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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

O dóberman do Ocidente no Magrebe

 

Enquanto escrevo, ouço o ainda ditador da Líbia discursar em directo a propósito do 34º aniversário do seu proclamado regime de "poder popular". Menciona dezenas de vezes a palavra "povo" - o mais pervertido termo vindo da boca de qualquer tirano logo a seguir a "liberdade". Escuto-o na BBC falando para umas dezenas de pessoas arrebanhadas para o efeito, algumas das quais o interrompem de quando em quando, em gestos devidamente coreografados, com gritos de "líder eterno" e demais palavras de ordem que já ouvimos serem proclamadas por todas as multidões, grandes ou pequenas, em louvor de todos os ditadores em todos os quadrantes. Muammar Kadhafi, aparentando ser magnânimo, afirma que desde 1977 não tem nenhum cargo institucional da Líbia, onde todo o poder reside no "povo" e não pode, portanto, renunciar a posto algum.

Escuto isto enquanto vou reflectindo sobre a estranha alquimia do poder político que enebria e cega tantos dos seus detentores, incapazes de renunciarem a ele quando todas as evidências deveriam levá-los a proceder na direcção contrária. Penso no admirável exemplo de Winston Churchill, derrotado nas urnas pelo eleitorado britânico em Julho de 1945, dois meses após ter levado o Reino Unido à vitória na mais inclemente de todas as guerras. Conhecido o desaire eleitoral, limitou-se a comentar: "Fui sumariamente despedido pelo eleitorado britânico da futura condução da coisa pública." E abandonou Downing Street para escrever os seus livros e pintar as suas aguarelas.

Penso no que Ignacio Camacho, talvez o melhor dos colunistas da imprensa espanhola, escreveu há dias no ABC sobre o mesmo indivíduo que há largos minutos vai perorando no ecrã que mantenho ligado: «El tipo que puso la bomba que mató a 260 personas en un avión que volaba sobre Lockerbie cumplió tan solo diez años mal contados de cárcel: Gran Bretaña lo devolvió el ano pasado a su país, Libia, por compasivas "razones hamanitarias". El hombre que ordenó el atentado, el coronel Muammar El Gadafi, no sólo no cumplió pena alguna sino que recibió durante anos atenciones preferentes de de los grandes líderes europeos, que lo agasaharon con reiteración, le pasaron la mano por la espalda y se rieron mucho con él agradecidos porque les vendía petróleo, les compraba armamento y contenia a los integristas islámicos plantado com su jaima como un dóberman en el patio de atrás del Magreb.»

«Neste país quem manda é o povo», insiste o "dóberman do pátio das traseiras do Magrebe" a quem a ONU chegou a confiar a presidência da sua Comissão de Direitos Humanos. O mesmo que em 2005 mandou matar o escritor Daif Gazal, que figurava na primeira linha dos que reclamavam liberdade. Antes de morrer, este opositor foi barbaramente torturado: cortaram-lhe os dedos para que não pudesse voltar a escrever.

Durante anos, o Ocidente perdoou todos os crimes ao carrasco de Daif Gazal. Há ainda hoje quem o defenda, alegando que o seu regime "laico" é o melhor antídoto contra o "fundamentalismo islâmico". Concluo como Ignacio Camacho: «La complacencia con Gadafi ha sido tan obscena, obsequiosa y evidente que no deja resquicio al disimulo.»

Por isso o tirano permanece impune no momento em que escrevo. Falta pouco para cair, mas cada dia em que se prolongar no poder é mais um dia de sofrimento para os líbios. E de vergonha para o mundo.

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