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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Ou Sócrates ou o Homem do Saco

 

Este Governo socialista está a criar, paulatinamente, uma percepção pública assente numa tripla de factores composta pela Vitimização, o Ónus e a Inevitabilidade. A raíz comum são as circunstâncias externas: O Governo nada pode fazer, excepto aquilo a que é obrigado. Vitimiza-se, porque justifica decisões impopulares dizendo que colheu os frutos de erros passados. Desculpa o que não consegue fazer por sofrer o ónus da crise "lá de fora". E toma medidas contra-natura pela inevitabilidade das circunstâncias futuras. Em suma, utiliza sem pejo o lacrimejar e a ameaça. Já não é o pau e a cenoura. É o "Ou Sócrates ou o Homem do Saco".

Do lado de cá, os Portugueses assistem a um retrato disfuncional entre o comportamento da chamada Sociedade Civil e a oposição democrática. Marca-se uma manifestação nas ruas originada por uma canção de descontentamentovota-se noutra de estilo quejando para nos representar no Festival da Eurovisão. Sintonia? Para quem está farto do que existe, o melhor seria que não existisse. A ausência de alternativa torna-se indiferente, face ao peso do que é vivido. O insuportável do hoje motiva a queima dos objectivos para amanhã. E quem lhes fala?

Não é por acaso que a agenda da manifestação é divulgada quotidianamente no Twitter pelo ATTAC, organização internacional que está por detrás de todas as recentes revoltas anti-sistema. Não significa isto que os organizadores sejam instrumentados. Mas sim que os acontecimentos coincidem com o descalabro desejado do status quo, por entidades cuja agenda é ainda mais difusa do que a do Clube de Bilderberg que tanto adoram denunciar.

Portugal é hoje pequeno, é minúsculo. Não tem senão um Passado desperdiçado a que se agarrar, quanto tenta com as mãos estendidas receber as migalhas que lhe restam. Alimentou-se durante as últimas décadas sem que os braços fizessem outra coisa senão enfiar no bolso dinheiro desperdiçado, quando se tratava de um investimento para que se fizesse à vida e aprendesse a crescer por si. Quase todos fomos coniventes com isto; Os avós e  os pais dos que se manifestam, mas também os próprios. Uns porque não construíram mais do auto-estradas para lado algum e uma geração maioritariamente composta por mimados egóicos espoliados de Visão, os últimos porque arderam a mesada que lhes foi dada num "que se lixe o Amanhã" de desperdício, entre a 24 de Julho e os bares da Ribeira.

Todos seriam médicos, doutores e engenheiros e afinal acabaram num call-center, como assistentes de Administração, investigadores com bolsas dos 300, numa loja da Zara ou atrás do balcão de um bar. A geração do protesto é a geração do shot. Da bebedeira instantânea. Mas eis que chegou o tempo da ressaca.

Dito isto, cabe a quem é oposição ao Governo actual que nos manipula apresentar quanto antes uma alternativa. Não quando a casa nos cair em cima, porque o telhado já há muito caiu. Mas pelo menos evitando que ela passe a ser como a mencionada no vídeo que ilustra este texto. Ou seja, uma estrutura inabitável. Algo que será, aí sim, fruto do medo e do ónus de tudo o que não foi feito, campo aberto para os sem abrigo que não conseguiram fugir para outro lado qualquer. Os Sex Pistols, no início dos anos 70, gritavam No Future. Agora esse grito regressa, quatro décadas depois e ainda com mais distorção. Alguém que tenha unhas para pegar na guitarra que traga outra música que não a da desilusão. Porque essa, por mais que ganhe adeptos nas ruas, não nos dá as casas para onde possamos regressar.

      

 

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