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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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O ataque preventivo de Henrique Raposo

  

 

"A Hungria precisa de um ataquezinho preventivo naquela cabeça magiar" escreve Henrique Raposo, aqui, a propósito da nova lei de imprensa na Hungria. Se um autor húngaro escrevesse isto sobre portugueses imagino a celeuma e a comoção, mas enfim, como são do leste, passa.

No original no Expresso inclui-se um útil link para este texto do embaixador José Cutileiro, que está repleto de interpretações a meu ver erradas.

Julgo que os autores estão mal informados e que os seus textos prolongam mitos que não permitem perceber a realidade, não apenas da Hungria, mas da actual Europa de leste. Tenta-se construir uma história alternativa e ambos escrevem em tom paternalista, como se Portugal desse grandes lições a todo o mundo.

A União Europeia não é polícia de costumes, a Hungria não se tornou um país fascista e a liberdade de expressão não está em perigo. Acho pelo contrário, que é preciso ter cuidado com certas fontes, sobretudo quando não se tem acesso ao original.

A lei de imprensa húngara é criticável? Claro que é. E a União Europeia está a fazer o que lhe compete, e o que consta dos Tratados, com a garantia à partida de que Budapeste aceitará mudar a lei em todos os aspectos que forem considerados controversos (não os mais referidos). A lei tem ambiguidades com impacto em blogues e facebook, por exemplo. E a cobertura política equilibrada visa sobretudo silenciar a extrema-direita, cujos jornais e panfletos são de estarrecer. A questão das coimas é polémica, com valores máximos exagerados, mas em Portugal também se pagam multas destas, ou seja, aqui temos de esperar pela prática.

 

Os dois autores, sobretudo o embaixador Cutileiro, parecem esquecer detalhes cuja referência poderia alterar as suas conclusões: na Hungria houve eleições em Abril e o partido de Viktor Órban não se limitou a ganhar as eleições, mas venceu com maioria constitucional. O Fidesz tem mais de dois terços do parlamento e pode mudar a Constituição. O anterior poder socialista (pós-comunista) foi caracterizado pela corrupção, o nepotismo e a mentira. O eleitorado escolheu em liberdade livrar-se dele, apesar da hostilidade da imprensa controlada pelos mesmos socialistas. Mas segundo se lê no texto do embaixador, parece que houve um lamentável equívoco:

"Cheios de sangue na guelra,os populistas de direita a que o povo húngaro deu a maioria nas últimas eleições - o partido do Governo, Fidesz, bem como os seus apoiantes parlamentares de extrema-direita (neofascistas convictos que fazem gala em atacar judeus, trabalhadores migrantes, homossexuais e recolheram 17,5% do voto popular) - por um lado aprovaram lei restritiva da liberdade de informação e imprensa inadmissível num regime democrático (dentro e fora da Hungria é já considerada uma vergonha para a Europa) e, por outro lado, aprovaram uma "taxa de crise" que pune empresas estrangeiras trabalhando no país, em prática flagrante de proteccionismo contra o espírito e a letra do mercado interno, pedra angular da sobrevivência da União Europeia se esta quiser ser pólo de poder no mundo".

 

Não há aqui um centro-direita para amenizar, não, são populistas e está tudo dito. "Sangue na guelra"? eles aturaram todas as provocações dos manuais. E o autor podia lembrar, por exemplo, que os ataques extremistas a ciganos ocorreram sobretudo antes das eleições; na referência aos homossexuais, nem sei do que fala, mas talvez da perseguição sistemática aos homossexuais no tempo do comunismo e do pós-comunismo.

Mas os apoiantes parlamentares de extrema-direita simplesmente não existem. Em primeiro lugar, porque o Fidesz não precisa do Jobbik, em segundo porque o Jobbik está em processo de fragmentação e é, objectivamente, um perigoso adversário. Em resumo, ao meter tudo no mesmo saco, o texto tenta fazer uma associação falsa entre os dois partidos. Aliás, não é inocente a escolha do tema da minoria cigana para o semestre europeu húngaro; a extrema-direita deve estar aos pulos.

A história da "taxa de crise" é interessante. Foi feito basicamente o que pede a esquerda em Portugal. Naquele caso, torna-se algo difícil de explicar, mas o ponto de partida é o seguinte: um ano antes de perderem as eleições, os socialistas tornaram o forint muito caro, para as multinacionais poderem exportar os seus lucros, nomeadamente a banca alemã e austríaca. No auge da crise, o forint desvalorizou de forma brutal, estrangulando as poupanças da classe média. Foi assim uma maneira de esfolar aquelas cabecinhas magiares. O novo imposto tenta recuperar algum deste dinheiro exportado, um crime horrendo, sem dúvida contra todas as regras da União Europeia. Mas a expressão "proteccionismo", aqui, só dá para sorrir, já que a Hungria tem inúmeras poderosas empresas nacionais para o seu Governo proteger. 

Em relação aos "passaportes", a história ainda é mais enviesada. Na realidade, os documentos permitem que eslovacos e romenos de origem húngara tenham acesso a estudos, tratamento médico, segurança social e compra de propriedades na Hungria (julgo que voto também). Os húngaros têm minorias do outro lado da fronteira e querem garantir que estas minorias tenham direitos no país. É o que os alemães fazem aos seus étnicos, desde que ainda falem alemão. É aquilo que nós fazemos com os nossos emigrantes ou os israelitas com os judeus de todo o mundo. O último exemplo é o melhor, porque isto é também um incentivo à emigração dos étnicos húngaros. como o país vai precisar de mão-de-obra, mais vale que sejam da língua. Uma nota: Robert Fico já não está no poder na Eslováquia e os dois governos (húngaro e eslovaco) melhoraram muito a sua relação, o que indica que talvez o problema não fosse só húngaro.

 

Muitos comentadores portugueses que se pronunciam sobre a Europa Central simplesmente ainda não perceberam que as duas décadas de pós-comunismo acabaram (paz à sua alma e repouse em paz) e que os regimes serão diferentes a partir de agora e mais democráticos. Habituem-se às novas figuras, do estilo dos Kaczynski ou de Órban, que têm má imprensa no ocidente, só porque são ferozmente anti-comunistas. Eles não são populistas, são nacionalistas de direita, mas o seu modelo são os conservadores britânicos.

Disto tudo, Henrique Raposo mistura elementos históricos e faz um estranho goulash. Insinua que os húngaros querem uma "Grande Hungria" (???) uma acusação sem factos e fala do crescimento do nacionalismo, sem perceber que estes países perderam a sua independência durante quase meio século e só sobreviveram porque era muito forte a sua identidade nacional. Aliás, deixo uma pergunta: porque é que os ingleses e os portugueses podem ser patriotas e os húngaros (e os croatas, os polacos, os romenos, os sérvios) não podem? Tem algum defeito, a cabeça magiar ou sérvia ou eslovaca?

Por outro lado, está na moda dizer que vem aí o nacionalismo, que horror, mas a parte difícil tem sido a de apresentar factos que demonstrem a teoria.

O tal nacionalismo inclui as berratas patrióticas sempre que Mourinho fala em português? E nesta história não estão a esquecer a importância que Órban teve, pessoalmente, na recuperação da liberdade na Europa?

 

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