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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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Eurobonds (2): um caso de EVA.

Já depois de ter deixado aqui esta reflexão sobre os Eurobonds, em conversa com um amigo cheguei à conclusão que tinha deixado de lado o melhor dos argumentos em favor desta medida. Esse argumento é que os Eurobonds têm EVA - acrónimo europês para European Value Added, ou seja, valor acrescentado europeu. Porque é que o EVA é um excelente argumento? Porque nos tempos que correm, é este o critério mais utilizado para aferir da utilidade de implementar políticas ao nível europeu. A ideia é que cada euro gasto a nível europeu deve ter mais impacto do que se for gasto pelos orçamentos nacionais (que eles próprios deveriam ter mais impacto do que se fossem gastos pelos cidadãos... digo eu). Se o bang-for-the-buck não for maior a nível europeu do que a nível nacional, então não vale a pena dar esse euro a gastar à União. No limite, o EVA da despesa europeia deveria permitir aos Estados-membros gastar menos. É o princípio de subsidiariedade... mas ao contrário.

 

Voltando aos Eurobonds: têm ou não têm EVA? Tudo depende do custo do crédito que eles conseguirem alcançar. Façamos umas contas rápidas, com números ficcionados para simplificar. A zona euro tem 16 países. As taxas de juro das suas obrigações a 10 anos varia neste  momento entre 3% e 7%. Admitamos que a taxa de juro média (ponderada pelos valores em dívida) se situa algures nos 4%: se os Eurobonds conseguirem yields mais baixos - ceteris paribus - a Europa como um todo já está a ganhar. É a EVA a funcionar. Os países com taxas de juro mais altas, como Portugal e a Irlanda, veriam a sua factura fortemente aliviada. E os países com taxas de juro mais baixas veriam a sua factura ligeiramente aumentada. Mas o principal, em termos de EVA, é que a factura com Eurobonds seja inferior à soma das facturas sem eles.

 

Claro que para o contribuinte alemão, a EVA interessa menos que a GVA (German Value Added) da mesma forma que para os portugueses é a PVA que nos faz europeístas. Há quem lhe chame egoísmos nacionais, eu chamo-lhe um facto da vida.  Será possível convencer os nossos amigos alemães de que os Eurobonds têm GVA? Eu penso que que sim, e não apenas em termos de maior estabilidade da zona euro ou daquela sensaçãozinha agradável de terem contribuído para o bem-estar de vizinhos menos favorecidos. Se as  regras dos Eurobonds forem bem desenhadas, consagrando nomeadamente a primazia da UE sobre os restantes credores dos Estados-membros em caso de  reestruturação da dívida, não há razão nenhuma para que o risco associado a um Eurobond não seja tão ou mais baixo do que o risco de uma obrigação alemã. Seria uma política sieg-sieg: crédito barato para todos dentro dos limites de Maastricht,  com  incentivo à disciplina orçamental e reforço da vigilância macro-económica multi-lateral. Quem disse que não se pode sair da crise por cima?

 

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* Há outro argumento em favor da EVA dos Eurobonds, de carácter mais político: ao intermediar parcialmente as relações entre Estados-membros e os seus credores, muitos dos quais podem ser outros Estados (por exemplo a China, ou Timor-Leste) a União Europeia evita que potências terceiras comprem um lugar à mesa do seu processo decisional. O que, tendo em conta o poder de veto de todos os Estados-membros em muitas questões cruciais para o futuro da União, poderia ser um desenvolvimento bastante inquietante da fragilidade financeira dos países periféricos. Proteger a integridade da União não tem preço.