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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Quem feio ama, bonito lhe parece.

 

 

A beleza, como todos sabemos, é uma coisa para lá de subjectiva. É evidente que existem critérios estéticos mais ou menos claros para se definir se uma coisa é, em absoluto, bonita ou feia. Mas, a reboque desses critérios, atraca-se um rol de sensibilidades, emoções e experiências que vêm baralhar tudo e trazer novas variáveis à equação.

 

É mais ou menos inequívoco que a Giselle Bundchen é uma madonna de Botticelli mas, se formos pedir opinião ao Dicaprio, o rapaz é bem capaz de começar a desmontar o mito, desbroncando-se com uma data de defeitos capazes de a atirar para um cenário hediondo, bem ao nível da Família Adams.

 

Por outro lado, todos nós já vimos pais absolutamente derretidos a olhar para um recém-nascido igualzinho ao Benjamin Button enquanto perguntam retoricamente para a plateia se “aquele não é mesmo o bebé mais lindo do mundo”.

 

A mesma coisa acontece com os objectos. Achamos que são mais ou menos bonitos dependendo, em grande parte, das nossas experiências passadas e das referências que fazem parte do nosso esquema mental  .

 

Ora, para melhor ilustrar o que quero dizer, terei de me socorrer do relato de uma aventura protagonizada por esta vossa amiga et su compère José Alfredo Neto.

 

Trabalhei uma série de anos com o Zé nas andanças da publicidade. Numa altura em que fazíamos parceria para o cliente Peugeot, um dos nossos hobbies favoritos era seleccionar os modelos de automóveis que consideravamos dignos de participar numa Car Parade subordinada ao tema “Os Mais Feios do Mercado”. O Fiat Multipla destacava-se claramente do pelotão com a camisola amarela do “Carro Mais Feio do Mundo”.

Para dar alguma credibilidade ao título, pedimos a vários colegas da agência para participar na elaboração da lista e a opinião foi unânime: Mais feio que o Multipla não existe.

 

Andavamos nisto quando, um dia, tivemos de ir a um seminário em Deuville, na Normandia. Lá fomos, lá apresentámos o que tínhamos para apresentar, discutimos muitas coisas importantes, fizemos muito boa figura e, já no regresso, com os minutos contadinhos ao segundo para apanhar o avião, sucede uma daquelas coisas irritantes: apercebemo-nos de que deveríamos ter trocado de comboio três estações atrás.

Sabíamos que estávamos a poucos quilómetros de Charlles de Gaule, mas numa carruagem que se preparava para disparar para outra freguesia.

Saltámos do comboio, corremos para a estação para apanhar um táxi, mas qual quê. Era domingo e os taxistas parisienses também leram a bíblia e sabem muito bem que o Senhor “ao sétimo dia descansou”.

 

Desesperados e cheios de vontade de passar o resto do fim de semana em família, perguntámos na bilheteira se não conheciam um taxista caridoso que nos pudesse socorrer. Lá nos deram um número de telefone, lá ligámos ao senhor que convictamente afirmou que viria immediatement e agachámo-nos numa paragem de autocarro à espera.

 

De repente, ouvimos um feroz chiar de pneus e, do meio de uma curva, surge em câmara lenta, com duas rodas no ar...um belíssimo Fiat Multipla.

 

A nossa gratidão foi tal que, envergonhadamente, tivemos de dar a mão à palmatória e eleger, desde esse dia, o Fiat Multipla como o “Carro Mais Bonito do Mundo”.