Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Cortes salariais na administração pública: quem ganha e quem perde?

Não me vou aqui debruçar sobre a legalidade ou a oportunidade política dos cortes salariais na administração pública - desde logo porque sou um dos "felizes contemplados", mas também porque não me costumo pronunciar sobre casos que estão a ser apreciados pela justiça. Atenho-me a uma questão mais pragmática: quem ganha e quem perde com a forma como foram calculados os cortes salariais? Esta questão já me tinha ocorrido há uns meses, mas finalmente vi um governante a explicar a fórmula do corte de maneira clara:

 

- até 1500 €, não há corte;

- de 1500 € até 2000 €, aplica-se um corte de 3,5% à totalidade do vencimento;

- a partir de 2000 €, soma-se ao corte de 3,5% um corte de 16% sobre a parcela do vencimento que excede 2000 €;

- em qualquer caso, o corte não poderá exceder 10% do vencimento.

 

Isto explicou o ministro Teixeira dos Santos numa conferência de imprensa transmitida no noticiário da noite. Sempre estranhei a opção por um corte sobre a totalidade do vencimento entre 1500 e 2000 € - que coloca uma pessoa com um vencimento de 1501 € pré-corte abaixo de outra que aufira 1499 €. Mas tendo descoberto que afinal nas Finanças eles também sabem o que é um corte marginal, decidi comparar o perfil dos cortes do governo com o perfil que eles teriam se o governo tivesse aplicado a partir de 1500 € o regime que aplica a partir dos 2000 €.

 

E o resultado é este:

 

 

 

 

 

Como podem ver pelo gráfico, quem aufere entre 1500 e 1920 € teria um corte mais baixo se o governo tivesse optado aplicar a partir de 1500 € o regime que aplicou a partir dos 2000 €. Quem aufere entre 1930 € e 2280 € é beneficiado pelo regime escolhido pelo governo. A partir dos 2290 € e até aos 3990 €, a situação volta a inverter-se: o corte marginal teria uma taxa inferior ao regime actual. De 4000 € para cima, é tudo igual ao litro. Assim à vista desarmada, saem particularmente prejudicados os dirigentes superiores, os técnicos superiores em início de carreira e os funcionários com mais antiguidade nas carreiras mais baixas. E saem relativamente beneficiados os dirigentes intermédios e os técnicos superiores com mais antiguidade.

 

Moral da história: o Governo cortou mais onde há mais dinheiro - e ali entre os 1500 e os 2000 € há muito vencimento a ser processado. Que a maximização do saque tenha prejudicado em particular os técnicos superiores mais jovens - justamente aqueles que ainda podem contribuir para uma Administração Pública mais qualificada, mais leve e mais eficiente - foi um acaso que agora interessa pouco. Quem vier depois que apague a luz.

6 comentários

Comentar post