europeia" e faz contas de merceeira, recusando abrir os cordões à bolsa para salvar o nosso estilo de vida. Traição, gritam, como se falassem de César. 

São os mesmos comentadores que levaram José Sócrates aos píncaros, que elogiaram a sua determinação e sempre ocultaram a sua teimosia; os comentadores que falharam todas as previsões, que negaram o óbvio, que interpretaram como virtuosos os sinais de declínio e de empobrecimento. Os que sempre se comoveram com a estabilidade, a estabilidadezinha que nos levou ao caminho pedregoso e difícil que temos pela frente.

 

Mas a estratégia da vitimização, do ónus e da inevitabilidade (na feliz expressão do João Villalobos) não funciona a nível europeu, onde decorre uma alteração fundamental, não prevista nos tratados. Para contrariarem a crise financeira, os líderes europeus vão concretizar modificações na estrutura da zona monetária, as quais reduzem de forma substancial a soberania dos Estados membros da UE. Nada disto estava previsto nos textos, mas sobretudo é feito ao estilo congresso de Viena e ao arrepio das opiniões públicas, que terão depois de estudar o facto consumado.

A decisão sobre o novo modelo do chamado "governo económico" é exclusivamente intergovernamental e a sua "legitimidade" vem do facto de Jacques Delors e outros dirigentes europeus terem no passado recomendado em vão algumas regras na matéria.

Se a cimeira de Março for um êxito, o Conselho Europeu passará a ter poderes na gestão das economias (negociações salariais dos países, pensões, até harmonização fiscal) e haverá sanções para quem prevaricar: fala-se em suspensão de direitos de voto no eurogrupo.

A cimeira de todos os perigos pode revelar-se um fracasso, mas se for um êxito, o contrato do euro muda de forma radical. A Europa será algo de diferente, nunca discutida, negociada em cima do joelho e ao sabor das dificuldades de conjuntura. Portugal será mais periférico e ainda mais irrelevante; provavelmente, não escapará à humilhação do resgate ou talvez até não escape a outros cenários mais sombrios que parecem no destino dos dois resgatados até agora, Grécia e Irlanda.

Se a cimeira for um êxito, Portugal pagará em géneros, ou seja, em cedência de soberania, mas não será na forma de um temporário FMI a mandar nas contas, mas de um arranjo permanente com as potências europeias. Um acordo para o futuro, que nos obriga a mudar para sempre, de tal forma serão terríveis as consequências de ficarmos na mesma. E é isto que não está a ser dito aos portugueses.

 

II

O governo económico aumentará o poder do eixo franco-alemão. Londres tem cláusulas de exclusão próprias e certamente outras ambições europeias, mas a integração vai provavelmente acelerar e, tal como já li neste texto de Jorge Costa, num modelo ainda mais parecido com o defunto império austro-húngaro. Sim, a Europa tem hoje semelhanças importantes com esse império e julgo que ficará ainda mais semelhante. A experiência austro-húngara foi notável no seu tempo, sobretudo nos últimos 50 anos, fazendo de duas potências médias da Europa de então uma potência relevante na ordem mundial. Havia livre circulação de pessoas e uma intensa actividade económica que trouxe grande prosperidade. Mas o arranjo tinha o defeito do excesso de burocracia, da rigidez das suas salvaguardas e mecanismos de compensação. As principais decisões tinham de ser negociadas cuidadosamente e perdia-se tempo precioso. O recuo do império otomano nos Balcãs revelou-se um desafio que os austro-húngaros não conseguiram superar, mas é duvidoso que conseguissem resolver a questão das nacionalidades.

O contexto actual é curiosamente semelhante ao de 1900; uma hiperpotência com alcance global (EUA); uma força económica emergente a desafiar essa hegemonia (China); e um grupo de aspirantes com grande peso económico ou influência política (conto pelo menos cinco, UE, Rússia, Japão, Índia e Brasil, embora possa surgir um sexto, na forma de um conjunto de países árabes liderado pelo Egipto). As alianças são fluidas e muito favoráveis aos EUA, mas isso pode mudar. E outra diferença fundamental é o facto de haver neste grupo apenas um império, a Rússia, que terá dificuldade demográfica em manter alguns territórios asiáticos.

 

Mas já estou em digressão furiosa. O ponto essencial é o seguinte: as potências europeias que se suicidaram no século XX não têm neste momento uma alternativa credível a mais integração numa estrutura como a UE ou outra que venha a ser inventada. Portugal faz o mesmo raciocínio: o seu futuro é europeu, passa pela cedência de soberania e afirmação no contexto das instituições comunitárias, incluindo um eventual governo económico, fundos de resgate e a parafernália já possível com os actuais tratados, como cooperação militar e cultural.

Mas existe, por um lado, o problema disto não estar a ser devidamente explicado, pelo que os portugueses ainda vivem numa espécie de sonho pós-imperial, no qual a Europa funciona como simpático mecenas de um estilo de vida irrealista. Por outro lado, entramos nesta nova fase ressacados. Trinta anos de subsídio parecem ter servido para pouco e os últimos seis anos foram simplesmente perdidos.

Foi gasta uma fortuna na expansão da elite, mas a juventude com formação emigra; o modelo económico é basicamente o mesmo, competimos com a China na gama dos baixos salários; a infra-estrutura melhorou, mas em grande parte é inútil ou apenas mais uma despesa; não temos crescimento económico e o desemprego aumenta. Estamos profundamente endividados e vamos empobrecer.

 

E ainda há quem queira manter tudo como está, sem abanar o barco, sem agitar as águas. Manter a mediocridade, o isolamento e a irrelevância. São os do costume, os estrategas das batalhas perdidas, os indolentes senadores dos idos de Março, agarrados aos seus lugares e que se recusam a ver que o mundo à volta deles já mudou para sempre.

A manter-se o marasmo, e quando esta crise finalmente suavizar, poderemos ser uma das regiões mais pobres da Europa, a mais desigual, um simples destino de férias para velhinhos do norte. Um país de chapéu na mão, com humilde sorriso tristonho.

Ou podemos tentar contrariar as sombras e lançar o início de um novo ciclo.       

     

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