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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Para inglês ver

A anterior líder do PSD, Manuela Ferreira Leite, afirmou certo dia que era preciso suspender a democracia durante seis meses.

Na altura, houve um coro de críticas e lembro-me de ter escrito que se tratava de uma ironia falhada. No entanto, as últimas semanas da política nacional mostram que a frase corresponde de facto a um pensamento instalado e em que alguns parecem acreditar.

 

No actual ciclo de governação, que começou em meados da década de 90, Portugal gastou o que tinha e o que não tinha. A realidade acabou por se revelar mais forte do que a ilusão de prolongar eternamente a vida de novo-rico falido. Como é habitual em crises profundas, serão os portugueses comuns a pagar os desvarios da sua elite política e as loucuras de um grupo de dirigentes que se especializou na técnica de sacudir a água do capote.

Já escrevi neste blogue que o ciclo político que agora acaba não foi apenas marcado pela estagnação económica e o endividamento, mas representou o esplendor do bloco central. Este era um esquema confortável que não obrigava ninguém a governar bem: havia uma partilha garantida do poder, de quotas partidárias para os lugares, uma parte para quem ganhasse e outra para a oposição, sendo que os dois partidos do meio começaram a ser a imagem um do outro reflectida no espelho. Como não existe responsabilidade, o mérito não tem significado. Fizeram-se muitas carreiras baseadas na total ausência de ideias. Quem não agitasse o barco tinha um lugarzinho garantido e tranquilo onde não precisaria de provar mais nada a ninguém. O regime excedeu-se na criação de tachos e de prateleiras douradas. Agora, chega a factura dolorosa desta forma de vida insustentável.

 

Há duas frases proféticas atribuídas a António Guterres que ironicamente resumem este período da história do país: "É a vida" e "No jobs for the boys".

Em 15 anos, a mentalidade do bloco central entrou no discurso diário. As pessoas resignam-se, é a vida, e se houve alguma coisa foi jobs for the boys. Abre-se a televisão, por exemplo, e a maioria dos comentadores usa palavras como "estabilidade" e "segurança" com a maior das naturalidades. Discutir política tornou-se coisa ruim e só existe um discurso tolerado, aquele que repete as noções de união, consenso ou equilíbrio. Apresentar uma ideia nova é motivo de chacota nestes programas. E os moderadores dos debates são por vezes os mais trocistas.

Tudo aquilo que possa ameaçar a unanimidade mole da sociedade portuguesa é visto como ameaça nacional, quase traição. Mudança ou ruptura são palavras proibidas, excepto em simulacro.

 

Este fim-de-semana, o País foi surpreendido por uma ideia que já estava a ser preparada em alguns sectores: trata-se de um governo de salvação nacional. Sócrates é afastado, os dois maiores partidos põem-se de acordo, Belém abençoa e forma-se um novo governo, sei lá, com Luís Amado à frente. Este governo não eleito resiste dois anos, tempo mais do que suficiente para substituir a actual liderança do PSD, regressando a anterior líder ou outro dos eternos futuros líderes desta bizarra formação. A única exigência que se fará ao futuro líder do PS e ao provável futuro líder do PSD é que mantenham o bloco central intacto, desta vez com tutela presidencial à maneira de Sidónio Pais.

Estamos em crise e os mercados pressionam? Então, façam de conta de que o país está muito unido em torno de um desígnio nacional. Finjam que se fez uma grande mudança, para que tudo possa ficar na mesma.

Reza a lenda que a czarina Catarina a Grande tinha um ministro, Grigori Potyomkin (Potemkin), que lhe mostrava aldeias sorridentes cheias de camponeses felizes. E a monarca andava convencida de que todo o país era igual às aldeias que via, as mesmas que os serviços do ministro tinham embelezado antes da sua passagem.

Nós temos a versão "para inglês ver". De um país a fingir, que precisa de se mostrar "estável", sem vozes a desafinar, só para os mercados se convencerem de que somos a sério. 

 

Sobretudo, que ninguém se atreva a abanar o barco!

E esqueçam por um momento que um governo de salvação nacional que não passe primeiro por eleições equivale a suspender a democracia por dois anos, além de ser muita maçada só para mudar o líder do maior partido da oposição.

É incrível ver o actual desespero dos sectores que beneficiaram do statu quo. Que temem eles, exactamente?

Temem talvez o próximo ciclo político, que será marcado por uma nova lógica, mais parecida com aquilo que existe no resto da Europa. Se olharmos os sistemas francês, inglês, alemão, espanhol, e por aí fora, vemos partidos de esquerda e partidos de direita. A esquerda alterna com a direita, em ciclos de dez a 12 anos. Dois mandatos, por vezes três, garantem estabilidade em doses mais do que suficientes. Quando o eleitorado se cansa de um grupo, vem o outro. Há poucas maiorias absolutas e muitas coligações. Em crises ou períodos de transição, há grandes coligações. Sublinho, só em períodos de transição, nunca como sistema.

Porque é que Portugal não pode ser igual aos outros? O que há de errado com uma lógica direita-esquerda? É certo que a esquerda precisa de mudar um pouco: o BE abandonaria o seu estatuto de partido de protesto, entrando na órbita do poder. E existe o problema do PCP, que pode dificultar maiorias estáveis.

Mas não há nenhum obstáculo que impeça este modelo e, repito, o país precisa de mudança. Para que esta seja possível, PS e PSD têm de deixar de ser os irmãos gémeos indistintos um do outro. Têm de deixar de ser o mesmo tipo de agremiação sem ideologia, género centro de emprego. CDS e BE precisam de entrar na esfera das decisões, em vez de juntarem apenas as ideias de protesto.

O bloco central deixou de ser uma solução e passou a ser o problema do nosso sistema político. O governo de salvação nacional não vem salvar nada, apenas prolongará os erros que já existem, impedindo ou adiando uma mudança de ciclo.

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