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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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A culpa do homem branco (uma polémica)

É sempre um luxo (infelizmente raro) poder manter uma polémica com alguém que escreve um post desta qualidade. Nuno Gouveia, em Cachimbo de Magritte responde a um post meu. Verifico que o autor concorda com alguns dos pontos essenciais do que escrevi e, por isso, vou centrar-me nas duas questões onde julgo haver discordância. Em primeiro lugar, o tema da culpa histórica; em segundo, a questão da democracia em África.

 

Nuno Gouveia começa por associar a questão da culpa do homem branco a correntes neomarxistas, o que julgo não ser exacto. De qualquer maneira, é preciso olhar para a realidade. A colonização de África pelos europeus foi especialmente brutal, talvez por ter sido tardia e na altura do auge ter havido teorias raciais que davam o homem branco como sendo superior. Estas ideias ainda não desapareceram.

Para o autor de Cachimbo de Magritte, "o colonialismo é um facto histórico" e continuar a responsabilizar os europeus pelo atraso estrutural africano é uma forma de "relativismo histórico". Surge também a referência à colonização de outros continentes, mas o argumento parece reforçar o que escrevi, já que a colonização da América foi obtida através do extermínio das populações nativas, destruição de civilizações (Maias e Incas) e exploração da escravatura. A expansão da Rússia foi feita à custa de regiões relativamente vazias. E sempre que enfrentaram Civilizações mais fortes, os europeus tiveram dificuldade em estabelecer o seu domínio, como aconteceu do Egipto ao Japão, áreas onde só no século XVIII se estabeleceu uma verdadeira supremacia europeia.

Do ponto de vista dos nativos que o sofreram na pele, é difícil encontrar efeitos positivos dos impérios europeus, apesar de nos últimos anos do colonialismo em África se ter apostado mais na educação ou medicina.

 

Parece que a réplica ignora um dos pontos cruciais do meu post: aquilo a que se chama vulgarmente neo-colonialismo (já estou a ouvir a crítica da cartilha marxista), no entanto o facto é que não conheço melhor designação. O Nuno pode optar por uma alternativa: chame-lhe desequilíbrio de trocas comerciais, por exemplo.

Penso ser impossível interpretar a África contemporânea sem perceber que a ordem económica mundial se limita a extrair as suas riquezas da forma mais barata possível. Como tentei argumentar, este esquema do neo-imperialismo é bem mais barato do que manter colónias que se podem tornar rebeldes. Nem sequer a África do Sul, onde a elite branca estava no poder, conseguiu escapar a esta lógica. As riquezas minerais, energéticas e agrícolas de África são gigantescas, certamente muito superiores às europeias.

 

Quando se fala em elites corruptas e jugo de ditadores oculta-se a circunstância de não haver elites em África. Os poderes coloniais nunca tiveram interesse em desenvolver elites locais e, quando o tentaram fazer, ocorreu a descolonização. Muitos dos ditadores eram militares de baixa patente em exércitos coloniais ou ex-guerrilheiros das guerras de independência. Todos geralmente pouco letrados. A verdadeira elite angolana, para citar o exemplo do autor, foi cilindrada e sobrevive no exílio ou em silêncio. Um grupo político apropriou-se das riquezas, mas isso é semelhante a muitos dos outros países subsarianos.

 

A última questão tem a ver com a democracia parlamentar de modelo europeu. Por que razão se exige a estes países fragmentados e sem identidade a execução regular de farsas eleitorais? Os ditadores fazem-se eleger pelo povo e passam a ser regimes democráticos, mas todos os cargos lucrativos e os órgãos de segurança são entregues à tribo do vencedor, que recebe uma fatia desproporcionada do bolo económico. Refira-se que este bolo é sobretudo constituído pelas licenças monopolísticas vendidas a europeus extractores de recursos ou a empresas de serviço europeias com bons contactos e que ficam confortavelmente instaladas nos seus lucrativos monopólios (não é preciso investir muito e a infra-estrutura continua péssima). Os chineses vieram entretanto reclamar a sua parte e os americanos também não querem perder as vastas oportunidades disponíveis. Estou a falar de licenças de petróleo ou de extracção de madeira ou de pescas, de minas de urânio ou de ouro. Estou a falar de construção de estradas, palácios, edifícios públicos e barragens, projectos agro-industriais e banca. O preço é sempre baixo porque os líderes gananciosos podem ser derrubados (lembrar, a título de exemplo, o colorido episódio da operação de mercenários na Guiné Equatorial, em 2004).

 

Por tudo isto, tenho dificuldade em acreditar nos faróis de democracia. Até 1993, a Costa do Marfim era um dos melhores exemplos africanos de desenvolvimento. Agora, está à beira da segunda guerra civil.

Pergunta Nuno Gouveia se o "povo africano deve estar condenado a viver sob o jugo de ditadores e elites corruptas que roubam os seus recursos para proveito próprio?".

Preferia responder não, mas julgo que sim, que está condenado, pois é isso mesmo que acontece há 500 anos, ou mais.

   

 

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