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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Silenciosos, seremos conduzidos como cordeiros ao matadouro

Nota prévia.

 

Em Novembro, a propósito do meu despedimento do Rádio Clube, lembrei-me de acrescentar uma carta ao livro "Cartas a um Jovem Jornalista", da autoria de Juan Luís Cebrian, CEO da PRISA, grupo de Comunicação Social ao qual pertencem o Rádio Clube e a TVI, ou seja, um dos protagonistas escondidos do negócio falhado da venda da estação de Queluz..

 

Na obra um  velho e experiente jornalista escreve a  Honório, aspirante à profissão, convidando-o a algumas reflexões sobre o jornalismo.

 

Li na diagonal. E achei quelhe faltava algo. Aqui fica a minha sugestão ao sr. Cebrian para que a obra fique realmente completa.

 

Nunca pensei é que este "post" que fiz no meu blog "Novas Crónicas da Sala de Espera" ganhasse de novo actualidade.

 

 

 

****

 

Madrid, 15 de Novembro de 2009

 

"Caro Honório,

 

Tantos anos passados, desde a nossa última conversa...

Lamento saber, sinceramente, que estás para abandonar a nobre
profissão de jornalista. Fiquei atónito (mas quem sou eu para te
criticar quando também eu segui um caminho (quase) divergente do jornalismo ao
aceitar ser o CEO da PRISA).

 

Não imaginas o quanto me sinto frustrado com essa tua decisão! Uma
perfeita bizarria, devo dizer-te.

 

É de ti, da tua geração, não da minha, que depende o dia de amanhã do
jornalismo. O futuro não é, realmente, um futuro fácil; mas os
compromissos que o jornalismo moderno continua a assumir, ainda
apontam o mesmo caminho de sempre: o caminho da intervenção cívica e
da defesa da verdade.

 

É isso que faz com que o jornalismo continue a viver uma vida
saudável, fazendo funcionar a Democracia, vivendo vidas separadas do
poder, dos interesses; até da indústria da propaganda e das relações
públicas. É isso que faz com que as pessoas continuem a acreditar no
que escrevemos.

 

Não é de facto uma tarefa fácil. Mas tu estavas à altura. Não foi por
acaso que te escolhi entre tantos outros...

 

Tens razão quando dizes que não está ao nosso alcance limparmos todas
as lágrimas de todos os olhos do mundo, mas a obrigação do jornalista
é tentar. Tentar sempre!

 

Como diria Martin Luther King, só conseguem montar-nos, se nós
andarmos de costas curvas. E tu nunca serias homem para tal.  Daí a
minha frustração, caro Honório, pois confiava em ti para seres um dos
guardiões da independência do jornalismo, defendendo-a do arregimentar
das mentes, defendendo-a dos interesses e das agendas dos políticos,
dos grandes grupos económicos.

 

Mas respeito a tua decisão. Deixas esse combate para outros. Estás no
teu direito! Afinal de contas, tentaste escrever uma história que
comprometia gente poderosa com influência sobre o jornal onde
trabalhavas. Não é caso único. Em Lisboa aconteceu o mesmo a uma colega tua.

 

Concordo quando citas o General George Washington (como vês este é um velho problema). A citação - que Al Gore também faz na sua obra "O Ataque à Razão" - contém a metáfora perfeita para me explicares como realmente te sentes: "Se os homens
forem impedidos de expressar os seus sentimentos sobre um assunto
susceptível de acarretar as consequências mais graves e mais
alarmantes que a humanidade possa imaginar, a razão não nos serve de
nada; a liberdade de expressão poderá ser retirada e, mudos e
silenciosos, seremos conduzidos como cordeiros ao matadouro."

 

Nem de propósito. Chegam-me de Lisboa as ondas de choque de um
despedimento de um jornalista que está doente com cancro. Um
jornalista que apesar da doença não perdeu a coragem, e contou,
diariamente, com era a sua vida nas salas de espera dos hospitais onde
fez tratamentos.

 

Trabalhou até à véspera de ser operado. E foi despedido quando já se
preparava para voltar. A rádio onde tudo isto aconteceu pertence ao
grupo PRISA que dirijo.

 

O verdadeiro jornalista não deixa de sentir-se moralmente fraco quando
deixa que o obriguem a dizer uma coisa quando pensa outra.

Por outras palavras, não me sinto jornalista quando a própria máquina
que dirijo, esmaga, atropela, mata o futuro de alguém como este nosso
camarada de armas, e eu sou obrigado a virar a cara para o lado,
deixando na gaveta as notas de uma história de desumanidade, ou mesmo
de terrorismo, que eu próprio teria querido ser o primeiro a contar
se estivesse ainda a trabalhar numa redacção!

 

Por isso mesmo, parte, amigo Honório. O jornalismo de que te falei
nesta longa carta, se calhar morreu!

 

Um abraço

 

JLC

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