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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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Os intelectuais portugueses perante o Egipto

 

A intelectualidade portuguesa nunca dispensou a sobranceria. E tem outra característica, um enorme desprezo pelo povo. Estes dois elementos contaminam geralmente a sua visão do mundo. Ela é sobranceira e elitista. Esqueci-me de outro aspecto: os intelectuais portugueses dificilmente aceitam uma crítica.

 

Escrevo este post depois de visitar um blogue onde costumo ler alguns excelentes autores. Tentei entrar numa discussão na caixa de comentários, acho que escrevi coisas óbvias, mas esbarrei num muro de incompreensão e fui corrido a deselegâncias.

O tema era o Egipto e a forma como de repente uma série de comentadores portugueses (ao arrepio do que se lê em jornais de todo o mundo) decidiu que a revolução egípcia é má e anuncia coisas terríveis. Uma catástrofe, isto de um povo querer ditar o seu destino. A ideia vem geralmente associada a um sub-enredo segundo o qual qualquer pessoa que aprecie os acontecimentos é um idiota sem cura.

 

Num plano mais sério, um autor como Vasco Pulido Valente escreve isto:

 

"Não percebo por que razão os políticos divagam e os jornais se entusiasmam. Não chegou o delírio democrático depois da queda do muro e do colapso da URSS, para perceber que uma insurreição popular não leva forçosamente a uma democracia?" (tirei do blogue do João Gonçalves, onde podem ler o texto completo)

O autor vai por ali fora: a democracia é impossível no Egipto por haver muita miséria, pobreza, ignorância. Não há partidos nem instituições, não haverá elites, os radicais vão tomar o poder e até o Irão vai ajudar à festa. No fundo, aceita-se que a crise do Médio Oriente é como uma queda do muro de Berlim, mas o resultado será necessariamente pior do que aquilo que existia. Portanto... Bem, a partir daqui, a tese é um pouco mais confusa.

 

Não consigo entender esta argumentação, que vi repetida em vários textos da blogosfera e imprensa, com variações. Penso que os autores não entendem um facto simples: o que aconteceu é irreversível. No fundo, o que dizem é que o povo egípcio não tem o direito de tentar criar uma democracia nem pode decidir sobre as mudanças sociais e políticas do seu país. Ainda bem que Mubarak existia. O povo na rua é um perigo e estes autores verão com bons olhos uma eventual ditadura militar ou a imposição de um ditador que inverta o que foi conseguido, por exemplo, o fim da liberdade de expressão e de imprensa, do direito de associação. É a única conclusão a tirar de todo este pessimismo.

De facto, não há partidos estruturados no Egipto e isto pode acabar tudo num regime à russa, com uma pseudo-democracia musculada. Uma insurreição popular não leva forçosamente à democracia, mas algumas insurreições populares levaram a democracias.

E se as pessoas tivessem primeiro consultado os intelectuais portugueses? Teria ficado tudo na mesma, Mubarak no poder, o politburo do PCUS a mandar em Moscovo.

 

Os argumentos da pobreza e do analfabetismo não são novos. Nos países democráticos os analfabetos votam: a Índia, por exemplo, tem milhões de fundamentalistas de várias religiões, tem mais pobres do que o Egipto e mais analfabetos e, no entanto, é uma democracia. Israel tem fundamentalistas e é uma democracia. Na América, há milhões de fundamentalistas religiosos.

Pois é, dirá o céptico, mas a Índia tem instituições, partidos, foi tudo conduzido pelos ingleses. Sem a ajuda do homem branco, eles não tinham lá chegado. O mesmo com os egípcios, os barbudos ganham, o Irão intervém.

Pode acontecer, mas a Irmandade Muçulmana é um movimento com muitas facções, incluindo moderadas; é mais complexo do que nos tentam impingir; e o Irão teria dificuldade em interferir neste caso (afinal, os iranianos são xiitas, os egípcios sunitas). Pode até argumentar-se que Ahmadinejad deve estar preocupado com este tipo de protesto de rua, que quase o derrubou há dois anos.

O Irão tem sido muito usado como analogia, mas só a parte que interessa, a revolução de 1979. Por outro lado, a Turquia raramente é mencionada, apesar do Egipto ter mais afinidades com a Turquia do que com o Irão.

 

Acho que a alguns intelectuais portugueses mais cépticos tem escapado outro facto interessante. Refiro-me à influência que nesta crise está a ter a Al-Jazeera. Dito de outra forma, o poder da imprensa. Já li também muitas questões sobre os militares, que passam por cima de alguns elementos conhecidos: o escalão intermédio do corpo de oficiais estava descontente e os generais sabiam que os militares dificilmente obedeceriam à ordem de disparar contra a multidão. Em resumo, pode ser difícil impor a ditadura militar.

 

O que nos leva à questão fundamental. Se este embrião de democracia incomoda tanto, então, segundo estes autores, o que devia ter acontecido? O exército devia ter disparado? Washington devia ter apoiado até ao fim o seu aliado Mubarak, como fez em 1979 com o xá da Pérsia? O que é que estes autores defendem que se faça a partir de agora? Mubarak regressa de Charm-el-Sheikh? Ditadura militar? Repressão do povo? Tienamen? Encerramento dos jornais? Interrupção da internet e prisão dos jornalistas da Al-Jazeera? Encher as prisões com 30 mil islamitas? Matar o embrião à nascença só porque os intelectuais portugueses são pessimistas militantes e não gostam que o povo ande na rua? E quando isto acontecer em Cuba, também vão escrever que Fidel é que era bom e que a democracia é uma utopia para tolos?

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