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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Reflexologia Terrorista

 

 

 

Regra geral, os SPAs suscitam-me sérias desconfianças. São o equivalente a um blind date onde depositámos todas as nossas esperanças e que, quando finalmente lhe pomos a vista em cima, se apresenta tão interessante como um jogo de xadrez na Eurosport.

 

Em noventa por cento dos casos, os SPAs são pouco mais que uma salinha de massagem mesmo ao lado de um jacuzzi do tamanho de um bidé. E ai de quem tiver a veleidade de acreditar que consegue fazer uma marcação. É certo e sabido que só há vaga a horas que não dão jeito nenhum e que vamos ficar com os nervos em frangalhos por não estarmos a aproveitar devidamente aquilo a que nos tínhamos proposto: um fim-de-semana de total relax.

 

Fiquei, por isso, estupefacta quando na semana passada cheguei a um hotel e assim logo à primeira, consegui marcar uma sessão de reflexologia para a hora que queria. Devia ter ficado desconfiada, que quando a esmola é demais o pobre desconfia. Mas não, fui ingénua e vim a pagar a imprudência com o próprio corpo.

 

Pois então, à hora combinada lá desci às catacumbas, onde me disseram para me recostar num luxuoso estrado almofadado e me ofeceram uma tisana à temperatura certa. No ar pairava um agradabilíssimo odor a eucalipto e, enquanto me forneciam uma almofada com um buraco do exacto tamanho do meu pescoço, dediquei-me a considerar que “aquilo é que era vida, meu Deus”.

 

Ás tantas lá apareceu um afável senhor massagista, com cara de quem conhecia os segredos mais reconditos do corpo humano.

 

Entreguei-lhe ambos os pés com a devoção com que se entrega o coração a um ente amado.

 

Infelizmente não fui correspondida. O homem atirou-se à palma do meu pé direito com a crueldade de um Nazi que mima um Judeu. E foi por ali fora, tenazmente, de ponto crítico em ponto crítico, fazendo-me acreditar que me tinham nascido caroços cancerígenos na palma dos pés.

 

Quando a coisa começou a ficar insuportável, o meu sistema nervoso central começou a emitir espasmos de dor, infelizmente confundidos pelo senhor por laivos de prazer, que o incentivaram a passar a um estádio mais profundo da sua missão.

 

Foi aqui que não tive qualquer dúvida. Aquela tez morena e a capacidade de infligir dor não enganavam ninguém. O homem só podia ser miliciano do Hezbollah, alguma célula infiltrada na Europa com o objectivo de sacar informações do SIS.

 

Imagino que tenha no curriculum várias sessões de reflexologia em prisioneiros de guerra. Apertos, unhadas e mais apertos na palmas dos pés, tantos quantos os necessários para provocar a falência progressiva dos orgãos vitais.

 

Felizmente a sessão só durou meia hora, de maneira que consegui salvar os rins e o fígado. E, apesar de ter caminhado com dificuldade um par de dias, é absolutamente inequívoco que, quando chegou a hora de pagar, senti um imenso alívio.