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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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A questão africana

Henrique Raposo escreve este texto, com generalizações sobre o progresso em África, e Nuno Gouveia, em Cachimbo de Magritte apressa-se a dizer que se trata de um artigo muito importante, acrescentando que "apenas a democracia e a liberdade podem salvar a África da miséria". Penso que os dois autores embarcam em ilusões pouco construtivas. Raposo dá exemplos de países africanos desenvolvidos e espanta-se com o interesse dos media pelos Estados falhados. Ou seja, não se davam as notícias da Costa do Marfim, como não se deram as do Ruanda.

 

Na realidade, as elites corruptas não chegam para explicar a miséria africana. Estas elites são um sintoma do mal, não são a causa. O problema africano está sobretudo na ordem económica mundial, que condenou um continente riquíssimo à pobreza extrema. Nos últimos 500 anos, as potências coloniais não se limitaram a explorar a escravatura, mas eliminaram todas as unidades políticas que poderiam ter formado reinos ou impérios. O Benim, um dos exemplos de Henrique Raposo, recebeu o nome do Império do Benim (que ficava na actual Nigéria) e que formou uma entidade política que os portugueses ajudaram a neutralizar, mas que poderia ter evoluído naturalmente. Podia dar outros exemplos, como o Império do Mali, reino mandinga que sem interferência ocidental poderia ter facilmente dominado metade da actual Costa do Marfim, além do actual Mali, partes da Guiné e do Senegal.

Com as suas sociedades destruídas pela interferência colonial (que não teve só aspectos negativos) a África é hoje um mosaico de países artificiais, divididos por religiões e sobretudo profundos ódios tribais. O conflito na Costa do Marfim é apenas um dos muitos que fermentam na região. E a sua origem está nas questões étnicas.

 

Hoje, as potências coloniais europeias continuam a dominar a região e os americanos têm tentado obter uma parte do bolo, daí a viagem de Bush que Henrique Raposo refere. África é uma vasta fonte de matérias-primas. Quanto mais estratégicas, maior o caos. O caso da República Democrática do Congo é particularmente sinistro. A guerra civil na RDC fez mais de 4 milhões de vítimas mortais. Numa das suas regiões mais violentas, o Kivu, é extraído um mineral (Tântalo) crucial para telemóveis. A indústria electrónica não funciona sem este mineral que continua a matar gente. O país é também rico em cobre, diamantes, cobalto, zinco, magnésio, urânio. Tem fabulosos recursos hídricos e uma riqueza vegetal sem paralelo. Uns países africanos têm petróleo ou urânio, outros têm diamantes. Alguns mais desafortunados têm petróleo, ouro e diamantes.

Insisto: a ordem económica mundial é desfavorável para os africanos, que estão condenados à pobreza e ao atraso. Muitos destes países fragmentados por dentro não têm língua própria, são governados por elites corruptas que alguém corrompeu, quase sempre as antigas potências coloniais que exploram estes recursos com baixo custo. Reparem que a ordem neo-colonial é muito mais barata para as potências europeias do que a ordem colonial. As colónias eram caras e era preciso investir em estradas e escolas, manter os colonos e construir cidades, ferrovias e portos.

As democracias africanas não têm raízes e não são estáveis. Veja-se a Guiné-Bissau, por exemplo, onde todas as votações foram livres, mas altamente perturbadas pelas questões tribais, com um poder civil incapaz de se manter num contexto cultural onde o prestígio conta mais do que o número, com hierarquias subtis onde quase sempre os órgãos eleitos são quem menos manda.

       

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