De mão estendida.
O descrédito de Portugal atinge neste momento níveis que nunca pensei que fossem possíveis de ser atingidos, com a complacência dos nossos governantes que, perante o descalabro das contas públicas e a desconfiança dos investidores na nossa capacidade de pagamento, pedem agora a qualquer país do mundo que pelas alminhas nos compre os títulos da nossa dívida. Depois da China, surge agora a vez de Timor-Leste.
Tive a ocasião de visitar Timor-Leste em 2000, realizando uma acção de formação de magistrados no território. Encontrei um país completamente arrasado pela destruição deixada pelos indonésios, que durante quase vinte e cinco anos tinham explorado os recursos do povo timorense. Esse povo vivia então numa enorme miséria e, embora o país tenha petróleo, as dificuldades económicas que atravessava levaram a que o nosso Primeiro-Ministro, António Guterres, tivesse prometido que Timor-Leste passaria a ser o destinatário principal da ajuda portuguesa, com sacrifício da que habitualmente enviávamos aos outros países lusófonos.
Passaram dez anos, sem que me pareça que a situação económica timorense tenha melhorado por aí além, até pelas rebeliões e confrontos que surgiram no território, tendo havido até quem falasse na possibilidade de Timor-Leste se tornar um "Estado falhado". Não obstante, a situação portuguesa degradou-se de tal maneira que é Timor-Leste que agora se oferece para comprar a nossa dívida. Passámos assim para os timorenses de país doador a país pedinte. Ninguém pensa um pouco no descrédito que isto representa para a imagem do nosso país no mundo e especialmente na CPLP?
O Presidente Cavaco Silva diz que a ajuda de Timor a Portugal "não o choca". Pois a mim não apenas me choca imenso, mas sobretudo me revolta. Revolta-me o estado a que se deixou chegar este país, sem crédito no exterior, aceitando qualquer ajuda externa, incluindo de um país com um grau de desenvolvimento muito inferior. Revolta-me o desrespeito do Estado pelos contribuintes, a quem cada vez cobra mais impostos, e pelos seus próprios funcionários, a quem acaba de reduzir unilateralmente os salários. E sobretudo revolta-me a complacência da nossa classe política que acha normal a decadência cada vez maior do nosso país, assistindo de braços cruzados à queda no abismo. Que mais é preciso para que se perceba que continuar neste caminho é insustentável?