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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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O terceiro poder da península

Quero deixar aqui o meu protesto. No dia do jogo entre Barcelona e Real Madrid, ouvi na rádio cânticos de adeptos catalães a insultarem adversários. O jogo foi marcado por um ambiente fanático que tinha Cristiano Ronaldo e Mourinho como alvos. Qual era o seu crime? O facto de serem portugueses. Qual era o insulto? Português.

A futebolândia tem numerosas situações irracionais. Os mais fanáticos do Porto insultam os benfiquistas e vice-versa, mas nunca vi cânticos dos portistas contra os adversários argentinos ou dos benfiquistas contra os adversários colombianos. Não, aqui há algo de mais complexo. Começou com Luís Figo, lembram-se? O jogador português ousou colocar em dúvida os salários elevados dos seus colegas holandeses e espanhóis, menos influentes na equipa. Quase tombou a catedral da Sagrada Família.

 

Talvez este racismo (estupidez ou sobranceria ou lá o que é) venha ainda de mais longe, do conturbado século XIV, quando os portugueses tentaram fazer uma aliança com os aragoneses, queimando-se da pior maneira.

Há quem imagine que existindo três nações na Península, seria desejável criar um novo equilíbrio, mas as eleições catalãs de domingo também dão que pensar. No fundo, os catalães parecem cansados da sua própria retórica independentista. Os partidos verdadeiramente independentistas são muito minoritários, tendo eleito dez por cento do parlamento catalão. A vitória do maior partido centro-direita, que é federalista, tem sobretudo uma leitura nacional (espanhola) e a vitória esmagadora da CiU de Artur Mas representa acima de tudo a derrota dos socialistas.

No futuro, o partido nacionalista catalão poderá ser crucial para viabilizar um futuro governo do PP em Espanha.  Por enquanto, os catalães apenas querem pagar menos para o poder central e defendem os interesses económicos no conjunto da Espanha, numa crítica à ideia da solidariedade em relação às regiões mais pobres do país. Foi isso que votaram, além da receita tradicional da direita moderada, sem nada de novo. Aliás, à excepção da Grécia e de um estado alemão, as eleições que se realizaram na Europa desde o início da crise traduziram uma viragem à direita dos eleitorados. Foi também isso que aconteceu na Catalunha.

 

Com três poderes na Península, seria lógico que Portugal se aproximasse da Catalunha, para contrabalançar a hegemonia de Madrid na economia, diplomacia ou cultura. O rei D. Fernando I tentou fazer exactamente isso, aproveitando uma guerra civil em Castela e concluindo uma aliança aragonesa. Foi um erro, claro, como seria agora um erro confiar em excesso na ideia duvidosa de que Barcelona funciona como contrapeso ao centralismo de Madrid.

Portugal deve a sua independência ao facto de confiar apenas nas próprias forças.

Como provam os cânticos dos adeptos do Barcelona, não há três poderes na Península, mas apenas dois.  

   

3 comentários

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    Luís Naves 30.11.2010 19:36

    O seu comentário é muito interessante. Não contestando nenhum dos pontos essenciais do meu post, o Francisco sublinha (e bem) que Catalunha e Portugal têm na sua história episódios de oposição a Castela. Atrevo-me a dizer que existe uma diferença entre os dois: na nossa história, felizmente, as crises castelhanas foram mais espaçadas e os portugueses dedicaram-se a outros voos.
    O meu post era exactamente sobre a suposta superioridade dos catalães, sentimento mais inexplicável quando se vira contra portugueses (por serem portugueses). Que mal lhes fiz eu?
    Em relação às analogias futebolísticas e exemplos de clubite feroz, são isso mesmo, aproximações superficiais que apenas ajudam a clarificar a realidade. Devem ser usadas com moderação. A nação catalã ser igual ao barça é uma coisa de pobreza franciscana, mas da suposta nação catalã. Dava alguma vontade de rir se um português dissesse que Portugal é o Benfica (embora o Porto seja uma nação, o que julgo não passar de excesso poético). Quanto aos portistas desejarem que Lisboa arda, só tenho a dizer que a comparação não colhe, pois Portugal nunca teve problemas de regionalismo versus centralismo. Isto é um país livre, onde existe o direito à asneira de taberna.
    Falando a sério: somos mesmo uma anomalia europeia, com grande continuidade geográfica, homogeneidade linguística e étnica. Não sei de portugueses que julguem ser superiores a outros portugueses e os únicos com alguma razão de queixa são os alentejanos, alvos de anedotas mordazes.

    Somos uma anomalia europeia, repito, no que diz respeito à homogeneidade cultural e fronteiriça. E estamos muito bem assim.
    E convém não esquecer que o início do período de união das coroas não foi exactamente uma perda de independência. Havia garantias de autonomia que Felipe IV não respeitou, provocando uma rebelião da nobreza portuguesa.
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    Francisco 30.11.2010 22:09

    Há uma discordância futebolística grande entre nós: José Mourinho e Cristiano Ronaldo são tão portugueses como nós, mas eu não sou eles nem eles são eu. O facto de a 'nação culé' se virar contra eles dois não me belisca sequer: isto mesmo foi sublinhado noutro comentário a propósito do Ricardo Carvalho. E digo-lhe ainda mais: mesmo Luís Figo (o último 'traidor') mantém a foto na fachada de Camp Nou, porque eles não apagam a história.
    Gosto imenso de Barcelona e da Catalunha: tendo uma média recente de uma visita anual (seja em turismo, seja por razões de saúde) só uma vez escondi a minha nacionalidade: precisamente no ano em que Figo mudou para Madrid e durante uma visita guiada ao Camp Nou, deixei que todo o fel fosse canalizado para um casal de madrilenos. De resto, assumo-me português e sempre fui muito bem tratado.
    Mais uma discordância: suponho que o Luís Naves resida em Lisboa, porque só isso justifica que diga que não temos problemas de regionalismo versus centralismo. Eu digo que temos um forte problema de centralismo que pode degenerar em graves problemas de regionalismo. O FC Porto (que não é o mesmo que a cidade do Porto) percebeu isso e explora larga e artificialmente a situação.
    É verdade que somos essa 'anomalia' europeia, mas eu sei de portugueses que julgam ser superiores a outros portugueses...
    Finalmente (e para não transformar comentários em pots...), a realidade histórica catalã é bem mais complexa (e rica e trágica) do que à primeira vista possa parecer e os anos das ditaduras de Primo de Rivera e de
    Franco, com a Guerra Civil pelo meio, explicam muito do que hoje assistimos, inclusivamente em torno do Barça ('més que un club', como se classificam): 'aquilo' não é só clubite
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