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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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A propósito de Francisco Sá Carneiro

O João Gonçalves escreveu este post antes do momento em que o encontrei na Sala de Leitura da Assembleia da República, a propósito da apresentação do livro de Maria João Avillez sobre Francisco Sá Carneiro. Tal como o João, tenho a primeira edição (e única) da Cognitio de "Solidão e Poder" na estante. Ao contrário do João, não comprei esta reedição da Leya (apesar da minha admiração por esse cavalheiro inatacável que é o João Amaral outrora meu director no Semanário) pela simples razão de que é exactamente igual à anterior. Mas admito que a capa nova é substancialmente melhor.

Perdoem-me se tergiverso mas o que pretendia dizer, indo à essência da coisa, é que tanto a autora do livro quanto João Salgueiro e Pedro Lomba repetiram - com as devidas variações mais ou menos conseguidas de acordo com a capacidade oratória de cada - o mesmo que o João tinha escrito pouco antes a propósito do regresso da série do Dr. House. Ou seja, que "Os tempos não são exaltantes, a mediania domina". Pior. Todos os oradores estavam de acordo com René Guénon no sentido em que, para eles, vivemos o Kaly Yuga da política, sendo Francisco Sá Carneiro um exemplo dessa anterior Idade Dourada em que ainda existiam minotauros, sereias, unicórnios e políticos a sério que pensavam na Pátria.

A mim isso provoca-me alguns fernicoques. Entendam-me se fazem favor: Não questiono as qualidades políticas de Francisco Sá Carneiro. Jamais o poderia fazer. Mas ter existido um político brilhante tragicamente cerceado no apogeu da sua vida não deve ser pretexto para, naquele lugar onde estava reunida uma parte significativa da nata da Nação, os seus representantes repetirem que algures numa hora que entretanto ninguém consegue situar exactamente quando o relógio a bateu veio o dilúvio, sendo que agora não há políticos à altura dos desafios que se nos apresentam.  

Vivemos o tempo que vivemos. Não são piores do que outros foram. Grandes pessoas existiram em Portugal e outras grandes existem agora e existirão depois. Mais do que a memória, o saber ali reunido, naquela sala entre convidadas e convidados que são há muito tempo alguém, deveria transmitir a força de uma continuidade de valores, de esperança na capacidade reunida de transformação e vitalidade, de continuação de tudo aquilo que Sá Carneiro tinha de bom. Ouvir em vez disso que as pessoas já não confiam nos políticos de hoje - e ainda por cima já nem sequer nos magistrados como acrescentou João Salgueiro como se as razões dessa desconfiança fossem alheias a quem lá estava - não colhe.

Curiosamente, neste mesmo dia, a "comunidade" portuguesa no Facebook escolhia como imagem de cada pessoa uma personagem que os tivesse marcado quando pequenos. Não havia Sá Carneiro. Havia Vickies, Heidis, Bambis e afins. 

Pulamos de emoção quando regressamos à infância. Compreende-se. Mas é bom que se perceba que quando somos adultos temos responsabilidades. Uma é darmos o exemplo. A outra é não contribuirmos para o desespero de quem nos segue. E hoje, entre a evocação de alguém que foi quem foi, tinha prescindido de ouvir os discursos apenas focados na impossibilidade de outros líderes o serem e nós, Portugueses comuns, sermos com eles.

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