Uma inqualificável trapalhada
Há eleições em Portugal, regularmente, desde Abril de 1975. Nunca até hoje se registaram tão escandalosas irregularidades num escrutínio eleitoral como sucedeu nestas presidenciais. A tal ponto que o mapa oficial dos resultados das eleições só foi aprovado com o voto de qualidade do presidente da Comissão Nacional de Eleições (CNE), depois de se terem registado dois votos contra e duas abstenções, com o espantoso argumento de que não convinha "prejudicar a data de tomada de posse" de Cavaco Silva. Segundo um dos membros da CNE que votaram contra, ocorreram "irregularidades inaceitáveis". Descendo ao concreto, refere-se a "omissão na contabilidade final de cerca de 120 mil eleitores e cerca de 60 mil votos no distrito de Setúbal", enquanto no distrito de Viseu "são contabilizados mais 40 mil eleitores e mais cerca de 20 mil votos".
É impressionante: nem esta inqualificável trapalhada leva Rui Pereira a oficializar o seu pedido de demissão, como exigiria a mesma ética de responsabilidade que levou Jorge Coelho há dez anos a demitir-se de titular da pasta das Obras Públicas na noite da tragédia da ponte de Entre-os-Rios. Agarrado desesperadamente à tutela nominal da Administração Interna, só ele ainda não percebeu que na prática já deixou de ser ministro ainda antes de a notícia ser oficializada. Quando perceber que devia ter saído pelo seu pé, para salvarguardar um mínimo de dignidade política, já será demasiado tarde.