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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Biblioteca Desesperada

 

 

A idade adulta veio-me trazer problemáticas inesperadas.

Sempre tive o culto do livro enquanto objecto. Gosto de passar a mão pela capa, ler um parágrafo ao acaso, tomar conhecimento das peculiaridades dos respectivos autores ou folhear meia dúzia de páginas para sentir a textura do papel. Sei que cada um daqueles tomos encerra uma história irrepetível e dá-me um infinito prazer possuí-los. Como se a posse me atribuísse a mim um bilhete de entrada para cada uma dessas histórias. 

 

Com o meu primeiro ordenado comprei a colecção completa do Asterix. E depois fui por aí fora. Ora para coisas mais literárias, ora para as últimas novidades, ora para mera literatura de cordel, sem qualquer tipo de objectivo intelectual.

 

Se juntar às minhas compras compulsivas algumas heranças surripiadas por aqui e por ali, mais uma catrefada de títulos técnicos sobre uma panóplia de assuntos que me interessam, posso dizer com toda a segurança que, ao fim destes anos, tenho uma colecção de livros consideravelmente variada.

 

É evidente que não os li todos. Guardo-os porque me fazem companhia.

 

Há coisa de dois anos mudei de casa, empacotei a livralhada e juntei ao lote mais uns caixotes que não tinham chegado a ser abertos desde a mudança precedente.

Foi tudo direitinho para a garagem, à espera que algum carpinteiro caridoso viesse tirar medidas para os alojar condignamente.

 

Um dia, ao procurar sem sucesso determinado livro de um poeta brasileiro, tive um ataque de nervos, lancei-me à garagem e desatei a desencaixotar tsunamicamente o espólio livreiro.

 

Encontrei o que procurava mas, face às caixas esfaceladas, vi-me obrigada a construir uma biblioteca temporária a subir em pilhas pelos degraus cá de casa. “Deixa lá, dá-nos um ar boémio” – dizia eu para o meu marido.

 

Na semana passada, e depois de umas quantas dèmarches, lá me vieram montar as estantes. E foi aqui que o verdadeiro problema começou.

 

Apesar de estar a par de várias correntes de organização livreira, não consigo seguir a ordem lógica do comum dos mortais. Claro que o bom senso me diria para arrumar poesia para um lado, escritores portugueses para outro, mais os brasileiros, os angolanos, Mias Coutos e Germanos de Almeida, etecetra por aí fora.

 

Mas tenho sempre presente o sentimento da amizade entre autores, a afinidade de registos ou a época em que li as obras.

Não consigo arumar um livro de Braque sem ser ao lado de um de Picasso. Ou pôr a Zélia Gattai longe do Jorge Amado. E o Agualusa, sei lá porquê, acho que gostaria mais de ficar ao lado do Mia Couto do que do Pepetela. O Nick Hornby deixo-o mesmo à beirinha do Augusten Burroughs. O Paul Auster coladinho ao Julian Barnes e, claro, seria inconcebível que o Gonzalo Torrente Ballester não pudesse cavaquear com o Gabriel García Marquez.

 

Dado que não há ordem alfabética, nacionalidade ou temática que me valha, e que estou prestes a perder a sanidade, começo a considerar seriamente a hipótese de arrumar a eito tudo o que não li e despachar para um alfarrabista o que quer que seja que já tenha sido mandado abaixo.

 

Afinal, diz-se por aí que o evoluir do desprendimento material é uma das mais vincadas características da chegada à idade adulta. Devo estar a ficar crescida.

 

 

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