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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Homens no fio

 

"Homens no Fio" foi o título de um anterior livro do Luís Naves, mas bem podia tê-lo sido também deste mais recente romance, "Jardim Botânico". É um road book sem mapa e muito menos GPS, uma viagem num desconjuntado jipe ao longo do qual acompanhamos um quarteto de desamparados através de uma Guiné agitada pela guerra civil, na sequência da erupção surgida em 1998 da rivalidade entre Nino Vieira e Ansumane Mané.

O conflito é um pano de fundo, um cobertor que abafa e envolve as personagens mas sem nunca transformar-se no tema principal da narrativa. Assim como o mesmo acontece com a história pessoal de cada uma das figuras. Um livro de aventuras sem heróis, exercício de despojamento onde inexistem facilitismos literários, um desafio a quem lê pela depuração dos sentimentos e pela obrigatoriedade que nos impõe de transpor a distância em direcção às vidas que se movem aos nossos olhos para parte incerta.

Desde o início, os viajantes são confrontados com a possibilidade da morte e continuam a sê-lo até ao fim. São mortes pequenas, acidentais, quase tontas até para quem se encontra no epicentro de uma guerra. Mas que relembram em cada etapa a fina linha invisível entre a vida e o seu contrário, linha essa que no capítulo final adquire reforçada dimensão.

Curiosamente, as personagens não parecem mais unidas por partilharem de um mesmo perigoso caminho. Até na relação entre Daniel e Ana, há uma distância intransponível de sentimentos, simétrica daquela que os separa do seu destino só em parte comum. A meio da sua viagem, bebendo martinis à beira da piscina do Hotel Oásis, a conversa distancia-os em lugar de os unir.

Não é à palavra que compete estabelecer a ligação, mas sim aos actos. Não é ao autor que cabe a tarefa de iluminar as vidas assombradas, vidas essas que a certa altura encontram à noite outros fantasmas de metralhadora na mão e com quem acabam de mãos dadas. Esta é uma prosa enxuta que descreve o atravessar de uma terra esvaziada. Este é o relato de algumas vidas que percorrem um jardim botânico que os homens tornaram carnívoro. É um livro em que as personagens não são marionetas e sim homens e mulheres. Homens no fio, como cada um de nós.  

"Jardim Botânico" de Luís Naves. À venda em todas as boas livrarias, edição Quetzal, 238 págs.