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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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O Continente esquecido

Nuno Gouveia, em Cachimbo de Magritte, responde aqui ao meu anterior post sobre a questão africana, no qual tento explicar que o homem branco não tem muita consciência da sua culpa.

Julgo que nesta polémica há duas posições distintas sobre o "continente esquecido", que é uma expressão feliz. Na minha opinião, o neo-colonialismo não pode ajudar África, pelo contrário, prolonga a sua agonia. O que pode ajudar África é a intervenção humanitária como a faz actualmente a Igreja Católica, levando em conta o desenvolvimento económico, a educação e a saúde, mas também o progresso moral das populações. E tudo ao mesmo tempo. Claro que estas missões são uma gota de água no oceano das misérias locais.

 

O autor de Cachimbo de Magritte escreve a dado passo o seguinte: "Quem poderá comprar os recursos e os bens africanos senão os países ricos? É evidente que uma empresa quando vai comprar os produtos africanos tenta obter o melhor preço. São essas as regras do mercado e não há volta dar".

Eu sou um pouco mais pessimista em relação aos benefícios do mercado, cuja liberdade depende da existência de vários compradores ou de opções de venda diferentes.

Conto uma pequena história da actualidade na Guiné-Bissau que mostra bem estes abismos. Os camponeses trocam caju por arroz. A proporção actual é de um quilo de arroz (o seu alimento principal) por quatro quilos de caju. Há 12 anos era de um para um. No final da década, o custo do arroz no mercado internacional rondava cem dólares por tonelada; o de caju era de 700 dólares. O mercado do caju é monopolístico, controlado por comerciantes indianos que fazem o preço que entendem. A castanha é comestível e da polpa não comestível extrai-se um óleo que serve para lubrificante de electrónica.

 

O assistencialismo dos países europeus também não poderá mudar a situação. Por vezes é mesmo perverso e um simples negócio. As populações habituam-se à assistência gratuita e deixam de procurar o próprio sustento, ficando dependentes dessa assistência, cujo custo chega a eliminar produtores locais. Seria ainda preciso mudar fronteiras e exigir melhor comportamento aos dirigentes locais, mas cada potência ex-colonial defende os seus interesses e mais nada. De resto, julgo que no essencial estamos de acordo, eu mais pessimista. Deixo aqui votos de bom ano para Nuno Gouveia e para Cachimbo de Magritte.