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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Quo vadis?

Ando a constatar que, muito frequentemente não faço ideia nenhuma daquilo que ando nesta vida a fazer.

Não falo de questões metafísicas existenciais do género quem sou eu, de onde venho, para onde vou. Falo de não saber mesmo o que ando a fazer nomeadamente no que concerne à educação dos meus filhos.

Que eles não trazem manual de instruções, já todos nós sabíamos muito antes de termos ancas que se vissem, por isso, aprendemos desde logo que a coisa tem de se fazer numa lógica causa/ efeito; tentativa/ erro.

Mas se em teoria, o assunto não nos oferece grandes preocupações, chegada a parte prática o caso muda de figura.

Tenho tendência (sempre tive) para ver como definitivo tudo o que acontece. Para mim não existe na prática o conceito de evolução. É uma palavra apenas, como se nós não fossemos suscetíveis de mudar. Daí a imaginar que uma mentira em que apanhe um dos meus filhos fará dele um aldrabão, que um acesso de preguiça fará com que se torne num pária ou que uma má nota acabará com a carreira académica dele, vai um passo apenas. Um passinho.

Todos os dias dou por mim a vaticinar futuros sangrentos e solitários para os meus meninos com frases do género: filho, pergunta tu à senhora, se queres saber vai lá e pergunta. Coragem! Na vida temos de ultrapassar as nossas inseguranças, se não tentares nunca vais saber se conseguirias. E ele: Ó mãe, eu só quero saber se têm Beyblades e a senhora não me liga nenhuma!

Basta que um deles não corra desenfreado para a mesa assim que eu chamo a primeira vez e já dou comigo a dissertar sobre – se estivesses na guerra, numa trincheira, e eu te mandasse baixar a cabeça, sabes que ou baixavas logo ou arriscavas-te a ficar sem ela. As ordens são para cumprir imediatamente!

E isto sou eu controlada. Ponderada. Porque as coisas que às vezes me passam pela cabeça até a mim assustam. Aqui há dias, à nega da mais velha perante a chamada para o banho, dei por mim a pensar aterrorizada (pensei mas não disse), que ela ia cheirar mal e depois ia ser chamada de Fricassé na escola, e ia ter uma depressão e ia andar sempre a chorar por não ter amigos e a coisa acabava numa tragédia.

Mas, conscientemente, eu sei que não há relação nenhuma, ou se há, que é muito ténue, entre o que eles são hoje e o que serão no futuro.

Quando eu era adolescente conheci um rapaz que era excelente aluno, aplicado, obediente, mas  super controlado por uns pais super preocupados. Era só amor, o que aqueles pais sentiam, mas foi demais, pressionaram demais, controlaram demais e o rapaz acabou drogado, desesperado, doente e sem hipóteses nenhumas de alguma vez vir a ter o futuro que os pais tanto lhe desejavam.

Ainda ontem estive com uma moça que os pais largaram em casa de uns tios amorosos mas muito pobres, quando tinha dois anos. Ambos os progenitores foram à vida deles, casaram, tiveram outros filhos e nunca mais lhe ligaram a mínima. Ela viveu a vida inteira mesmo ali ao lado, sabendo que só não vivia com nenhum deles porque não havia espaço para ela nas suas novas vidas. Hoje é uma pessoa equilibrada, trabalha e é competente, tem uma família que adora e que a adora. Teve depressões, foi uma pessoa muito triste durante muito tempo. Vergou, mas não partiu.

Conheço vários que foram adolescentes alucinados e sem orientação, que passaram grande parte da vida a fazer asneiras, foram presos, partiram carros, assaltaram casas, drogaram-se. E hoje estão lindamente na vida, são adultos responsáveis, pais dedicados, profissionais competentes. E outros que passaram por tudo isso e acabaram muito mal.

Outros conheço que tinham tudo, tiveram todas as oportunidades, mas não souberam ou não quiseram fazer nada com elas. Andam por aí, vivem pendurados em créditos, são vigaristas, jogam, bebem. E outros que não.

É uma questão de pura sorte. Eles (os novos nós) mudam tanto e tão depressa que já estão a regressar quando nós ainda estamos a tentar perceber o caminho para ir. É uma ilusão da nossa parte convencermos-nos de que a maior parte do trabalho somos nós que o fazemos. Não somos. São os amigos deles, as pessoas que escolhem para se relacionarem, o meio em que vivem, a terra onde calhou crescerem. Nós só podemos condicionar essas escolhas na medida em que está nas nossas mãos dar um bom exemplo, decidir escolas para eles frequentarem, ajudá-los a escolherem desportos e actividades, decidir o prémio ou o castigo que melhor se aplica a cada situação. Fingir que sabemos sempre o que fazemos, qual é a decisão correta, a fronteira linear entre o que está certo e o que está errado. E depois, resta-nos estarmos muito atentos, muito presentes. E falarmos uns com os outros e com eles. Partilharmos experiências, dúvidas, convicções.

O resto, tudo o resto e desde muito cedo, será com eles.

Só depois, quando o resultado surgir esmagador, é que saberemos se fizemos bem a nossa parte ou se nos vamos culpar para sempre do fracasso deles.

E a subjetividade de tudo isto às vezes assusta e quase sempre desorienta, mas dá todos os dias um prazer imenso.

 

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